terça-feira, agosto 23, 2005

Actos Políticos I

Nos últimos tempos, a interrupção das férias tornou-se o acto político por excelência. O acto de entrar em férias, aliás, passou a ter todo um outro significado a partir do momento em que a classe política descobriu o potencial de merchandising directamente relacionado com essoutro acto sublime, de altruismo incondicional e nobre amor à pátria que consiste em Interromper as Férias.
A própria sonoridade da expressão, aliás, tem um je ne sait quoi de pré-parto, relação vaga com o romper das águas. A classe política passou a encarar o acto de partir para férias, tão caro, quiçá sagrado, para a generalidade de todos nós, portugueses, como uma antecâmara de estadia provisória ou preparação iniciática para a entrada triunfal em todo um outro iluminado estado de consciência, prenhe de tiques de liderança e impulsos de auto-sacrifício que é revelado precisamente no acto de interromper essas mesmas férias.
O arranque para esta nova abordagem terá partido do próprio Mário Soares, no dia do seu aniversário, ao anunciar públicamente a sua retirada da vida política activa vociferando um rotundo e ensurdecedor Basta!, dado não se sentir com fôlego suficiente para apagar as oitenta e três velas do seu bolo de aniversário. (Diz-se à boca pequena, nos soturnos e sombrios corredores do poder, que alguém da facção Socrática terá acrescentado mais uma vela ao bolo sem saber que outra facção, a de Alegre, já teria acrescentado outras duas velas por seu lado. Só para chatear.)
Eis que poucos meses decorridos interrompe o seu afastamento da vida política activa, leia-se férias, para se apresentar como O Candidato presidencial da esquerda unida.
No entanto, curiosamente, a utilização e manuseamento deste novo potencial denominado Interromper as Férias, não é encarado unânimemente por todos os intervenientes. Há, por exemplo, quem encontre mais força na mensagem contida na opção de Não Interromper as Férias do que no acto sublime de interrompê-las. José Sócrates concluiu que o Acto Político mais forte, com mais potencial de merchandising, seria providenciar para que o cargo de 1º Ministro fosse exercido por António Costa durante o período dos incêndios em Portugal, visto ter preferido não interromper as suas férias.
Já Jorge Sampaio não.
O presidente da república optou claramente pelo auto sacrifício ao interromper as suas férias para melhor se inteirar, in loco, dos arrasadores resultados provocados pelos incêndios na mancha verde do território nacional, já que os seu dez anos/dez verões de Portugal ardendo foram insuficientes para que, como Chefe de Estado que foi e é, diligenciasse tomar medidas definitivas para acabar com esta tragédia.
Até o próprio presidente da Comissão Europeia, a passar o fim das suas férias no norte do país, não hesitou em interromper as suas férias, fazendo questão inclusive em mencioná-lo, para assim poder dar um pulinho ao incêndio mediáticamente mais relevante e geográficamente mais próximo onde, subliminarmente, assinalou a importância de se ter um dos nossos no poder europeu para que a ajuda internacional no combate aos fogos nacionais se processe com rapidez.

segunda-feira, agosto 22, 2005

Faz hoje um mês

O Movimento 560 tem como objectivo promover a compra de produtos portugueses por portugueses. Para isso "descodificou" o código de barras concluindo que são de origem portuguesa ou distribuídos por Portugal todos os produtos que tenham associados ao código de barras um número começado por 560. Descobri isto ao ler este post d'O Sexo dos Anjos.
Mas o melhor é irem até .

Bombardeiros de água

Plenamente convencido da generosidade europeia, da sua capacidade inesgotável em repetir os mesmos erros e perdoar os dos países membros prevaricadores, o ministro da Administração Interna de Portugal sugere a construção de um bombardeiro de água europeu, custeado pelos contribuintes europeus, para apagar os fogos europeus. Leia-se fogos portugueses, uma vez que os restantes países europeus têm o problema dos incêndios em adiantado estado de resolução.

sexta-feira, agosto 19, 2005

De partida

Eis a última foto conhecida de Pedro Lomba, Pedro Mexia e Francisco José Viegas precisamente quando começavam a ser tele transportados, beamed up, as they say, de Fora do Mundo para um outro planeta qualquer da blogáctica.
Prova irrefutável desta partida é, igualmente, o fim do Aviz.
- Hasta la pasta!- said the bishop to the actress.

quinta-feira, agosto 18, 2005

Parabéns

Ao Eclético e ao A Causa Foi Modificada, pelos dois anos de travessia nos vastíssimos e surpreendentes oceanos da blogos. Que o diga o maradona (com minúscula) após recente pesquisa no Google Images.

terça-feira, agosto 16, 2005

Reformas

Face à iminência de falência total do regime partidocrático republicano, surge a ideia peregrina do PS de avançar com uma proposta que visa a criação de círculos eleitorais uninominais. Sendo a melhor forma de abortar processos de reformas em Portugal controlar o processo do seu desenvolvimento desde o início, do seu anúncio à sua concretização, esta iniciativa é contranatura por partir dos que se auto reclamam herdeiros do republicanismo puro e duro de 1910, este sim, responsável pela extinção dos círculos uninominais criados na 2ª metade do século XIX, no tempo em que o General António Maria Fontes Pereira de Melo era Ministro da Fazenda.
Esta ideia do PS é tão contranatura como, nos anos 80, a criação do Partido Ecologista "Os Verdes" pelo PCP, filiado da URSS onde na altura agonizava um regime que fez da indústria extractiva e transformadora o baluarte de um desenvolvimento a todo o preço que tinha tanto de ecologia como água tem o deserto. Ao criar essa melancia chamada PEV, o PCP retirou espaço de manobra a qualquer outro tipo de grupo ou associação que, emergindo, se reclamasse da ecologia procurando afirmar-se no espectro político de então.
Só o PPM já moribundo na altura se reclamava, e bem, como partido ecologista.

Controlando o processo da criação de círculos uninominais, o PS tudo fará para que as regalias e benesses conseguidas para a nomenklatura partidocrática em pouco ou nada sejam atingidas, puxando para uma regionalização que, embora negada em referendo, se avizinha cada vez mais como reforma inevitável. Um dos argumentos que se farão ouvir na rentrée será o da falência do actual regime de ordenamento do território (leia-se RAN e REN) "provada à saciedade pela calamidade anual dos incêndios", dirão.
A criação dos círculos uninominais mais não será do que a redacção legislativa das regras da regionalização que se avizinha.

segunda-feira, agosto 15, 2005

Histórias de encantar V

Era uma vez um cego que tinha um cão.
O cego ia a vários sítios na cidade com o cão. Um dia chegou ao lado de cá da Av. da Liberdade que é o lado do S. Jorge e do Odéon. Resolveu ali e então que era altura de atravessar para o outro lado.
Aproximou-se da beira do passeio com o cão pela trela. Percebeu pelo som dos carros a abrandar e pelo disparar do sinal sonoro que era altura de atravessar. Deu um passo e estacou. O cão permanecia quedo, imóvel. O cego puxou pela trela, puxou, puxou e o cão nada. Assim que a cor do semáforo mudou para verde os carros arrancaram e o cão idem, arrastando o cego aflito para o meio do trânsito enquanto se faziam ouvir buzinas, chiar de pneus e impropérios. Chegados ao pimenteiro e saleiro a meio da avenida o cão estacou. Os carros também. De novo se ouviu o sinal sonoro indicando ser o momento seguro para a travessia do resto da avenida. E o cego puxou o cão e o cão nada. Imóvel, teimosamente parado. Nova mudança na cor dos semáforos e o cão relança o dono cego na alucinante travessia pelo meio do trânsito. Chegados finalmente ao outro lado, o cego parou e, trémulo, tirou um pacote de bolachas Maria de um saco de plástico azul cueca.
- Toma toma... - balbuciava o cego para o cão enquanto este, esticando a trela, tentava desesperadamente manter-se o mais afastado possível do dono. Um transeunte que passava e testemunhara a alucinante travessia e o obstruso comportamento do cão não se conseguiu conter de espanto e inquiriu o cego:
- Então o senhor vai dar bolachas a esse cão de um cabrão que quase o ia matando ?-
- Eu ? Nããã. Só quero saber onde está a cabeça do gajo para lhe dar um valente chuto nos tomates.

domingo, agosto 14, 2005

Tu também? (*)

Agosto à tarde. Esplanada em Lisboa. Pouco trânsito, ar quente, turistas.
- Então pá? Vais ver os U2 ?
- Quem ? Eu? -
- ... -
- Tás parvo ou quê? Eu não dou vinte contos para ir às putas e pagava quarenta para ver esses picolhos dum tinhoso?
- Eh eh. Pois.

