sábado, agosto 25, 2007

Verão

A par do fenómeno sazonal dos incêndios, já devidamente interiorizado no modus operandi nativo como sendo inevitável e requerendo cada vez mais meios num crescendo de complexidade imparável, este Verão vem presenciando um novo fenómeno que consiste nos assaltos de Verão.
Desde o assalto e destruição de milho transgénico em Silves à vandalização de descrições na wikipédia, esta nova modalidade vai certamente ganhando adeptos entre os lusígenes, criaturas resultantes da manipulação genética de lusitanos e aborígenes.

Para quem gosta de ver o céu preto polvilhado de astros vários nas noites quentes de Verão, o Stellarium e a nova versão do Google Earth oferecem de borla guias estelares que após descarregados ajudam a interpretar o que se vê de noite quando se olha para o ar, sem nada que fazer. Ajudam, por exemplo, a distinguir entre Constelações e Galáxias, pelo que os recomendo vivamente à Clara Ferreira Alves antes de se espraiar a escrever disparates como os que foram publicados na Única do Expresso numa semana passada, por exemplo.

Uma das grandes vantagens do Algarve em Agosto é poder-se visitar, nas calmas e sossegadamente, o IKEA de Alfragide. Até os berros das criancinhas estão ausentes, enxameando como estão os restaurantes do sul, para castigo dos pais delas e dos das outras que berram ao lado delas.
Quanto ao de Matosinhos, não sei.

Canícula

Quando era puto, o Alentejo era enorme no Verão. Era impensável percorrê-lo de bicicleta, e o próprio acto de imaginar isso adquiria foros de arrogância indesculpável. Isso era só para os tipos da Volta, uma seita de alienígenas que viviam em tocas o ano todo e que, de repente no Verão, enquanto toda a gente ia para a praia deixando Lisboa entregue aos pombos, desatavam a pedalar furiosamente Lusitânia fora envergando camisolas de clubes de que nunca se ouvia falar durante o resto do ano como Flandria, Sangalhos, Caves Messias, e o camandro.
Sempre que se mencionava um episódio de doping nas equipas do Benfica ou do Sporting a culpa era normalmente da mistela inclusa no Sumol ou na Laranjina "C" oferecidas, invariávelmente por adeptos do Sangalhos, aos corredores durante a prova.
Ininterruptamente perseguidos por enxames de veículos atestados de ébrios e cravejados de componentes velocipédicos, amavelmente acompanhados por escolta motorizada da GNR, circulavam a velocidades inconcebíveis atingindo mais de 120 km por hora na descida de algumas serras em várias ocasiões. Este fenómeno, entusiásticamente emoldurado no percurso por hordas de apoiantes indefectíveis, de fato de banho à borda da estrada, aproveitando o acontecimento, o local e o momento para soltarem os impropérios que lhes dessem na real gana mandando tudo para o caralho enquanto batiam palmas convencendo toda a gente que apoiavam os corredores, merecia honras de abertura no Telejornal a preto e branco, anunciado por um batedor de ovos que nunca entendi porque aparecia. Os lugares na primeira fila, perto das meta que se sucediam no final de cada etapa, eram os mais disputados visto serem os melhores para a prática do afinfar-cachação a eito e a preceito no lombo, ou onde calhasse, dos ciclistas en passant, à laia de empurrão, saudação ou incentivo.
Era por esta altura que o céu abrasador do Alentejo se cobria de nuvens e que caía uma chuva miudinha que fazia saltar para o ar o cheiro da terra com toda a força. As voltas à Casa Pequena na Vilar azul requeriam novas manobras de perícia acrescida tendo o piso adquirido vida e feitio próprios, tornado escorregadio e ganhando sulcos que se enchiam depressa com água cor de galão.
Era a canícula, diziam.
 
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