quarta-feira, julho 13, 2005
Redacção - As minhas férias
Nos dias de chuva a neura, o tédio, o fartanço e a parvoeira apossavam-se, insinuantes, de cada um dos habitantes da casa. O cão aproveitava para dormitar perto da grande janela de sacada da sala.
Se por acaso alguém passasse lá fora, um gato miasse, uma folha de jornal de há três dias fosse espalmada pelo vento contra o vidro, acto contínuo o cão desatava a ladrar começando, invariávelmente, por se levantar e esticar as quatro patas com toda a força, olhar para o tecto e para aí dirigir uma sucessão de latidos ensurdecedores até que alguém lhe atirasse um calado! acompanhado de um pontapé ou cachação.
O meu irmão Jaime não perdia a oportunidade para, nessas alturas, acrescentar um pouco mais de educação ao cão socorrendo-se para o efeito de um banco de cozinha e de um pequeno galho de figueira que, como todos os galhos de figueira, não era aproveitado para queimar na lareira. Como quem punha a mesa para o almoço todos os dias, Jaime transportava o banco para junto do animal e poisava-o no chão. De seguida acocorava-se ao pé do cão e enquanto lhe dizia "Tu-és-um-cão-muito-feio" preenchia os intervalos entre as palavras com pequenas mas irritantes traulitadas executadas com o galho de figueira na cabeça do canídeo o qual, escusado será dizer, suportava a coisa com pouca ou nenhuma paciência. Geralmente começava por dar a sua opinião sobre o que estava a suceder a seguir à terceira ou quarta traulitada expondo, numa brancura cintilante e silenciosa, as protuberâncias ósseas com que a natureza se encarregara de lhe ornamentar as fauces.
A passagem ao segundo andamento era subtil e consistia em acompanhar as traulitadas que recebia com rosnadelas a meio gás que, ritmicamente, se acentuavam no momento preciso em que a traulitada era executada.
À medida que o repertório do meu irmão se ia extinguindo, a improvisação tomava o lugar do bom senso, sugestões e conselhos arrastavam-se, alongando-se e decompondo-se silabicamente em frases absurdas que para ninguém faziam sentido muito menos para o cão que, de olhos vítreos, encetara o terceiro andamento iniciando uma série de sinistras roncadelas aspiradas, como quem diz "tás quase, meu cabrão, tás quase". Era então que algo de muito mais estranho acontecia. O cão, que até então olhara o banco de cozinha de solslaio, passou a encará-lo como uma ameaça silenciosa, incompreensível mas real. O arrastar daquele banco de cozinha iniciando esta cena miserável e fazendo parte integrante do espaço cénico onde se desenrolava a acção tinha que ter algum sentido, alguma intenção. Para o cão era óbvio que se tratava de mais um instrumento de agressão e tortura, fruto pérfido do sadismo do meu irmão Jaime. Para nós, que assistiamos vagamente ao que se passava, era só uma questão de tempo até vermos que, inevitávelmente, Jaime se sentaria lá em em cima. Nesse momento, enquanto ele dissertava sobre as contrariedades quotidianas e a importância, ou não, da resignação proferindo frases como "es-ta-mos-to-dos-far-tos-des-ta-chu-va" traulitando a cabeça do cão com suavidade, toda a atenção do cão se encontrava concentada no banco. Quando o nível decibélico a que chegavam as rosnadelas, então soluçadamente aspiradas e expelidas com uma frequência de sprint final, se tornava definitivamente ameaçador para além de qualquer parcela de dúvida, Jaime virava-se de súbito para o banco de cozinha, balouçava-o repetida e rápidamente, numa tosca imitação do que poderia ser um galope Calvinesco, berrando em simutâneo um formidável kiai. O cão, acto contínuo, apoteose final e encerramento, desatava a correr pela sala, alucinação tridimensional completa, com as orelhas esticadas para trás, o rabo entre as pernas a lingua pendente de lado, curvando em slide em volta da mesa grande, pulverizando as garras das patas na tijoleira do chão enquanto recebia aplausos carinhosos e suaves cachações no lombo por parte da assistência.
Era sempre a seguir a este ritual que a chuva parava e o sol aparecia.
segunda-feira, julho 11, 2005
Quem sabe, sabe
sábado, julho 09, 2005
Contra factos não há argumentos.