(*) U2 = U too = You too?

sexta-feira, agosto 12, 2005

Desprezo II


«Os incêndios são preocupantes quando há pessoas e bens afectados, mas a situação não é de uma enorme gravidade do ponto de vista da conservação da natureza»

Humberto Rosa, secretário de estado do ambiente, referindo-se aos 15.500 Ha de área "protegida" ardida, no rescaldo dos incêndios deste ano.

Desprezo I

"...O Ministério dos Negócios Estrangeiros (...) não é uma agência de viagens..."

Resposta de Carneiro Jacinto, porta voz do MNE, dada hoje quando inquirido sobre que ajuda e diligências por parte dos serviços da Embaixada de Portugal em Londres podiam os portugueses retidos em Heathrow contar.


«As embaixadas e os consulados existem para dar aquilo que nós chamamos protecção consular às pessoas. Significa pessoas que estão com dificuldades, de saúde ou outras. Não significa que são para resolver problemas de pessoas que estão em turismo e ou em viagens de negócios e que apanham com uma greve pela frente»

Como na Tailândia após o tsunami de 24 de Dezembro de 2004. Certo?

quinta-feira, agosto 11, 2005

Doze de Agosto






A "época dos incêndios" está mais que a meio, quase perto do fim. Cento e vinte mil hectares ardidos depois, a discussão estéril, a recriminação desabafante, a co-irresponsabilidade total dos senhores do poder está bem patente no cinzeiro nacional, na desolação da paisagem, na desertificação resultante da chacina pueril a que foi submetida a floresta, a paisagem, a fauna natural, a alma de todos os portugueses.
O ministro António Costa, após se ter reunido com os vários "responsáveis" (esta coisa dos fogos é complexa, há que haver vários, senão mesmo muitos "responsáveis") pelos vários pelouros que dirigem nos diversos e variados "combates" que travam contra as "chamas". O mais tecnológico dos quais foi o do Bloco de Esquerda, apelando ao combate às chamas na origem, leia-se, na sua divulgação.
Medindo áreas ardidas com fita métrica, os senhores do poder da república chegaram à sossegantemente provisória cifra de 68 mil hectares ardidos. Mas a Europa (a que todos reclamam que Portugal pertence) mercê do recurso a meios tecnológicamente chocantes, incuindo o rastreio por satélite, chegou a uma cifra bem maior: 120 mil hectares ardidos. Até agora.
Não é culpa deste ou daquele partido.
É, isso sim, culpa do regime, porra.
A república está morta. E fede.
Se fede.
Real! Real! Por El-Rei de Portugal!

terça-feira, agosto 09, 2005

Lambada nas tasquinhas

Santos populares ainda duram na Figueira da Foz.

S. Pedro
e Nada envolvem-se em em cenas de pancadaria

O caso mais flagrante aconteceu no sábado à noite, quando o candidato do PS à Junta de Freguesia de Marinha das Ondas, Manuel Rodrigues Nada, foi visitar as tasquinhas da ExpoOndas, certame da localidade, encontrando o actual presidente da Junta e recandidato pelo PSD, São Pedro Almeida. Foi então que começaram os insultos e seguiram-se agressões físicas.

Futurologia II

Quando os pelouros da REN e da RAN, implementados pelos monárquicos a seguir ao 25 de Abril de 1974, cairem nas mãos dos autarcas que, assim, poderão "planear" a seu belprazer, definindo o que pode ou não ser área urbanizável, o que deve ou não ser protegido, os incêndios provavelmente diminuirão e a República terá conseguido mais um objectivo: a regionalização que não conseguiu com o referendo, obteve-a com o fogo.
Como em 1908: O que não conseguiram pela via democrática, conseguiram-no a tiro.

O Sol, o sal, a praia e outras merdas

- Rui Miguel chegas aqui imediatamente fazes o favor? - ruge a megera.

-...-

- Tu ouvistes o que te acabei de dizer Rui Miguel?-

-...-

(sssuoooshh sssuooosh sssuooosh (passos na areia))

(ZZZTRASSSHHH...(tonc) )

_ Para a próxima já sabes.-

- estúpida -

domingo, julho 31, 2005

O Template

- Vou mudar o template desta merda.
- Não faças isso. Já mudaste uma vez, lembras-te?
- E depois? Posso mudar de template as vezes que me apetecer.
- Então tiveste uma trabalheira enorme, perdeste uma data de links e não ganhaste nada com isso.
- Não quero saber. Vou mudar o template desta merda, foda-se.
- Não faças isso. A sério. Olha, come antes uma peça de fruta.

sábado, julho 30, 2005

O Papagaio

Quando mo ofereceram não cabia em mim de contente. Um papagaio verde, que falava. Antes que me fosse entregue, fui a correr comprar um poleiro próprio para papagaios na primeira loja de animais que encontrei: um T com uma corrente e dois recipientes em cada ponta do traço do T.
No primeiro dia, não dizia nada. "Olha que o gajo fala pelos cotovelos" garantira-me o casal meu amigo de partida para a Austrália. "E às vezes até diz um palavrãozito ou dois", gracejou a medo a Joana.
- Ah é? - respondi eu. Vindo de quem vinha, dificilmente imaginaria que as provocações em vernáculo da palradora ave fossem muito além de sonoros "ó louro dá cá o pé" ou então "olha lá ó paspalho!", ou, na mais escabrosa das hipóteses um "desolha, ó pintas!". Mal sabia eu.
É sempre ao terceiro dia que ocorrem fenómenos determinantes na existência humana.
Foi então que o papagaio resolveu dissertar em velocidade e variedade sobrepondo as mais alarves e inconcebíveis avaliações sobre anatomia humana com classificações multigeracionais
de género tipo e feitio sobre todo e qualquer transeunte que passasse.
O rol de impropérios incluia mimos do tipo "tens cá uma máquina de cagar!" e "pokeralhopókeralho...!croac!....dassse....!croac!...vaituókamelovaitu...!croac!" , etc.

Precipitei-me para a varanda e consegui arrancar o conjunto poleiro/papagaio para dentro da sala, entornando no acto sementes de girassol e água na alcatifa no exacto momento em que uma chusma de aleivosias eram cuspidas envolvendo as dimensões do aparelho genital do Sr. Barros, sapateiro aposentado, e a indiscrição da dona Lurdes, do lugar.. Olhei a ave fixamentemente no olho direito, era o que estava a olhar para mim na altura, reparei nas penas encrespadas no pescoço e mumurei-lhe em surdina entredentes : "Ouve uma coisa, ó meu grandessissimo papagaio dum cabrão. Se voltas a dizer um palavrão, caralho, UM PALAVRÃO que seja, garanto-te que te enfio no frigorífico durante uma semana.
"Tábémtábém !croac!" respondia desdenhoso. "OUVISTE???", berrei encostando os dentes semicerrados à fronha do pássaro. Ele disse que sim que sim que tinha ouvido.
Saí para trabalhar descansado. Quando voltei não queria acreditar. À entrada do prédio tinha um comité de recepção constituido por dois policias, a porteira do lado e o administrador do meu prédio. Duas freiras e um cauteleiro fechavam o conjunto. Resumindo:
Após a minha saída, o papagaio voltou à carga e despejou durante horas todo o tipo de impropérios possíveis e imaginários. As freiras, conduzindo um grupo de crianças órfãs a caminho da praia, decidiram chamar a polícia face às bestialidades gritadas pelo pássaro, as quais, além de dissertações alucinantes sobre a anatomia dos personagens do presépio, incluiam detalhadas descrições dos hábitos sodomitas de certos pinguins.
O cauteleiro, que passava por ali por acaso, ficou pregado ao chão a ouvir o papagaio. "O papagaio é seu?" perguntou-me. Respondi-lhe que sim. "Juro-lhe" afiançou-me ele, "que nunca ouvi um papagaio berrar palavrões daquela maneira! E o que ele dizia... E se eu tenho viajado pelo mundo!" disse olhando com espanto as copas das árvores do outro lado da rua.
Forneci os meus elementos de identificação à Polícia para "dar provimento à queixa".
"De quem", perguntei eu? "De toda a gente", repondeu o polícia olhando-me com ar triunfant
e.
Pedi desculpa a toda a gente, garantindo que aquilo jamais voltaria a acontecer após o que subi devagar os degraus da escada até ao meu apartamento, no 1º andar. Meti a chave à porta devagar, possuído por um sentimento de ódio gelado e sede de vingança como nunca na vida sentira. Fechei a porta atrás de mim com cuidado, como se não quisesse acordar ninguém e dirigi-me furtivamente à varanda. Agarrei no papagaio/poleiro e trouxe o conjunto para dentro.
Nem me atrevi a olhar para baixo, de onde vários pares de olhos me fitavam.
Corri as cortinas, agarrei no papagaio, soltei-o da corrente que o prendia ao poleiro e, enquanto me encaminhava para a cozinha dizia-lhe, martelando sincopadamente cada sílaba: "Es-tás-fo-di-do-meu-ca-brão"
"No frigorifico? Nãããã. Vais mas é para o congelador!" Abri a porta da arca vertical escolhi a gaveta menos cheia, enfiei lá o papagaio fechei a gaveta com força e bati com a porta gritando" É PARA APRENDERES".
Servi-me de uma dose generosa de Bushmills, juntei-lhe um pouco de água fria, acendi um cigarro e fui calmamente até à sala. Liguei a televisão e decidi alienar-me do mundo durante o tempo daquele cigarro.
À medida que os minutos passavam, o cigarro e o whiskey desapareciam, a calma regressava devagar, como folhas secas a poisar no chão a seguir a uma inexplicável rabanada de vento.
Comecei a sentir um ligeiro desconforto ao imaginar o papagaio trancado no congelador. O desconforto transformou-se rápidamente num saco de remorsos pesadíssimo. Levantei-me e libertei o bicho do seu castigo, trazendo-o para a sala embrulhado numa toalha de cozinha.
Comecei a enxugá-lo devagar e, a pouco e pouco, as tremuras de frio foram desaparecendo, enquanto conversava com ele e lhe tentava explicar que não se pode andar a dizer palavrões a toda a gente, a insultar as pessoas que passavam na rua, que era muito feio, enfim as parvoeiras que se costumam dizer a um papagaio de que se gosta e que se portou mal. A tudo ele dizia que sim, acenando com a cabeça e evitando, a todo o custo, olhar-me nos olhos. De seguida poisei-o no chão e observei-lhe as penas exofradas da nuca enquanto ele se afastava bamboleante, como um pirata de perna de pau. De um salto poisou no braço da poltrona à minha direita e ali se deixou ficar, encolhido. Minutos depois, poucos, dois ou três, salta para o chão e dirige-se na minha direcção. Mantive-me quieto, na expectativa. De súbito senti que me estava a puxar pela bainha das calças. Soergui o tronco e olhei para baixo. O papagaio acenou-me com a cabeça como que a dizer para me aproximar. Debrucei-me na sua direcção e ele, acenando com a cabeça em direcção à cozinha, perguntou-me com voz rouca e muito baixinho: "O que é que fez o frango?"

sexta-feira, julho 29, 2005

Passar palavra


«Alguma imprensa – com particular atenção de um semanário – sempre atento a tudo quanto seja polémico neste assunto – tem dado inusitada relevância aos que apelidam de monárquicos, confundindo-os com o PPM agora com visibilidade mediática graças ao seu actual Presidente e, creio que, sobretudo ao seu Vice-Presidente saído da popularucha "Quinta das Celebridades" para a política pêpemista. Ora nem o PPM representa os monárquicos – a esmagadora maioria ou milita ou vota noutros partidos – nem o actual PPM representa mais do que a cúpula que o tomou e uns tantos incautos que votaram nela.»

«O PPM nasceu de um grupo de monárquicos que se opunham ou discordavam do Estado Novo e que com o 25 de Abril quiseram marcar a diferença daqueles que na Causa Monárquica – onde já tinham ocorrido dissidências antes de 1974 – apoiavam o regime autoritário de Salazar, o supremo manipulador, que foi sempre alimentando a ideia de uma restauração a troco do apoio de monárquicos formados numa doutrina mal assimilada que os fez preferir a ordem a qualquer preço, sobre a liberdade dos que proclamavam que "o nosso Rei é livre e nós somos livres". Cumpriu a sua missão. Devia ter morrido aí.»

«A partir de então passou a ser um grupúsculo com ideias políticas de sinal contrário e ultimamente serviu para fazer, aqui e acolá, coligações com os grandes partidos, na convicção de que ascenderia ao poder, autárquico ou nacional. O PPM se já não era nada, hoje ainda o é menos, com tiradas do seu Presidente que se considera mais herdeiro dos Reis de Portugal do que o Senhor Dom Duarte de Bragança, por descender de uma Infanta casada com um Duque de Loulé e ou do seu Vice-Presidente que tendo tido a brilhante ideia de candidatar à Câmara de Cascais uma das celebridades de tal quinta, teve esta saída brilhante "Neste país pode-se ser homossexual, mas uma mulher solteira não pode ser candidata só porque teve vários homens"!»

«A defesa da monarquia é uma coisa muito diferente desta exposição mediática por más razões, muito diferente da defesa inglória e ridícula de uma pretensão à representação dos Reis de Portugal que a quase totalidade dos monárquicos vê com uma gargalhada, senão com comiseração pelos protagonistas atirados para a frente de guerras pessoais. É a defesa de um regime em que a Chefia do Estado e da Nação coincidem, em que o seu detentor não está dependente e prisioneiro dos votos dos partidos, em que a sua independência é garantia da estabilidade política, em que a representação exterior do País ganha outra visibilidade e outra credibilidade.»

«Para essa luta contribuíram e contribuem muitos portugueses de relevo, com formação ideológica e política, com convicções, no anonimato muitas vezes, sem parangonas nos jornais das intrigas políticas e da vida social, que só lhes interessa o apoucamento de luta pela Monarquia ou o seu lado "folclórico", das celebridades e dos aristocratas do "socialite".»

«A defesa da Monarquia é uma coisa séria. Não uma brincadeira de quem, sem saber como, se apanhou na ribalta política e dela fez trampolim para as suas "causas" pessoais.»

João Mattos e Silva

Texto retirado daqui

Euro English



(...) "This will make words like fotograf 20% shorter. "(...)

No Só Palpites .

Em roda livre

Portugal não recorreu a um fundo de 17.832.000 Euros (mais de 3,5 milhões de contos) a que poderia ter recorrido para minimizar os resultados da seca.

Este fundo não carecia da aprovação da Comissão Europeia.

terça-feira, julho 26, 2005

Monarquia ? Sim, por favor.







A quase candidatura de Mário Soares à presidência da República reflecte a falência do regime republicano em três frentes distintas: na sua
essência, no seu futuro e na sua credibilidade.

Na sua essência porque desde o 25 de Abril de 1974 e em todas as eleições presidenciais, todos os presidentes da república eleitos exerceram dois mandatos consecutivos única e simplesmente porque constitucionalmente não puderam exercer um terceiro. Não que isso não fosse um desejo legítimo dos eleitores. Se a lei o permitisse, o Chefe de Estado em Portugal, sendo um presidente da República, seria permanentemente re-eleito. Seria um quase Rei.
A permanência em funções de criaturas como Alberto João Jardim e a complacente condescendêndia para com as suas diatribes, acessos de arrogância e grosserias, concedendo-lhe assento permanente no Conselho de Estado reflecte bem que tipo de Estado é este.

No futuro porque um partido (PS) embora se reclame herdeiro do partido republicano, não consegue descortinar nas suas hostes ninguém ao nível de candidato a Chefe de Estado sem ser o seu próprio fundador. para os repblicanos do PS, ninguém está tão bem colocado para disputar umas presidenciais do que um presidente com dez anos consecutivos de exercício. Mesmo que tenha oitenta anos de idade. E depois logo se vê.
O outro partido (PSD) tem para oferecer como candidato o homem da regisconta. Os candidatos a chefe de Estado são apresentados como produtos de feira, elixires milagrosos, banha da cobra, só eles capazes de conduzir Portugal na senda do futuro. Seja ele qual for.

O regime republicano está ferido de morte na sua credibilidade porque ao querer promover junto do povo candidatos com provas dadas do que fizeram, não se livra de que esses mesmos candidatos também tenham provas dadas do que não fizeram, como por exemplo, a falta de empenho pessoal na criação de uma estratégia de combate aos incêndios à semelhança do que foi implementado há 12 anos na Andaluzia com provas mais que dadas e resultados exemplares. À semelhança, aliás, do que o actual presidente também não fez.
Ou, no caso do candidato do PSD, chefe de goveno por dez anos consecutivos, a falta de coragem para avançar com profundas reformas internas, desde a administração pública, à revisão da lei do arrendamento, contribuindo assim para o descalabro e o caos urbanístico nas periferias das grandes cidades, obrigando gerações e gerações de portugueses a endividarem-se para com os bancos, verdadeiros senhorios incontestados, pagando rendas astronómicas por apartamentos que serão seus ao fim de trinta anos.

A partidocracia republicana vigente, herança dos republicanos do início do século passado que suprimiram os círculos uninominais criados no tempo de Fontes Pereira de Melo, na segunda metade do sec. XIX, que fomenta a eleição para a Assembleia da República de deputados que nem sequer conhecem o seu próprio círculo eleitoral, quanto mais os seus eleitores, é o expoente máximo de um regime em que os interesses corporativos e o compadrio descarado entre meia dúzia de senhores feudais se sobrepõe descaradamente ao interesse do país.