(...) A área total ardida naquela região espanhola (50.617 hectares - Andaluzia) durante todo este período (1995-2003) chega a ser inferior àquela que se perdeu em Portugal em menos de 24h de alguns dos dias de Agosto do ano passado. (2003) (...)
(...) Ou então que seja o luso fadário o responsável pelos fogos terem varrido, desde 1995, uma área equivalente a 15 por cento do território português, enquanto na Andaluzia essa cifra não atingiu sequer os 0,6 por cento.(...)
(...) remuneração de um elemento de brigada BRICA ascende aos 1200 euros e a dos outros “bombeiros” pouco menos (...)
Contra factos não há argumentos. Só a estupidez, a teimosia e a aldrabice.
Ler o artigo completo aqui.
sexta-feira, julho 08, 2005
Perto do fim
O destino desses milhões de dólares terá sido o recrutamento de pessoas e meios e o financiamento de mais actos terroristas.
Com os recursos petrolíferos do planeta perto do fim, mesmo que o actual preço do barril, em permanente e imparável subida, seja um argumento de peso para que se opte por processos de extracção que, com o barril a 25 dólares não compensariam, e com a procura a atingir níveis inconcebíveis há dois anos atrás, a luta pelo controle da produção acentuar-se-á de forma violenta. Prevê-se que, perto de 2015, o preço do barril atinja os 380 dólares.
O objectivo dos terroristas islâmicos é o dinheiro. Seja ele obtido pelo controle da produção do petróleo nos países árabes, ou pelo controle da produção de papoila de ópio no Afeganistão.
Quanto mais alto estiver o preço do petróleo, mais motivados estarão para a prossecução das suas acções vingativas e de terror. Os países em vias de desenvolvimento, com o crescimento dos PIB na ordem dos 10% ao ano, como a China e a Índia, dificilmente estarão na disposição de pagar cada vez mais caro por aquilo que não produzem: petróleo; e que tão caro e indispensável é ao seu desenvolvimento. Daí à tentação de "anexar" países produtores, vizinhos de preferência, vai um pequeno passo. A recente eleição no Irão do ultraconservador Mahmud Ma Ahmadinejad, partidário do não aumento de produção de barris de petróleo por parte do Irão, não augura nada de bom a um mundo viciado no ouro negro que, em vez de o injectar nas veias, extrai-o, processa-o e consome-o sem cessar, sem se preocupar com a extinção dos stocks.
Pela primeira vez na história da humanidade, começando na era industrial, os habitantes deste planeta dedicam-se, com a intensidade de famintos mamíferos recém nascidos, a consumir desenfreadamente os recursos naturais do planeta mãe, útero cósmico, que os pariu.
O capital inicial, seja ele a pesca, a água potável, a fertilidade do solo, as florestas, os recursos petrolíferos, etc., é consumido com uma voracidade larvar como se Deus, a uma dada altura do processo evolutivo, dissesse: "Matai-vos e comei-vos uns aos outros."
Pela primeira vez na história da humanidade, o anti-capitalismo antropófago globalizou-se, espalhando a sua sanha vingativa pelos quatro cantos do mundo, empenhando a humanidade na delapidação, consumo e esbanjamento dos recursos naturais de um planeta criado há milhões de anos para lhe servir de repasto, de carcaça.
É estafar e deitar fora.
Com a geração "tásse" à beira do poder, provida de polegares hiperdesenvolvidos, inteligência atrofiada e memória inexistente, será em poucos anos que se servirá a caldeirada final, com molho de cogumelos e polvilhada com enxofre.
terça-feira, julho 05, 2005
A barrela metrossexual
Ensinança de virar o bico ao prego, em toda a tábua.
Assim escrevia Eduardo Prado Coelho.
No Público de hoje.
A Inveja é como a República : pequenina, mentirosa e incompetente.

"Criada no reinado de D. João V, após a construção do Convento, como um parque para lazer do monarca e da corte, a Tapada Nacional de Mafra constitui hoje um património natural de características únicas. Numa área de mais de oitocentos hectares, veados, gamos, javalis, raposas, aves de rapina e muitas outras espécies coexistem num cenário de flora invulgarmente rica e diversificada. Local de eleição dos soberanos de Portugal para o lazer e para a caça, a Tapada de Mafra ganhou por isso um cunho próprio de nobreza que ainda hoje é preservado e continuado."
segunda-feira, julho 04, 2005
Monárquicos côr de rosinha...