Em conclusão, refira-se que a noção de património se encontra definitivamente arredada do modus operandi do regime republicano. Seja esse património de origem natural ( florestal, hídrico e marítimo) ou edificado (pontes, estradas, monumentos ,etc.,). O que ainda existe é para ser negligenciado, saqueado ou negociado. A complacência do poder republicano para com a praga cíclica e anual dos incêndios e a sua promoção a fenómeno "meteorológico" sazonal, previsível e inevitável é um insulto à inteligência de todos os portugueses. Quando os pelouros da RAN e da REN forem definitivamente depostos nas mãos dos caciques autárquicos, que promoverão a sua rápida delapidação e substituição por monstros de betão, será tarde.
A regionalização que não foi conseguida com o referendo será obtida pelo fogo.



Agradecimentos

Ao The Antoninos, ao Xanel 5 pelas referências.
A O Velho da Montanha e ao blogame mucho pelos links.
Parabéns, ainda que atrasados, pelo 2º aniversário ao blogame mucho, um Blog caliente, carregado de sensibilidade e bom senso.

domingo, julho 24, 2005

Presidenciais 2006

O gráfico com que o Expresso resolveu acompanhar mais uma das suas sondagens, desta feita relativa a umas eleições presidenciais que se realizarão daqui a seis meses, é em si próprio expressivo e digno de nota. Senão repare-se:

1. Cavaco Silva, aparece numa atitude despreocupada, de mão no bolso, como quem caminha seguro do que quer, sem dúvidas, poucos enganos e nenhum Bolo-rei. Mas atenção! O que é que ele leva na mão? Um jornal. Ele leva um jornal na mão. Para quem se gabava de nunca ler jornais, há contradição que chegue.

2. Em seguida aparece Mário Soares. Aparece não. Acontece. Mário Soares acontece de repente, vindo de parte nenhuma, como uma bailarina acabando um pas de deux. Ou como um génio cuja lamparina foi inadvertidamente esfregada. Nada na mão esquerda. Nada na mão direita. Eis-me.

3. Manuel Alegre parece ter sido tele transportado por engano. Enganaram-se nas coordenadas e em vez de se ver calmamente a deambular pelos corredores de S. Bento, dá consigo em cima dum 42 a olhar, pasmado, para as evoluções dançantes de Soares perante a calma intranquila do Sr. Aníbal.

4. Por fim, Freitas do Amaral surge sobraçando os complicados dossiers que terá que estudar para quando arrancar com a campanha eleitoral, enquanto que a mão direita se presta a largar a pasta dos Negócios Estrangeiros, aguardando para isso um momento em que ninguém esteja a olhar. Se alguém olhar, pode sempre abanar a pasta, como quem chama um táxi.

sábado, julho 23, 2005

Domingo à tarde


(c) Manuel Amado


quinta-feira, julho 21, 2005

PPM muda para PCP (f m)

O Partido Popular Monárquico vai mudar de nome. Passará a chamar-se Partido dos Câmara Pereira (f m - fadistas militantes) .
O logotipo será um cavalo ruço cavalgado por uma raposa chamada Elsa.

No almoço de ontem no American Club

Para José Sócrates, não interessa a opinião e manipulação dos meios de comunicação. Interessa, isso sim, a opinião pública dos portugueses.
Como a maior parte da oipinião pública dos portugueses entendidos na matéria, é contra os projectos e consequentes obras do TGV e a OTA, podemos estar descansados.

Inércia

Tal como com os incêndios, hoje em dia estúpida e amplamente reconhecidos como fenómenos sazonais inevitáveis, o problema da falta de água (mais que previsível no início do ano) só agora merece preocupação por parte do poder instituído.
Só isso explica que os poucos, quase inexistentes, apelos à poupança de água tenham começado a surgir agora, na segunda metade do mês de Julho.
Poder instituído esse que, como é óbvio, se estende desde o Presidente da República até ao deputado mais incompetente, bronco e distraído desta III República, passando pelos diferentes Ministros de Estado bem como pelos seus colegas, os Ministros de Estando.

quarta-feira, julho 20, 2005

Estado de choque.

Pronto. Já está.
A entrevista de Diogo Freitas do Amaral ao Diário de Notícias tirou às elites, esquerda e direita, qualquer réstea de esperança de um resto de ano calmo, sossegado e de desfecho previsível: a vitória de Cavaco Silva nas presidenciais de 2006.
Já se tinha falado nisso cá no Terreiro: aqui, aqui, também aqui e, finalmente, aqui.
Caladinhos que nem ratos, os adeptos da esquerda e da direita, desorientados ao máximo, como fufas cegas com o cio, num armazém de bacalhau, assobiam para o lado todos ao mesmo tempo assobiando assim, nas caras uns dos outros.

Never say never



Diogo Freitas do Amaral assume-se como putativo candidato às eleições presidenciais de 2006.
Referindo-se a Cavaco Silva sublinha que há um prolongado silêncio destinado a criar as condições, não para uma eleição democrática e pluralista, mas para um plebiscito unanimista. Afirma ainda que seria pouco habitual se deixasse o governo para se candidatar às presidenciais, mas não seria estranho.
Ora, considerando-se extremamente pouco habitual que o fundador de um partido democrata cristão viesse algum dia a ser membro de um governo socialista, é legítimo que se considere abundantemente estranho que, após uma entrevista destas, a sua candidatura a presidente da república não se torne realidade.
Em entrevista ao DN de hoje.

- Never say never.- said the bishop to the actress.
- But you just said it! Twice! - she replied.

terça-feira, julho 19, 2005

E vão cinco

Nunca percebi a equivalência entre six feet under e sete palmos de terra.
Talvez por isso nunca tenha sido fã da série que acabou ontem.
Nos episódios que fui vendo, não pude deixar de reparar numa coisa : é que não se aproveitava ninguém.
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A reforma da lei do arrendamento é uma treta. Alguém imagina ser possível que a renda de um T2 comprado há cinco anos por trinta mil contos e avaliado pelas Finanças em quinze mil contos seja de cinquenta contos por mês? Pois...habituem-se.

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O Presidente da república julga que se se unir aos restantes portugueses, todos juntos conseguirão fazer coisas belas por Portugal. Por favor, não o acordem.

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Eduardo Prado Coelho é o 17º na lista de Carrilho à CML.
Não tem hipótese.

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Autofagia republicana militante - Processo opinativo de cariz verborreico / incontinente dirigido a próprio ou ao seu semelhante. Exemplo: A recente troca de galhardetes entre VPV e António Barreto a propósito das elites.



segunda-feira, julho 18, 2005

O Príncipe Perfeito



«Foi el-rei D.João homem de corpo, mais grande que pequeno, mui bem feito e em todos os seus membros mui proporcionado; teve o rosto mais comprido que redondo e de barba em boa conveniência povoado. Teve os cabelos da cabeça castanhos e corredios e porém em idade de trinta e sete anos na cabeça e na barba era já mui cão, de que se mostrava receber grande contentamento pela muita autoridade que à sua dignidade real suas cãs acrescentavam; e os olhos de perfeita vista e às vezes mostrava nos brancos deles umas veias e mágoas de sangue, com que nas coisas de sanha, quando era dela tocado, lhe faziam aspecto mui temeroso. E porém nas coisas de honra, prazer e gasalhado, mui alegre e de mui real e excelente graça; o nariz teve um pouco comprido e derrubado. Era em tudo mui alvo, salvo no rosto, que era corado em boa maneira. E até idade de trinta anos foi mui enxuto das carnes e depois foi nelas mais revolto. Foi príncipe de maravilhoso engenho e subida agudeza e mui místico para todas as coisas; e a confiança grande que disso tinha muitas vezes lhe fazia confiar mais de seu saber e creu conselhos de outrem menos do que devia. Foi de mui viva e esperta memória e teve o juízo claro e profundo; e porém suas sentenças e falas que inventava e dizia tinham sempre na invenção mais de verdade, agudeza e autoridade que de doçura nem elegância nas palavras, cuja pronunciação foi vagarosa, entoada algum tanto pelos narizes, que lhe tirava alguma graça. Foi rei de mui alto, esforçado e sofrido coração, que lhe fazia suspirar por grandes e estranhas empresas, pelo qual, conquanto seu corpo pessoalmente em seus reinos andasse para as bem reger como fazia, porém seu espírito sempre andava fora deles, com desejo de os acrescentar. Foi príncipe mui justo e mui amigo de justiça e nas execuções dela mais rigoroso e severo que piedoso, porque, sem alguma excepção de pessoas de baixa e alta condições, foi dela mui inteiro executor, cuja vara e leis nunca tirou de sua própria seda, para assentar nela sua vontade nem apetites, porque as leis que a seus vassalos condenavam nunca quis que a si mesmo absolvessem.»