A seguir à candidatura de Elsa Raposo à Câmara Municipal de Cascais quem se seguirá em Lisboa e Sintra? José Cid e João Braga?
domingo, julho 03, 2005
sexta-feira, julho 01, 2005
The times, they are a changin'
Passou a ser possível, legal e portanto recomendável, a adopção de crianças por "casais" homossexuais.
Para todos os homossexuais?
Não.
Os padres homossexuais, esses, continuam condenados ao celibato.
terça-feira, junho 28, 2005
Divagações III
Para onde quer que me vire, só vejo asneiras, bestas, aldrabões e emproados. Também há gajas boas, prados verdes alguns bosques e alguma caça. Coisa pouca, é certo. Mas ainda assim lá vão sobrevivendo. Há que dizê-lo. Mas não chega.
Lembro-me de caçar coelhos à paulada no bosquedo de Sintra, já junto à várzea, tantos que eles eram. Agora os coelhos são "animais de estimação". Há quem os apaparique e com eles conviva entre dois golos de cerveja e um cigarro enquanto na televisão um anormal qualquer vende carros aos peidos. E os cabrões a semearem esferas de composto pelo cómodos da habitação. É a laparagem em vias de alcançar o patamar evolutivo de canídeos e felinos, é o que é.
Mas apesar de tudo, o mais extraordinário é a metamorfose por que atravessam certos e determinados mamíferos desta terra quando abrem a porta da frente do lado esquerdo das suas viaturas e se passam lá para dentro fechando a porta em seguida. Assim que o fazem, das duas uma: ou se convencem que ficam invisíveis, ou se persuadem em definitivo que entraram numa latrina, entregando-se às mais variadas actividades que o senso comum impede de fazer em público.
Enquanto os machos desta espécie de mamíferos automobilizados se dedica à prospecção geológica das suas próprias fossas nasais, com uma dedicação, intensidade e virtuosismo tais que acabam por conseguir extrair pedaços dos próprios cérebros que depois fitam com uma curiosidade infantil, as fêmeas optam pela make up, exibindo toda uma variada gama de expressões e esticanços da derme facial enquanto finalizam os acabamentos: rimmel, bâton, base, pó-de-arroz, etc, etc, etc., que, em última análise e como o próprio nome indica, tem como objectivo fazer subir algo.
Mas é com as referidas viaturas em movimento que se operam as transformações mais extraordinárias. O pálido, pacífico, anónimo, incompetente e excedentário funcionário público assume posturas de patrão impiedoso, esbracejando e gesticulando com o frenesim próprio de um primata em marcação de território. O facies distorcido por um incomensurável ódio furibundo espelha uma guerra total, de vida ou de morte, entre ele próprio e o resto do mundo, que se resume a literalmente tudo o que se encontra no exterior da caixa de lata em que se desloca. Relva e pássaros incluídos. O volante, por exemplo, deixa de servir para a execução de manobras de mudança de direcção para se tornar num misto de balcão de bar onde apoia as patas roliças e papudas e um par de rédeas com as quais opera de surpresa súbitas guinadas ora para a esquerda ora para a direita, qual Messala alucinado quadrigando-se contra uma chusma de Ben-Hurs no Coliseu de Roma.
Os pequenos farolins de cor amarelada ou laranja, os chamados pisca-pisca que, quando utilizados com calma e oportunidade, emitem uma luz intermitente com o objectivo de comunicar o sentido de uma mudança de direcção que se avizinha, são coisa de paneleiros: " Um gajo vira quando quer, olha o caralho, e quer que se foda".
A Sancha é da opinião que os besuntas automobilizados o que querem é poupar os piscas para os usarem nas árvores de Natal. Talvez.