(Da Crónica de D.João II, de Rui de Pina)

sexta-feira, julho 15, 2005

Um milhão

De Euros pede há dois anos João Pinto de Sousa pelo conjunto de oito mil registos de fado desde 1904 até à 2ª Guerra Mundial. Quase meio século de história desconhecida do Fado.
Senão o espólio será vendido ao estrangeiro.
Isto em vésperas de o Fado se tornar património mundial.

Assunto abordado por
Pedro Bidarra no Público de hoje. Página 9.

quarta-feira, julho 13, 2005

Portugal a arder visto do espaço



Imagem recolhida aqui.

Redacção - As minhas férias

O cão era pequeno e malhado, mais ao menos entre o Jack Russel de Jim Carrey em The Mask e o Flag do Umberto D. do Vitorio De Sica.
Nos dias de chuva a neura, o tédio, o fartanço e a parvoeira apossavam-se, insinuantes, de cada um dos habitantes da casa. O cão aproveitava para dormitar perto da grande janela de sacada da sala.
Se por acaso alguém passasse lá fora, um gato miasse, uma folha de jornal de há três dias fosse espalmada pelo vento contra o vidro, acto contínuo o cão desatava a ladrar começando, invariávelmente, por se levantar e esticar as quatro patas com toda a força, olhar para o tecto e para aí dirigir uma sucessão de latidos ensurdecedores até que alguém lhe atirasse um calado! acompanhado de um pontapé ou cachação.
O meu irmão Jaime não perdia a oportunidade para, nessas alturas, acrescentar um pouco mais de educação ao cão socorrendo-se para o efeito de um banco de cozinha e de um pequeno galho de figueira que, como todos os galhos de figueira, não era aproveitado para queimar na lareira. Como quem punha a mesa para o almoço todos os dias, Jaime transportava o banco para junto do animal e poisava-o no chão. De seguida acocorava-se ao pé do cão e enquanto lhe dizia "Tu-és-um-cão-muito-feio" preenchia os intervalos entre as palavras com pequenas mas irritantes traulitadas executadas com o galho de figueira na cabeça do canídeo o qual, escusado será dizer, suportava a coisa com pouca ou nenhuma paciência. Geralmente começava por dar a sua opinião sobre o que estava a suceder a seguir à terceira ou quarta traulitada expondo, numa brancura cintilante e silenciosa, as protuberâncias ósseas com que a natureza se encarregara de lhe ornamentar as fauces.
A passagem ao segundo andamento era subtil e consistia em acompanhar as traulitadas que recebia com rosnadelas a meio gás que, ritmicamente, se acentuavam no momento preciso em que a traulitada era executada.
À medida que o repertório do meu irmão se ia extinguindo, a improvisação tomava o lugar do bom senso, sugestões e conselhos arrastavam-se, alongando-se e decompondo-se silabicamente em frases absurdas que para ninguém faziam sentido muito menos para o cão que, de olhos vítreos, encetara o terceiro andamento iniciando uma série de sinistras roncadelas aspiradas, como quem diz "tás quase, meu cabrão, tás quase". Era então que algo de muito mais estranho acontecia. O cão, que até então olhara o banco de cozinha de solslaio, passou a encará-lo como uma ameaça silenciosa, incompreensível mas real. O arrastar daquele banco de cozinha iniciando esta cena miserável e fazendo parte integrante do espaço cénico onde se desenrolava a acção tinha que ter algum sentido, alguma intenção. Para o cão era óbvio que se tratava de mais um instrumento de agressão e tortura, fruto pérfido do sadismo do meu irmão Jaime. Para nós, que assistiamos vagamente ao que se passava, era só uma questão de tempo até vermos que, inevitávelmente, Jaime se sentaria lá em em cima. Nesse momento, enquanto ele dissertava sobre as contrariedades quotidianas e a importância, ou não, da resignação proferindo frases como "es-ta-mos-to-dos-far-tos-des-ta-chu-va" traulitando a cabeça do cão com suavidade, toda a atenção do cão se encontrava concentada no banco. Quando o nível decibélico a que chegavam as rosnadelas, então soluçadamente aspiradas e expelidas com uma frequência de sprint final, se tornava definitivamente ameaçador para além de qualquer parcela de dúvida, Jaime virava-se de súbito para o banco de cozinha, balouçava-o repetida e rápidamente, numa tosca imitação do que poderia ser um galope Calvinesco, berrando em simutâneo um formidável kiai. O cão, acto contínuo, apoteose final e encerramento, desatava a correr pela sala, alucinação tridimensional completa, com as orelhas esticadas para trás, o rabo entre as pernas a lingua pendente de lado, curvando em slide em volta da mesa grande, pulverizando as garras das patas na tijoleira do chão enquanto recebia aplausos carinhosos e suaves cachações no lombo por parte da assistência.
Era sempre a seguir a este ritual que a chuva parava e o sol aparecia.

segunda-feira, julho 11, 2005

sábado, julho 09, 2005

Contra factos não há argumentos.

(...) A área total ardida naquela região espanhola (50.617 hectares - Andaluzia) durante todo este período (1995-2003) chega a ser inferior àquela que se perdeu em Portugal em menos de 24h de alguns dos dias de Agosto do ano passado. (2003) (...)

(...) Ou então que seja o luso fadário o responsável pelos fogos terem varrido, desde 1995, uma área equivalente a 15 por cento do território português, enquanto na Andaluzia essa cifra não atingiu sequer os 0,6 por cento.(...)

(...) Em 1991, perante um balanço final “catastrófico”, a Junta da Andaluzia decidiu acabar com a dispersão de competência e o amadorismo da gestão florestal.(...)

(...) naquele ano arderam na Andaluzia somente 65 mil hectares - ou seja, cerca de um terço daquilo que foi dizimado, nesse período, no nosso país. (...)

(...) medidas drásticas. A primeira foi centralizar toda a gestão florestal – desde a prevenção até ao combate, passando pela vigilância – para uma única e nova entidade : a Consejería do Medio Ambiente, a entidade homóloga do Ministério do Ambiente português. (...)

(Em Portugal) (...)Depois de, no ano passado (2003) terem ardido 480 mil hectares, à dispersão nacional que já existia, juntou-se ainda a criação da Agência de Prevenção dos Incêndios Florestais, as Comissões Municipais de Defesa da Floresta contra Incêndios e o Conselho Nacional e Comissões Regionais das Áreas Ardidas.(...)

(...)“Ter poucos focos de incêndio e que sejam atacados rapidamente, de modo a que os fogachos não se transformem em grandes fogos. Para isso apostamos numa boa gestão preventiva, numa vigilância apertada e numa intervenção rápida nos primeiros minutos, com meios adequados”(...)

(...) Enquanto em Portugal são os autotanques e a água que são os meios de combate – por vezes demorando mais de meia hora a chegar ao local-, na Andaluzia são as moto-serras, as enxadas, os machados e outros utensílios, que diríamos agrícolas, os instrumentos mais usados na primeira fase de combate pelas brigadas de extinção.(...)

(...) O equipamento de protecção é um “detalhe” minuciosamente controlado: cada membro da brigada tem de estar vestido com roupa protectora, óculos e máscara com filtro especial anti-partículas, não esquecendo água para beber e um pequeno kit de primeiros socorros.(...)

(...) Na Andaluzia não há espaço para voluntarismos nem desvarios. “Os bombeiros portugueses são loucos”, diz Carlos Rey, quando lhe pedimos opinião sobre o facto de em Portugal ser habitual os nossos “heróis” irem para a frente de combate sem máscaras nem equipamewnto térmico, por vezes de manga curta. (...)

(...) nos casos mais bicudos ou em focos de incêndio de difícil acesso, o Plano Infoca conta com quatro brigadas de reforço de elite – as BRICA -, cada uma constituída por 11 elementos escolhidos de entre os melhores especialistas em extinção. Estes elementos têm profundos conhecimentos em tácticas de cartografia, sobrevivência, estratégia e combate – como, por exmplo, a colocação de “bombas de extinção” e de execução de contrafogos além de uma forte preparação física. (...)

(...) Para isso, os treinos são diários e acompanhados por um preparador físico. (...)

(...) No meio desta azáfama, há também tempo para a descontracção, mas sem bebidas alcoólicas à mistura nem ausências para o café mais próximo. (...)

(...) Observando uma simulação das técnicas de combate destes homens – durante os dias em que a GR esteve na Andaluzia não houve incêndios, apesar de alguns períodos de intenso calor -, facilmente se constata que por mais heróicos que sejam os nossos bombeiros, eles estão a “anos-luz” da eficácia e preparação técnica e física dos “bombeiros” andaluzes. (...)

(...) no Plano Infoca não se querem actos heróicos, por isso, e só em situações excepcionais se chegam às 14 horas ininterruptas de combate, (...)

(...) tudo isto só é possível porque o sistema é profissional, bem organizado e relativamente bem pago para os padrões nacionais. O salário mais baixo – por exemplo, de um vigilante – ronda os 800 euros por mês,

(...) remuneração de um elemento de brigada BRICA ascende aos 1200 euros e a dos outros “bombeiros” pouco menos (...)

(...) a Junta da Andaluzia está preocupada com a “ovelha negra” da sua floresta: o eucalipto. “As importações da América do Sul tiraram a rentabilidade económica dos eucaliptais que estão a ser abandonados e que estão a transformar-se num autêntico barril de pólvora” (...)

(...) as intervenções em caso de incêndio são parcialmente pagas pelos proprietários afectados, independentemente da causa e início dos incêndios. Por exemplo, num incêndio maior do que mil hectares, essa taxa – que será paga de modo proporcional pelos proprietários, o que implica um cadastro actualizado, aspecto que em Portugal não existe – pode atingir um máximo de 12 mil euros. Mesmo que seja apenas um fogacho, o proprietário terá de arcar com uma factura de 120 euros.(...)

Contra factos não há argumentos. Só a estupidez, a teimosia e a aldrabice.

Ler o artigo completo aqui.

Despedida



O Dragão andou em obras, a remodelar o estabelecimento.
Prepara-se para hibernar. Vão dizer-lhe até já.

sexta-feira, julho 08, 2005

Perto do fim

Li uma vez, num sítio qualquer, que, dias antes do 11 de Setembro de 2001, Ossama Bin Laden dera ordem de venda de todas as acções que possuía em companhias de seguros. Dias depois do massacre voltou a comprar o que vendera. A manobra ter-lhe-á rendido perto de sessenta milhões de dólares.
O destino desses milhões de dólares terá sido o recrutamento de pessoas e meios e o financiamento de mais actos terroristas.
Com os recursos petrolíferos do planeta perto do fim, mesmo que o actual preço do barril, em permanente e imparável subida, seja um argumento de peso para que se opte por processos de extracção que, com o barril a 25 dólares não compensariam, e com a procura a atingir níveis inconcebíveis há dois anos atrás, a luta pelo controle da produção acentuar-se-á de forma violenta. Prevê-se que, perto de 2015, o preço do barril atinja os 380 dólares.
O objectivo dos terroristas islâmicos é o dinheiro. Seja ele obtido pelo controle da produção do petróleo nos países árabes, ou pelo controle da produção de papoila de ópio no Afeganistão.
Quanto mais alto estiver o preço do petróleo, mais motivados estarão para a prossecução das suas acções vingativas e de terror. Os países em vias de desenvolvimento, com o crescimento dos PIB na ordem dos 10% ao ano, como a China e a Índia, dificilmente estarão na disposição de pagar cada vez mais caro por aquilo que não produzem: petróleo; e que tão caro e indispensável é ao seu desenvolvimento. Daí à tentação de "anexar" países produtores, vizinhos de preferência, vai um pequeno passo. A recente eleição no Irão do ultraconservador
Mahmud Ma Ahmadinejad, partidário do não aumento de produção de barris de petróleo por parte do Irão, não augura nada de bom a um mundo viciado no ouro negro que, em vez de o injectar nas veias, extrai-o, processa-o e consome-o sem cessar, sem se preocupar com a extinção dos stocks.
Pela primeira vez na história da humanidade, começando na era industrial, os habitantes deste planeta dedicam-se, com a intensidade de famintos mamíferos recém nascidos, a consumir desenfreadamente os recursos naturais do planeta mãe, útero cósmico, que os pariu.
O capital inicial, seja ele a pesca, a água potável, a fertilidade do solo, as florestas, os recursos petrolíferos, etc., é consumido com uma voracidade larvar como se Deus, a uma dada altura do processo evolutivo, dissesse: "Matai-vos e comei-vos uns aos outros."
Pela primeira vez na história da humanidade, o anti-capitalismo antropófago globalizou-se, espalhando a sua sanha vingativa pelos quatro cantos do mundo, empenhando a humanidade na delapidação, consumo e esbanjamento dos recursos naturais de um planeta criado há milhões de anos para lhe servir de repasto, de carcaça.
É estafar e deitar fora.
Com a geração "tásse" à beira do poder, provida de polegares hiperdesenvolvidos, inteligência atrofiada e memória inexistente, será em poucos anos que se servirá a caldeirada final, com molho de cogumelos e polvilhada com enxofre.


terça-feira, julho 05, 2005

A barrela metrossexual


"A candidatura [de Manuel Maria Carrilho] tem mais nível, tem mais classe, tem mais elegância e, sobretudo, dá garantias de poder defender essa mais valia sem preço que se chama inteligência!"

Assim falou o maestro da bengala, sogro de Henry Miller.
No Público de hoje.

Ensinança de virar o bico ao prego, em toda a tábua.

"(...) O PS tem consideráveis problemas para as autárquicas: O Porto parece perdido, uma vez que não se conseguiu encontrar um candidato à altura: Francisco Assis é um homem inteligente , mas sem o menor carisma. (...) Coimbra nem se fala. E em Lisboa tem havido alguns erros estratégicos dispensáveis.(...)

Assim escrevia Eduardo Prado Coelho.
No Público de hoje.

A Inveja é como a República : pequenina, mentirosa e incompetente.



"Criada no reinado de D. João V, após a construção do Convento, como um parque para lazer do monarca e da corte, a Tapada Nacional de Mafra constitui hoje um património natural de características únicas. Numa área de mais de oitocentos hectares, veados, gamos, javalis, raposas, aves de rapina e muitas outras espécies coexistem num cenário de flora invulgarmente rica e diversificada. Local de eleição dos soberanos de Portugal para o lazer e para a caça, a Tapada de Mafra ganhou por isso um cunho próprio de nobreza que ainda hoje é preservado e continuado."

segunda-feira, julho 04, 2005

Monárquicos côr de rosinha...

Terá o Partido Popular Monárquico sofrido uma hostile takeover tendo sido adquirido por um punhado de republicanos com refinado sentido do ridículo? Receio bem que sim.
A seguir à candidatura de Elsa Raposo à Câmara Municipal de Cascais quem se seguirá em Lisboa e Sintra? José Cid e João Braga?

domingo, julho 03, 2005

Esfodaçanso cósmico

Perpetrado por uma sonda terrestre contra o núcleo de um cometa.
A seguir aqui.

sexta-feira, julho 01, 2005

The times, they are a changin'

Em Espanha, a partir de ontem, instituiu-se o casamento entre homossexuais.
Passou a ser possível, legal e portanto recomendável, a adopção de crianças por "casais" homossexuais.
Para todos os homossexuais?
Não.
Os padres homossexuais, esses, continuam condenados ao celibato.