Conheço um tipo que um dia, num cruzamento qualquer em Lisboa e prestes a ser cilindrado por um besunta destes, estacou o carro, saiu e dirigiu-se em passos rápidos à guarita do alarve que o ia abalroando. Num tom ríspido e autoritário que não admitia contestação berrou: " A carta!" . O besunta, persuadido de que se encontrava perante uma autoridade, de pronto lha apresentou. O tipo abriu a carta (nesse tempo era um desdobrável em cartolina cor de rosa), confirmou que a fotografia era a do assassino que quase o rebentara, voltou a fechá-la e rasgou-a em quatro devolvendo-a em seguida. Diz ele que jamais se esqueceu da expressão do outro, imóvel no cruzamento enquanto ele arrancava rindo à gargalhada.
segunda-feira, junho 20, 2005
Meteoropirologia
Este serviço, pasme-se, é fornecido pelo Instituto Nacional de Meteorologia.
Como a canícula ou os nevões, os incêndios passaram a ser um fenómeno meteorológico natural previsível e sazonal.
quarta-feira, junho 15, 2005
Coincidência ou não, eis que se calam as cortesãs ofendidas aquando do último dia de luto nacional: o dia do funeral da Irmã Lúcia.
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Sai de cena quem não é de cena, diz mecânicamente sorrindo António Guterres quando questionado sobre a sua saída de líder da Internacional Socialista. Provávelmente a frase que ele mais ouviu na última campanha eleitoral em Portugal.
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Boato 1 : Por exclusão de partes à esquerda, Mário Soares vai-se candidatar a Presidente da República.
Boato 2 : Por reflexo, Freitas do Amaral candidata-se também.
Boato 3 : Por fastio, Mário Soares desiste da sua candidatura a Belém.
Boato 4 : Por arrastão, Nino Vieira aparece na corrida.
segunda-feira, junho 13, 2005
Razoávelmente improvável
domingo, junho 12, 2005
Post mortem
sexta-feira, junho 10, 2005
quinta-feira, junho 09, 2005
Verão quente de 2005
2. Por causa disso António Vitorino irritou-se, percebendo que jamais será candidato às presidenciais de 2006.
3. Sócrates manobra à direita recorrendo a medidas drásticas para a redução da despesa pública. Os deputados republicanos do PS não gostaram. Ao ponto de alguns deles estarem dispostos a pôr os lugares à disposição.
4. O reconhecimento da inevitabilidade sazonal dos incêndios comprova em definitivo o que se suspeitava há muito: que os fogos em Portugal dão de comer a muita gente.
5. Segundo a Única da semana passada, prevê-se uma mudança radical nas cores da bandeira nacional, nomeadamente a substituição do verde/vermelho pelo azul, obedecendo assim ao princípio universal que estipula uma mudança de logo quando se quer melhorar a performance de uma marca no mercado...
quarta-feira, junho 08, 2005
Mais do mesmo, servido a quente
Em Agosto de 2004, a revista Grande Reportagem publicou um excelente trabalho de Pedro Almeida Vieira sobre as diferenças de abordagem do problema dos incêndios em Espanha e em Portugal. Num post de 30 de Dezembro de 2004 reproduzi, na íntegra, o texto desse trabalho.
Dar a conhecer essa diferença de abordagens de um mesmo problema grave é importante.
Uma coisa é o poder republicano convencer as suas hostes que, pobres coitadas jamais conheceram outra realidade, todo o trabalho possível está a ser feito, que os investimentos na prevenção e combate aos incêndios são muitos e por demais evidentes, e que a crise económica que Portugal agora atravessa não dá para mais.
Outra coisa é as hostes cá do reino terem acesso a informação que lhes mostre e prove, por a + b , que o regime republicano mente com quantos dentes tem nas fauces, interessado como está em perpetuar um status quo que favorece a especulação imobiliária e a degradação gradual e permanente de um património que é de todos inviabilizando uma qualidade de vida a que todos temos direito.
Agora a sério. Encham-se de paciência e leiam o trabalho de investigação que o Pedro Almeida Vieira levou a cabo na Andaluzia "(...) território com uma dimensão geográfica idêntica à de Portugal Continental e com uma área florestal de cerca de 4,3 milhões de hectares, há mais de uma década que os incêndios deixaram de ser uma fatalidade. Entre 1995 e 2003, por exemplo, a Andaluzia perdeu menos floresta e mato do que Portugal em 24h de alguns dias de Agosto do ano passado. (...)