terça-feira, junho 28, 2005

Divagações III

Quase a perfazer 894 anos, há alturas em que, de facto, não me consigo aturar nem a mim nem a esta terra mai-las sua gentes, caralho.
Para onde quer que me vire, só vejo asneiras, bestas, aldrabões e emproados. Também há gajas boas, prados verdes alguns bosques e alguma caça. Coisa pouca, é certo. Mas ainda assim lá vão sobrevivendo. Há que dizê-lo. Mas não chega.
Lembro-me de caçar coelhos à paulada no bosquedo de Sintra, já junto à várzea, tantos que eles eram. Agora os coelhos são "animais de estimação". Há quem os apaparique e com eles conviva entre dois golos de cerveja e um cigarro enquanto na televisão um anormal qualquer vende carros aos peidos. E os cabrões a semearem esferas de composto pelo cómodos da habitação. É a laparagem em vias de alcançar o patamar evolutivo de canídeos e felinos, é o que é.
Mas apesar de tudo, o mais extraordinário é a metamorfose por que atravessam certos e determinados mamíferos desta terra quando abrem a porta da frente do lado esquerdo das suas viaturas e se passam lá para dentro fechando a porta em seguida. Assim que o fazem, das duas uma: ou se convencem que ficam invisíveis, ou se persuadem em definitivo que entraram numa latrina, entregando-se às mais variadas actividades que o senso comum impede de fazer em público.
Enquanto os machos desta espécie de mamíferos automobilizados se dedica à prospecção geológica das suas próprias fossas nasais, com uma dedicação, intensidade e virtuosismo tais que acabam por conseguir extrair pedaços dos próprios cérebros que depois fitam com uma curiosidade infantil, as fêmeas optam pela make up, exibindo toda uma variada gama de expressões e esticanços da derme facial enquanto finalizam os acabamentos: rimmel, bâton, base, pó-de-arroz, etc, etc, etc., que, em última análise e como o próprio nome indica, tem como objectivo fazer subir algo.
Mas é com as referidas viaturas em movimento que se operam as transformações mais extraordinárias. O pálido, pacífico, anónimo, incompetente e excedentário funcionário público assume posturas de patrão impiedoso, esbracejando e gesticulando com o frenesim próprio de um primata em marcação de território. O facies distorcido por um incomensurável ódio furibundo espelha uma guerra total, de vida ou de morte, entre ele próprio e o resto do mundo, que se resume a literalmente tudo o que se encontra no exterior da caixa de lata em que se desloca. Relva e pássaros incluídos. O volante, por exemplo, deixa de servir para a execução de manobras de mudança de direcção para se tornar num misto de balcão de bar onde apoia as patas roliças e papudas e um par de rédeas com as quais opera de surpresa súbitas guinadas ora para a esquerda ora para a direita, qual Messala alucinado quadrigando-se contra uma chusma de Ben-Hurs no Coliseu de Roma.
Os pequenos farolins de cor amarelada ou laranja, os chamados pisca-pisca que, quando utilizados com calma e oportunidade, emitem uma luz intermitente com o objectivo de comunicar o sentido de uma mudança de direcção que se avizinha, são coisa de paneleiros: " Um gajo vira quando quer, olha o caralho, e quer que se foda".
A Sancha é da opinião que os besuntas automobilizados o que querem é poupar os piscas para os usarem nas árvores de Natal. Talvez.
Conheço um tipo que um dia, num cruzamento qualquer em Lisboa e prestes a ser cilindrado por um besunta destes, estacou o carro, saiu e dirigiu-se em passos rápidos à guarita do alarve que o ia abalroando. Num tom ríspido e autoritário que não admitia contestação berrou: " A carta!" . O besunta, persuadido de que se encontrava perante uma autoridade, de pronto lha apresentou. O tipo abriu a carta (nesse tempo era um desdobrável em cartolina cor de rosa), confirmou que a fotografia era a do assassino que quase o rebentara, voltou a fechá-la e rasgou-a em quatro devolvendo-a em seguida. Diz ele que jamais se esqueceu da expressão do outro, imóvel no cruzamento enquanto ele arrancava rindo à gargalhada.

segunda-feira, junho 20, 2005

Meteoropirologia

É uma nova forma de meteorologia que inclui a previsão de incêndios no território de Portugal ao classificar determinadas zonas como de "risco máximo", "alto risco" e "em risco".
Este serviço, pasme-se, é fornecido pelo Instituto Nacional de Meteorologia.
Como a canícula ou os nevões, os incêndios passaram a ser um fenómeno meteorológico natural previsível e sazonal.



quarta-feira, junho 15, 2005

Perante a crescente onda de contestação às reformas embrionárias deste governo, Sócrates manobra à esquerda decretando hoje, o dia do funeral de Álvaro Cunhal, dia de luto nacional.
Coincidência ou não, eis que se calam as cortesãs ofendidas aquando do último dia de luto nacional: o dia do funeral da Irmã Lúcia.

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Sai de cena quem não é de cena, diz mecânicamente sorrindo António Guterres quando questionado sobre a sua saída de líder da Internacional Socialista. Provávelmente a frase que ele mais ouviu na última campanha eleitoral em Portugal.

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Boato 1 : Por exclusão de partes à esquerda, Mário Soares vai-se candidatar a Presidente da República.

Boato 2 : Por reflexo, Freitas do Amaral candidata-se também.

Boato 3 : Por fastio, Mário Soares desiste da sua candidatura a Belém.

Boato 4 : Por arrastão, Nino Vieira aparece na corrida.

segunda-feira, junho 13, 2005

Razoávelmente improvável

A existência de uma campanha para a beatificação imediata de Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal.

domingo, junho 12, 2005

Post mortem

Quando releio as opiniões da nomenklatura republicana sobre quem foi Vasco Gonçalves relembro que tanto Salazar como Hitler, Estaline e Fidel Castro (este ainda moribundo) foram pessoas coerentes de convicções determinadas e que acreditavam em ideais fortes.

sexta-feira, junho 10, 2005

10 de Junho de 2005



Homenagem do último Presidente da República portuguesa ao primeiro Rei de Portugal.

quinta-feira, junho 09, 2005

Verão quente de 2005

1. Diogo Freitas do Amaral prepara a sua candidatura a Belém, sendo acusado de protagonismo por sublinhar o óbvio: que este Tratado para uma Constituição Europeia é inviável.

2. Por causa disso António Vitorino irritou-se, percebendo que jamais será candidato às presidenciais de 2006.

3. Sócrates manobra à direita recorrendo a medidas drásticas para a redução da despesa pública. Os deputados republicanos do PS não gostaram. Ao ponto de alguns deles estarem dispostos a pôr os lugares à disposição.

4. O reconhecimento da inevitabilidade sazonal dos incêndios comprova em definitivo o que se suspeitava há muito: que os fogos em Portugal dão de comer a muita gente.

5. Segundo a Única da semana passada, prevê-se uma mudança radical nas cores da bandeira nacional, nomeadamente a substituição do verde/vermelho pelo azul, obedecendo assim ao princípio universal que estipula uma mudança de logo quando se quer melhorar a performance de uma marca no mercado...

quarta-feira, junho 08, 2005

Mais do mesmo, servido a quente

A elevação da desgraça miserável dos incêndios em Portugal à categoria de acontecimento sazonal inevitável pressupõe a sua eternização em forma de fado recorrente sendo, por isso, perigosa.
Em Agosto de 2004, a revista Grande Reportagem publicou um excelente trabalho de Pedro Almeida Vieira sobre as diferenças de abordagem do problema dos incêndios em Espanha e em Portugal. Num post de 30 de Dezembro de 2004 reproduzi, na íntegra, o texto desse trabalho.
Dar a conhecer essa diferença de abordagens de um mesmo problema grave é importante.
Uma coisa é o poder republicano convencer as suas hostes que, pobres coitadas jamais conheceram outra realidade, todo o trabalho possível está a ser feito, que os investimentos na prevenção e combate aos incêndios são muitos e por demais evidentes, e que a crise económica que Portugal agora atravessa não dá para mais.
Outra coisa é as hostes cá do reino terem acesso a informação que lhes mostre e prove, por a + b , que o regime republicano mente com quantos dentes tem nas fauces, interessado como está em perpetuar um status quo que favorece a especulação imobiliária e a degradação gradual e permanente de um património que é de todos inviabilizando uma qualidade de vida a que todos temos direito.
Agora a sério. Encham-se de paciência e leiam o trabalho de investigação que o Pedro Almeida Vieira levou a cabo na Andaluzia "(...)
território com uma dimensão geográfica idêntica à de Portugal Continental e com uma área florestal de cerca de 4,3 milhões de hectares, há mais de uma década que os incêndios deixaram de ser uma fatalidade. Entre 1995 e 2003, por exemplo, a Andaluzia perdeu menos floresta e mato do que Portugal em 24h de alguns dias de Agosto do ano passado. (...)

Contra factos não há argumentos.

Há um post no Nova Floresta que, além de excelente, deita por terra um dos maiores argumentos dos defensores do regime republicano, nomeadamente o da "mais que certa onerosa sumptuosidade de uma família real" argumento preferido por alguns dos Afonsos Costas de bolso que por cá vêm parasitando o reino. A ler aqui.

segunda-feira, junho 06, 2005

Viva a República...

Os termos em que o Presidente do Governo Regional da Madeira se referiu aos seus críticos, as palavras utilizadas e a postura arrogante mais uma vez adoptada são corolários inevitáveis de uma carreira política baseada no insulto, no recurso sistemático à provocação, que sabe incólume, e que, com assento permanente no Conselho de Estado, diz bem que tipo de regime é este que permite que entre os membros do seu Conselho de Estado se encontrem espécimes deste calibre. Qual ébrio acometido de irresistíveis impulsos urinários, a criatura asperge onde calha, para cima, para baixo e para os lados, feito rafeiro incontinente em frenética marcação territorial.
Ah, carago. Houvesse Rei nesta terra e esse carroceiro era corrido à bofetada.

sexta-feira, junho 03, 2005

A caminho de Olivença

O Dragão, incontornável figura da B.L.U.S.A., (blogosfera lusa) através de mais uma flamejante invectiva escrita, exorta as hostes de forma eloquente, dramática e decisiva, sobre a melhor estratégia para a recuperação de Olivença, essa terra de (...) olivenses (ou olivenceses, ou olivedosos, ou lá o que são)(...). Mesmo que os ditos cujos se arremelguem de espanto, desconforto e negação, e (... nos presentearem com umas lúgubres trombas cravejadas de olhos de carneiro mal morto absolutamente remelosos...). Afinal, (...) Depois do polícia global americano, esse bandalho inoxidável, chegou a hora do GNR global português, esse enigma biodegradável.(...). Cá por mim, só pararei Poitiers, carago!
Atente-se no entanto no seguinte: independentemente do sucesso ou insucesso de semelhante missão reconheça-se, e de uma vez por todas, que o Dragoscópio é do melhor que orbita a blogosfera cá do Reino.

quarta-feira, junho 01, 2005

Referendo

Aos franceses seguem-se os holandeses: mais um Não à vista.
Por cá, a pouco e pouco, a inteligentsia do Reino vai-se sentindo atraída pelo Não, essa aposta em coisa nenhuma, opção niilista, redutora e terminal. Mas se n Nãos ganharem, o que está feito continua feito; o Tratado de Nice manter-se-á em vigor, as decisões que afectarão cada membro da União continuarão a ser tomadas. Só que tudo isso mais lentamente. Com a velocidade a que a China e a Índia se preparam para tomar de assalto a economia mundial, essa lentidão de reflexos, que se prevê europeia, não augura nada de bom; nunca há nada de bom do lado do Dr. Louçã e do lado do Sr. Le Pen. Ainda por cima quando ambos estão do mesmo lado. Só mais uma coisa: acreditem que a China jamais estará disposta a continuar a pagar tão caro o petróleo de que necessita para cilindrar económicamente o Ocidente. Mal acabem os Olímpicos de 2008, barriquem-se.

Post Scriptum: A verdadeira razão do Não francês e Holandês é esta: Ma$$a. Os gajos já deram para o peditório dos pobres do Sul, e não querem continuar a dar para o peditório dos pobres do Leste. O resto é retórica.

segunda-feira, maio 30, 2005

Segunda, a seguir ao almoço

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Provérbio Capadócio:

"Os franceses às vezes têm medo dos chineses"


Provável tradução Google:

"Les françois aux fois ont peur des chinois"


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A propósito de rimas parvas e outras coisas, lembrei-me de uma história passada com o cretino do meu irmão Jaime, quando andávamos na 3ª classe. Eu com oito anos, ele com onze.
A certa altura a professora de Língua Portuguesa sugeriu que a aula inventasse uma rima; cada um deveria pensar numa rima, escrevê-la no caderno de rascunho e passá-la a limpo com caneta de tinta permanente para o caderno de Língua Portuguesa. Vinte minutos depois a professora de Língua Portuguesa pedia ao Abel, que era sempre o primeiro a responder a tudo dado que o nome dele começava por Ab, tipo matrícula de carro dos anos 30, que lesse em voz alta a rima que escrevera. E o Abel leu:
- O passarinho dorme no ninho.-
- Muito bem, Abel.- condescendeu a professora sorrindo. - Agora tu.- disse, apontando com uma unha encarnada para o Carlos, à minha direita.
- O gato está no sapato.- leu devagar o Carlos enquanto corava e se levantava.
- Bravo!- soltou a professora de Língua Portuguesa. - Agora tu, Jaime.
A aula inteira, éramos sete, voltou-se em simultâneo para o fundo da sala. O Jaime levantou-se e ouviu-se:
- O canguru tem pêlos no cú.- Silêncio. Um silêncio breve e ensurdecedor atafulhou a sala enquanto 13 olhos se cravavam na professora. O Carlos usava óculos e tinha uma daquelas merdas côr de pele a tapar uma lente por dentro para endireitar a vista.
- Jaime! Francamente! Vais lá para fora escrever uma rima. Uma não, duas. Duas rimas como deve de ser e voltas aqui antes de acabar a aula. E ai de ti que voltes a entrar sem teres feito o que te mandei.- O meu irmão reuniu os cadernos e o estojo, levantou-se, saiu da sala devagar e fechou a porta devagarinho.
Minutos depois batia à porta e entrava com ar triunfante. Eu já sabia que aquela expressão desvairada na cara dele só podia significar uma coisa.
- Já acabaste ? - inquiriu a Professora com surpresa.
- Já. Posso ler?- respondeu o Jaime. A professora anuiu e o meu irmão leu:
- O canguru tem pêlos na bochecha, porque no cú a Professora não deixa.

Segunda de manhã

O Não ganhou em França. O que significa isso? Significa que os franceses estão com medo.
Quando se prefere coisa nenhuma a qualquer coisa que seja é porque se está com muito, muito medo. E o medo é mau conselheiro. Qualquer país que tenha assinado o Tratado de adesão deu um passo decisivo numa caminhada que não se compadece com desistências e que cobra caro atrasos.
Seguir-se-á o Não da Holanda, com medo da Turquia europeia e da imigração. E Portugal? terá medo de quê? Cutileiro tinha razão: Há demasiados soldados desconhecidos nesta Europa que se pretende Federada. Cá para mim tenho que, ao ver Le Pens e Louçãs de braços dados a apelarem ao Não é razão suficiente para eu votar Sim.

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O Vitória de Setúbal ganhou a Taça de Portugal frente a um Benfica desorientado, cansado, desmotivado e ressacado. Nem o empurrãozinho do árbitro ao assinalar um penalty inexistente conseguiu demover o empenho sadino. E o silêncio e calma que esta vitória verde e branca trouxe às nossas casas, ruas e avenidas: nem um piu, nem uma buzinadela, nem nada.


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O comboio inter-cidades entre Lisboa e Évora paga-se mas não existe; faz escala em Casa Branca, perto de Vimieiro, de onde se tem que mudar para uma Automotora de 1950 que demora 30m a fazer os 27 km que faltam até Évora. Tremo só de pensar no TGV.

domingo, maio 29, 2005

quinta-feira, maio 26, 2005

Hipocrisias

A milícia laica e republicana, com os seus tiques inquisitoriais e persecutórios, empenhada até aos sovacos em militantes iniciativas que contemplam a remoção de crucifixos das paredes das salas de aula das escolas públicas, espreguiça-se obesa, disforme e diletante, entupindo estradas e sujando praias, usufruindo mais um dia feriado nacional: o dia do Corpo de Deus.

Outros sítios

Ele há Sítios do Sim e Sítios do Não.
Recém criado, há também o Sítio do Foda-se.

6,83 % ?

Não sei porquê mas aquele "3" do "83" faz-me uma espécie do camandro. Tresanda a rigor mais que suspeito. Lembra-me os preços marcados pelos proprietários de estabelecimentos de comércio tradicional, vulgo mercearias, que afinfam uns modestos "8,99/Kg" ou uns tímidos "3,98/Kg" escritos a lápis em papel manteiga com caligrafia tipo Vivenda das Andorinhas e que sorrindo, de lápis aparado entalado na orelha, esfregam as mãos uma na outra, envolvendo a mão esquerda com a direita e a mão direita com a esquerda, numa sucessão espasmódica de estertores de varejeira, enquanto tecem babosos cumprimentos de circunstância à clientela que por lá perpassa.
Se o relatório apresentado pela inefável Comissão Constâncio apresenta uma estimativa que não contempla os orçamentos das autarquias é porque não está bem feito, está incompleto, é falso e, por isso, cagativo. Rasgue-se pois e lixo com ele. O tiquezinho ridículo do empreiteiro aldrabão, que consiste em aproximar uma estimativa às centésimas para esconder os chorudos ganhos que prevê nos chamados trabalhos-a-mais, adoptado pela República Portuguesa é sintomático. O que esconde na manga hoje, será exposto, mostrado e oferecido mais tarde, embrulhado como promessa eleitoral em Outubro. É a falcatrua alcandorada a rigor orçamental, o elogio do pechisbeque, a sentença de morte em verso.

sábado, maio 21, 2005

O homem das campainhas

No passado dia 19 de Maio foi encontrado no centro histórico de Oeiras, completamente encharcado e manifestando evidentes sinais de desorientação, um homem vestindo um fato aos quadrados e ostentando uma gravata côr de laranja, relativamente baixo, gordo, com cabelo, bigode e pêra grisalhos, aparentando notáveis semelhanças com Isaltino de Morais. Chamada a PSP, o referido indivíduo foi de pronto transportado e recolhido por um centro de caridade local.
Mantendo um silêncio absoluto, incapaz de responder à sucessão de perguntas que lhe eram feitas, foi-se encolhendo, encolhendo e encolhendo à medida que o interrogavam, abanavam e pressionavam.
A certa altura, um talhante do bairro que assistira a tudo, berrava a pés juntos que o indivíduo era nem mais nem menos que um dos totalistas do Euromilhões, desaparecido havia uns meses atrás. Mas o comandante dos Bombeiros locais de pronto o reduziu ao silêncio bramando um ensurdecedor "Cale-se! Não diga disparates". Alguém então sugeriu que lhe dessem um papel e um lápis.

Desenho elaborado pelo homem encontrado a deambular pelo centro histórico de Oeiras.
 
Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue!