quarta-feira, agosto 24, 2005
Encontrões imediatos do 3º degrau
O autor do blog A Barriga de um Arquitecto , paragem que muitas vezes escolho durante as minhas deambulações pelos blogs do reino, pegou num comentário meu a um post que escrevera intitulado Por amor de Deus no qual ele tecia considerações, mais ou menos politicamente correctas, sobre criacionismo e evolucionismo, recortou-o e destacou um trecho que pespegou à laia de introdução de um texto seu com 61 linhas intitulado O centro do mundo.Um verdadeiro tratado.
Presumo que tanta atenção tenha sido a razão para o disparo alucinante de visitas aqui ao terreiro nos últimos três dias.
Foto: Supernova Remnant N 63A Menagerie, daqui.
Assim sendo retribuo a sua atenção com este post, devidamente equipado e artilhado em conformidade com imagem, links, linques, itálicos, bolds e o camandro, no qual transcrevo o comentário que lá lhe deixei sobre aquilo que escreveu.
Caro Daniel Carrapa,
1.«É compreensível que alguns achem discutível o facto de que somos descendentes dos macacos. Suponho que essas pessoas nunca tenham visto o “Fiel ou Infiel” na TVI.» Esta frase é sua. Presumo que inclua no grupo a chusma de primatóides que se baba e delicia com semelhantes programas de TV.
2."Esta gente..." como você se refere a determinadas pessoas que não pensam como você, nem como eu, é uma forma de discurso há muito adoptado pelos escravos do pensamento único. Neste pequeno planeta, como você diz, tem que haver espaço para outras opiniões que não a sua. Ou a minha.
3. Que Darwin tenha demonstrado com sucesso que os ingleses descendem dos macacos, não me obriga a mim nem a ninguém a deixar de questionar, com isenção, espírito crítico e sem aceitar nada como "garantido", qual a verdadeira origem da Humanidade. Talvez aí, meu caro, ao descobrir-se a verdadeira origem do Humanidade se vislumbre uma réstea de esperança sobre a previsão do seu destino, como dizia Carl Sagan. Nesta Terra ou noutra qualquer.
Cumprimentos
Estrago da Nação
Descobri-o ontem, através deste post no Nova Floresta.
Bem haja.
terça-feira, agosto 23, 2005
Actos Políticos I
A própria sonoridade da expressão, aliás, tem um je ne sait quoi de pré-parto, relação vaga com o romper das águas. A classe política passou a encarar o acto de partir para férias, tão caro, quiçá sagrado, para a generalidade de todos nós, portugueses, como uma antecâmara de estadia provisória ou preparação iniciática para a entrada triunfal em todo um outro iluminado estado de consciência, prenhe de tiques de liderança e impulsos de auto-sacrifício que é revelado precisamente no acto de interromper essas mesmas férias.
O arranque para esta nova abordagem terá partido do próprio Mário Soares, no dia do seu aniversário, ao anunciar públicamente a sua retirada da vida política activa vociferando um rotundo e ensurdecedor Basta!, dado não se sentir com fôlego suficiente para apagar as oitenta e três velas do seu bolo de aniversário. (Diz-se à boca pequena, nos soturnos e sombrios corredores do poder, que alguém da facção Socrática terá acrescentado mais uma vela ao bolo sem saber que outra facção, a de Alegre, já teria acrescentado outras duas velas por seu lado. Só para chatear.)
Eis que poucos meses decorridos interrompe o seu afastamento da vida política activa, leia-se férias, para se apresentar como O Candidato presidencial da esquerda unida.
No entanto, curiosamente, a utilização e manuseamento deste novo potencial denominado Interromper as Férias, não é encarado unânimemente por todos os intervenientes. Há, por exemplo, quem encontre mais força na mensagem contida na opção de Não Interromper as Férias do que no acto sublime de interrompê-las. José Sócrates concluiu que o Acto Político mais forte, com mais potencial de merchandising, seria providenciar para que o cargo de 1º Ministro fosse exercido por António Costa durante o período dos incêndios em Portugal, visto ter preferido não interromper as suas férias.
Já Jorge Sampaio não.
O presidente da república optou claramente pelo auto sacrifício ao interromper as suas férias para melhor se inteirar, in loco, dos arrasadores resultados provocados pelos incêndios na mancha verde do território nacional, já que os seu dez anos/dez verões de Portugal ardendo foram insuficientes para que, como Chefe de Estado que foi e é, diligenciasse tomar medidas definitivas para acabar com esta tragédia.
Até o próprio presidente da Comissão Europeia, a passar o fim das suas férias no norte do país, não hesitou em interromper as suas férias, fazendo questão inclusive em mencioná-lo, para assim poder dar um pulinho ao incêndio mediáticamente mais relevante e geográficamente mais próximo onde, subliminarmente, assinalou a importância de se ter um dos nossos no poder europeu para que a ajuda internacional no combate aos fogos nacionais se processe com rapidez.
segunda-feira, agosto 22, 2005
Faz hoje um mês
O Movimento 560 tem como objectivo promover a compra de produtos portugueses por portugueses. Para isso "descodificou" o código de barras concluindo que são de origem portuguesa ou distribuídos por Portugal todos os produtos que tenham associados ao código de barras um número começado por 560. Descobri isto ao ler este post d'O Sexo dos Anjos.Mas o melhor é irem até lá.
Bombardeiros de água
sexta-feira, agosto 19, 2005
De partida
Eis a última foto conhecida de Pedro Lomba, Pedro Mexia e Francisco José Viegas precisamente quando começavam a ser tele transportados, beamed up, as they say, de Fora do Mundo para um outro planeta qualquer da blogáctica.Prova irrefutável desta partida é, igualmente, o fim do Aviz.
- Hasta la pasta!- said the bishop to the actress.
quinta-feira, agosto 18, 2005
Parabéns
terça-feira, agosto 16, 2005
Reformas
Esta ideia do PS é tão contranatura como, nos anos 80, a criação do Partido Ecologista "Os Verdes" pelo PCP, filiado da URSS onde na altura agonizava um regime que fez da indústria extractiva e transformadora o baluarte de um desenvolvimento a todo o preço que tinha tanto de ecologia como água tem o deserto. Ao criar essa melancia chamada PEV, o PCP retirou espaço de manobra a qualquer outro tipo de grupo ou associação que, emergindo, se reclamasse da ecologia procurando afirmar-se no espectro político de então.
Só o PPM já moribundo na altura se reclamava, e bem, como partido ecologista.
Controlando o processo da criação de círculos uninominais, o PS tudo fará para que as regalias e benesses conseguidas para a nomenklatura partidocrática em pouco ou nada sejam atingidas, puxando para uma regionalização que, embora negada em referendo, se avizinha cada vez mais como reforma inevitável. Um dos argumentos que se farão ouvir na rentrée será o da falência do actual regime de ordenamento do território (leia-se RAN e REN) "provada à saciedade pela calamidade anual dos incêndios", dirão.
A criação dos círculos uninominais mais não será do que a redacção legislativa das regras da regionalização que se avizinha.
segunda-feira, agosto 15, 2005
Histórias de encantar V
O cego ia a vários sítios na cidade com o cão. Um dia chegou ao lado de cá da Av. da Liberdade que é o lado do S. Jorge e do Odéon. Resolveu ali e então que era altura de atravessar para o outro lado.
Aproximou-se da beira do passeio com o cão pela trela. Percebeu pelo som dos carros a abrandar e pelo disparar do sinal sonoro que era altura de atravessar. Deu um passo e estacou. O cão permanecia quedo, imóvel. O cego puxou pela trela, puxou, puxou e o cão nada. Assim que a cor do semáforo mudou para verde os carros arrancaram e o cão idem, arrastando o cego aflito para o meio do trânsito enquanto se faziam ouvir buzinas, chiar de pneus e impropérios. Chegados ao pimenteiro e saleiro a meio da avenida o cão estacou. Os carros também. De novo se ouviu o sinal sonoro indicando ser o momento seguro para a travessia do resto da avenida. E o cego puxou o cão e o cão nada. Imóvel, teimosamente parado. Nova mudança na cor dos semáforos e o cão relança o dono cego na alucinante travessia pelo meio do trânsito. Chegados finalmente ao outro lado, o cego parou e, trémulo, tirou um pacote de bolachas Maria de um saco de plástico azul cueca.
- Toma toma... - balbuciava o cego para o cão enquanto este, esticando a trela, tentava desesperadamente manter-se o mais afastado possível do dono. Um transeunte que passava e testemunhara a alucinante travessia e o obstruso comportamento do cão não se conseguiu conter de espanto e inquiriu o cego:
- Então o senhor vai dar bolachas a esse cão de um cabrão que quase o ia matando ?-
- Eu ? Nããã. Só quero saber onde está a cabeça do gajo para lhe dar um valente chuto nos tomates.
domingo, agosto 14, 2005
Tu também? (*)
- Então pá? Vais ver os U2 ?
- Quem ? Eu? -
- ... -
- Tás parvo ou quê? Eu não dou vinte contos para ir às putas e pagava quarenta para ver esses picolhos dum tinhoso?
- Eh eh. Pois.
(*) U2 = U too = You too?
sexta-feira, agosto 12, 2005
Desprezo II
«Os incêndios são preocupantes quando há pessoas e bens afectados, mas a situação não é de uma enorme gravidade do ponto de vista da conservação da natureza»
Humberto Rosa, secretário de estado do ambiente, referindo-se aos 15.500 Ha de área "protegida" ardida, no rescaldo dos incêndios deste ano.
Desprezo I
Resposta de Carneiro Jacinto, porta voz do MNE, dada hoje quando inquirido sobre que ajuda e diligências por parte dos serviços da Embaixada de Portugal em Londres podiam os portugueses retidos em Heathrow contar.
«As embaixadas e os consulados existem para dar aquilo que nós chamamos protecção consular às pessoas. Significa pessoas que estão com dificuldades, de saúde ou outras. Não significa que são para resolver problemas de pessoas que estão em turismo e ou em viagens de negócios e que apanham com uma greve pela frente»
Como na Tailândia após o tsunami de 24 de Dezembro de 2004. Certo?
quinta-feira, agosto 11, 2005
Doze de Agosto

A "época dos incêndios" está mais que a meio, quase perto do fim. Cento e vinte mil hectares ardidos depois, a discussão estéril, a recriminação desabafante, a co-irresponsabilidade total dos senhores do poder está bem patente no cinzeiro nacional, na desolação da paisagem, na desertificação resultante da chacina pueril a que foi submetida a floresta, a paisagem, a fauna natural, a alma de todos os portugueses.
O ministro António Costa, após se ter reunido com os vários "responsáveis" (esta coisa dos fogos é complexa, há que haver vários, senão mesmo muitos "responsáveis") pelos vários pelouros que dirigem nos diversos e variados "combates" que travam contra as "chamas". O mais tecnológico dos quais foi o do Bloco de Esquerda, apelando ao combate às chamas na origem, leia-se, na sua divulgação.
Medindo áreas ardidas com fita métrica, os senhores do poder da república chegaram à sossegantemente provisória cifra de 68 mil hectares ardidos. Mas a Europa (a que todos reclamam que Portugal pertence) mercê do recurso a meios tecnológicamente chocantes, incuindo o rastreio por satélite, chegou a uma cifra bem maior: 120 mil hectares ardidos. Até agora.
Não é culpa deste ou daquele partido.
É, isso sim, culpa do regime, porra.
A república está morta. E fede.
Se fede.
Real! Real! Por El-Rei de Portugal!
quarta-feira, agosto 10, 2005
terça-feira, agosto 09, 2005
Lambada nas tasquinhas
S. Pedro e Nada envolvem-se em em cenas de pancadaria
O caso mais flagrante aconteceu no sábado à noite, quando o candidato do PS à Junta de Freguesia de Marinha das Ondas, Manuel Rodrigues Nada, foi visitar as tasquinhas da ExpoOndas, certame da localidade, encontrando o actual presidente da Junta e recandidato pelo PSD, São Pedro Almeida. Foi então que começaram os insultos e seguiram-se agressões físicas.
Futurologia II
Como em 1908: O que não conseguiram pela via democrática, conseguiram-no a tiro.
O Sol, o sal, a praia e outras merdas
-...-
- Tu ouvistes o que te acabei de dizer Rui Miguel?-
-...-
(sssuoooshh sssuooosh sssuooosh (passos na areia))
(ZZZTRASSSHHH...(tonc) )
_ Para a próxima já sabes.-
- estúpida -
sábado, agosto 06, 2005
Estão a queimar Portugal
Fotos : Lusa
"A evidência salta aos olhos: o país está a arder porque alguém quer que ele arda. Ou melhor, porque muita gente quer que ele arda. Há uma verdadeira indústria dos incêndios em Portugal. Há muita gente a beneficiar, directa ou indirectamente, da terra queimada."
Contra factos não há argumentos.
Só a estupidez, a teimosia e a aldrabice.
domingo, julho 31, 2005
O Template
- Não faças isso. Já mudaste uma vez, lembras-te?
- E depois? Posso mudar de template as vezes que me apetecer.
- Então tiveste uma trabalheira enorme, perdeste uma data de links e não ganhaste nada com isso.
- Não quero saber. Vou mudar o template desta merda, foda-se.
- Não faças isso. A sério. Olha, come antes uma peça de fruta.
sábado, julho 30, 2005
O Papagaio
No primeiro dia, não dizia nada. "Olha que o gajo fala pelos cotovelos" garantira-me o casal meu amigo de partida para a Austrália. "E às vezes até diz um palavrãozito ou dois", gracejou a medo a Joana.
- Ah é? - respondi eu. Vindo de quem vinha, dificilmente imaginaria que as provocações em vernáculo da palradora ave fossem muito além de sonoros "ó louro dá cá o pé" ou então "olha lá ó paspalho!", ou, na mais escabrosa das hipóteses um "desolha, ó pintas!". Mal sabia eu.
É sempre ao terceiro dia que ocorrem fenómenos determinantes na existência humana.
Foi então que o papagaio resolveu dissertar em velocidade e variedade sobrepondo as mais alarves e inconcebíveis avaliações sobre anatomia humana com classificações multigeracionais
de género tipo e feitio sobre todo e qualquer transeunte que passasse.
O rol de impropérios incluia mimos do tipo "tens cá uma máquina de cagar!" e "pokeralhopókeralho...!croac!....dassse....!croac!...vaituókamelovaitu...!croac!" , etc.
Precipitei-me para a varanda e consegui arrancar o conjunto poleiro/papagaio para dentro da sala, entornando no acto sementes de girassol e água na alcatifa no exacto momento em que uma chusma de aleivosias eram cuspidas envolvendo as dimensões do aparelho genital do Sr. Barros, sapateiro aposentado, e a indiscrição da dona Lurdes, do lugar.. Olhei a ave fixamentemente no olho direito, era o que estava a olhar para mim na altura, reparei nas penas encrespadas no pescoço e mumurei-lhe em surdina entredentes : "Ouve uma coisa, ó meu grandessissimo papagaio dum cabrão. Se voltas a dizer um palavrão, caralho, UM PALAVRÃO que seja, garanto-te que te enfio no frigorífico durante uma semana.
"Tábémtábém !croac!" respondia desdenhoso. "OUVISTE???", berrei encostando os dentes semicerrados à fronha do pássaro. Ele disse que sim que sim que tinha ouvido.
Saí para trabalhar descansado. Quando voltei não queria acreditar. À entrada do prédio tinha um comité de recepção constituido por dois policias, a porteira do lado e o administrador do meu prédio. Duas freiras e um cauteleiro fechavam o conjunto. Resumindo:
Após a minha saída, o papagaio voltou à carga e despejou durante horas todo o tipo de impropérios possíveis e imaginários. As freiras, conduzindo um grupo de crianças órfãs a caminho da praia, decidiram chamar a polícia face às bestialidades gritadas pelo pássaro, as quais, além de dissertações alucinantes sobre a anatomia dos personagens do presépio, incluiam detalhadas descrições dos hábitos sodomitas de certos pinguins.
O cauteleiro, que passava por ali por acaso, ficou pregado ao chão a ouvir o papagaio. "O papagaio é seu?" perguntou-me. Respondi-lhe que sim. "Juro-lhe" afiançou-me ele, "que nunca ouvi um papagaio berrar palavrões daquela maneira! E o que ele dizia... E se eu tenho viajado pelo mundo!" disse olhando com espanto as copas das árvores do outro lado da rua.
Forneci os meus elementos de identificação à Polícia para "dar provimento à queixa".
"De quem", perguntei eu? "De toda a gente", repondeu o polícia olhando-me com ar triunfante.
Pedi desculpa a toda a gente, garantindo que aquilo jamais voltaria a acontecer após o que subi devagar os degraus da escada até ao meu apartamento, no 1º andar. Meti a chave à porta devagar, possuído por um sentimento de ódio gelado e sede de vingança como nunca na vida sentira. Fechei a porta atrás de mim com cuidado, como se não quisesse acordar ninguém e dirigi-me furtivamente à varanda. Agarrei no papagaio/poleiro e trouxe o conjunto para dentro.
Nem me atrevi a olhar para baixo, de onde vários pares de olhos me fitavam.
Corri as cortinas, agarrei no papagaio, soltei-o da corrente que o prendia ao poleiro e, enquanto me encaminhava para a cozinha dizia-lhe, martelando sincopadamente cada sílaba: "Es-tás-fo-di-do-meu-ca-brão"
"No frigorifico? Nãããã. Vais mas é para o congelador!" Abri a porta da arca vertical escolhi a gaveta menos cheia, enfiei lá o papagaio fechei a gaveta com força e bati com a porta gritando" É PARA APRENDERES".
Servi-me de uma dose generosa de Bushmills, juntei-lhe um pouco de água fria, acendi um cigarro e fui calmamente até à sala. Liguei a televisão e decidi alienar-me do mundo durante o tempo daquele cigarro.
À medida que os minutos passavam, o cigarro e o whiskey desapareciam, a calma regressava devagar, como folhas secas a poisar no chão a seguir a uma inexplicável rabanada de vento.
Comecei a sentir um ligeiro desconforto ao imaginar o papagaio trancado no congelador. O desconforto transformou-se rápidamente num saco de remorsos pesadíssimo. Levantei-me e libertei o bicho do seu castigo, trazendo-o para a sala embrulhado numa toalha de cozinha.
Comecei a enxugá-lo devagar e, a pouco e pouco, as tremuras de frio foram desaparecendo, enquanto conversava com ele e lhe tentava explicar que não se pode andar a dizer palavrões a toda a gente, a insultar as pessoas que passavam na rua, que era muito feio, enfim as parvoeiras que se costumam dizer a um papagaio de que se gosta e que se portou mal. A tudo ele dizia que sim, acenando com a cabeça e evitando, a todo o custo, olhar-me nos olhos. De seguida poisei-o no chão e observei-lhe as penas exofradas da nuca enquanto ele se afastava bamboleante, como um pirata de perna de pau. De um salto poisou no braço da poltrona à minha direita e ali se deixou ficar, encolhido. Minutos depois, poucos, dois ou três, salta para o chão e dirige-se na minha direcção. Mantive-me quieto, na expectativa. De súbito senti que me estava a puxar pela bainha das calças. Soergui o tronco e olhei para baixo. O papagaio acenou-me com a cabeça como que a dizer para me aproximar. Debrucei-me na sua direcção e ele, acenando com a cabeça em direcção à cozinha, perguntou-me com voz rouca e muito baixinho: "O que é que fez o frango?"
sexta-feira, julho 29, 2005
Passar palavra
«Alguma imprensa – com particular atenção de um semanário – sempre atento a tudo quanto seja polémico neste assunto – tem dado inusitada relevância aos que apelidam de monárquicos, confundindo-os com o PPM agora com visibilidade mediática graças ao seu actual Presidente e, creio que, sobretudo ao seu Vice-Presidente saído da popularucha "Quinta das Celebridades" para a política pêpemista. Ora nem o PPM representa os monárquicos – a esmagadora maioria ou milita ou vota noutros partidos – nem o actual PPM representa mais do que a cúpula que o tomou e uns tantos incautos que votaram nela.»
«O PPM nasceu de um grupo de monárquicos que se opunham ou discordavam do Estado Novo e que com o 25 de Abril quiseram marcar a diferença daqueles que na Causa Monárquica – onde já tinham ocorrido dissidências antes de 1974 – apoiavam o regime autoritário de Salazar, o supremo manipulador, que foi sempre alimentando a ideia de uma restauração a troco do apoio de monárquicos formados numa doutrina mal assimilada que os fez preferir a ordem a qualquer preço, sobre a liberdade dos que proclamavam que "o nosso Rei é livre e nós somos livres". Cumpriu a sua missão. Devia ter morrido aí.»
«A partir de então passou a ser um grupúsculo com ideias políticas de sinal contrário e ultimamente serviu para fazer, aqui e acolá, coligações com os grandes partidos, na convicção de que ascenderia ao poder, autárquico ou nacional. O PPM se já não era nada, hoje ainda o é menos, com tiradas do seu Presidente que se considera mais herdeiro dos Reis de Portugal do que o Senhor Dom Duarte de Bragança, por descender de uma Infanta casada com um Duque de Loulé e ou do seu Vice-Presidente que tendo tido a brilhante ideia de candidatar à Câmara de Cascais uma das celebridades de tal quinta, teve esta saída brilhante "Neste país pode-se ser homossexual, mas uma mulher solteira não pode ser candidata só porque teve vários homens"!»
«A defesa da monarquia é uma coisa muito diferente desta exposição mediática por más razões, muito diferente da defesa inglória e ridícula de uma pretensão à representação dos Reis de Portugal que a quase totalidade dos monárquicos vê com uma gargalhada, senão com comiseração pelos protagonistas atirados para a frente de guerras pessoais. É a defesa de um regime em que a Chefia do Estado e da Nação coincidem, em que o seu detentor não está dependente e prisioneiro dos votos dos partidos, em que a sua independência é garantia da estabilidade política, em que a representação exterior do País ganha outra visibilidade e outra credibilidade.»
«Para essa luta contribuíram e contribuem muitos portugueses de relevo, com formação ideológica e política, com convicções, no anonimato muitas vezes, sem parangonas nos jornais das intrigas políticas e da vida social, que só lhes interessa o apoucamento de luta pela Monarquia ou o seu lado "folclórico", das celebridades e dos aristocratas do "socialite".»
«A defesa da Monarquia é uma coisa séria. Não uma brincadeira de quem, sem saber como, se apanhou na ribalta política e dela fez trampolim para as suas "causas" pessoais.»
João Mattos e Silva
Texto retirado daqui
Em roda livre
Este fundo não carecia da aprovação da Comissão Europeia.
quarta-feira, julho 27, 2005
Ecologistas de bolso
Quercus, em 12 de Março de 2004 :
(...) o Novo Aeroporto de Lisboa na Ota aparece à luz da razão como um enorme elefante branco. Um projecto mal justificado, sugadouro de dinheiros públicos, dificilmente rentabilizavel face a outras soluções mais baratas, com melhor operacionalidade, ainda que mais pequenas, com possibilidade de serem geridas numa óptica concorrencial com a ANA, tal como a já existente pista de Alverca.
Quercus, em 5 de Julho de 2005 :
A Quercus considera que a escolha da Ota para a construção do futuro aeroporto encerra alguns problemas, mas é a melhor solução.
(Por via aérea)
Importam-se de repetir?
Portugal concorda receber menos água
Agora a sério: andam a gozar com a malta. Certo?
terça-feira, julho 26, 2005
Monarquia ? Sim, por favor.

A quase candidatura de Mário Soares à presidência da República reflecte a falência do regime republicano em três frentes distintas: na sua essência, no seu futuro e na sua credibilidade.
Na sua essência porque desde o 25 de Abril de 1974 e em todas as eleições presidenciais, todos os presidentes da república eleitos exerceram dois mandatos consecutivos única e simplesmente porque constitucionalmente não puderam exercer um terceiro. Não que isso não fosse um desejo legítimo dos eleitores. Se a lei o permitisse, o Chefe de Estado em Portugal, sendo um presidente da República, seria permanentemente re-eleito. Seria um quase Rei.
A permanência em funções de criaturas como Alberto João Jardim e a complacente condescendêndia para com as suas diatribes, acessos de arrogância e grosserias, concedendo-lhe assento permanente no Conselho de Estado reflecte bem que tipo de Estado é este.
No futuro porque um partido (PS) embora se reclame herdeiro do partido republicano, não consegue descortinar nas suas hostes ninguém ao nível de candidato a Chefe de Estado sem ser o seu próprio fundador. para os repblicanos do PS, ninguém está tão bem colocado para disputar umas presidenciais do que um presidente com dez anos consecutivos de exercício. Mesmo que tenha oitenta anos de idade. E depois logo se vê.
O outro partido (PSD) tem para oferecer como candidato o homem da regisconta. Os candidatos a chefe de Estado são apresentados como produtos de feira, elixires milagrosos, banha da cobra, só eles capazes de conduzir Portugal na senda do futuro. Seja ele qual for.
O regime republicano está ferido de morte na sua credibilidade porque ao querer promover junto do povo candidatos com provas dadas do que fizeram, não se livra de que esses mesmos candidatos também tenham provas dadas do que não fizeram, como por exemplo, a falta de empenho pessoal na criação de uma estratégia de combate aos incêndios à semelhança do que foi implementado há 12 anos na Andaluzia com provas mais que dadas e resultados exemplares. À semelhança, aliás, do que o actual presidente também não fez.
Ou, no caso do candidato do PSD, chefe de goveno por dez anos consecutivos, a falta de coragem para avançar com profundas reformas internas, desde a administração pública, à revisão da lei do arrendamento, contribuindo assim para o descalabro e o caos urbanístico nas periferias das grandes cidades, obrigando gerações e gerações de portugueses a endividarem-se para com os bancos, verdadeiros senhorios incontestados, pagando rendas astronómicas por apartamentos que serão seus ao fim de trinta anos.
A partidocracia republicana vigente, herança dos republicanos do início do século passado que suprimiram os círculos uninominais criados no tempo de Fontes Pereira de Melo, na segunda metade do sec. XIX, que fomenta a eleição para a Assembleia da República de deputados que nem sequer conhecem o seu próprio círculo eleitoral, quanto mais os seus eleitores, é o expoente máximo de um regime em que os interesses corporativos e o compadrio descarado entre meia dúzia de senhores feudais se sobrepõe descaradamente ao interesse do país.
Em conclusão, refira-se que a noção de património se encontra definitivamente arredada do modus operandi do regime republicano. Seja esse património de origem natural ( florestal, hídrico e marítimo) ou edificado (pontes, estradas, monumentos ,etc.,). O que ainda existe é para ser negligenciado, saqueado ou negociado. A complacência do poder republicano para com a praga cíclica e anual dos incêndios e a sua promoção a fenómeno "meteorológico" sazonal, previsível e inevitável é um insulto à inteligência de todos os portugueses. Quando os pelouros da RAN e da REN forem definitivamente depostos nas mãos dos caciques autárquicos, que promoverão a sua rápida delapidação e substituição por monstros de betão, será tarde.
A regionalização que não foi conseguida com o referendo será obtida pelo fogo.
Agradecimentos
A O Velho da Montanha e ao blogame mucho pelos links.
Parabéns, ainda que atrasados, pelo 2º aniversário ao blogame mucho, um Blog caliente, carregado de sensibilidade e bom senso.
domingo, julho 24, 2005
Presidenciais 2006
O gráfico com que o Expresso resolveu acompanhar mais uma das suas sondagens, desta feita relativa a umas eleições presidenciais que se realizarão daqui a seis meses, é em si próprio expressivo e digno de nota. Senão repare-se:1. Cavaco Silva, aparece numa atitude despreocupada, de mão no bolso, como quem caminha seguro do que quer, sem dúvidas, poucos enganos e nenhum Bolo-rei. Mas atenção! O que é que ele leva na mão? Um jornal. Ele leva um jornal na mão. Para quem se gabava de nunca ler jornais, há contradição que chegue.
2. Em seguida aparece Mário Soares. Aparece não. Acontece. Mário Soares acontece de repente, vindo de parte nenhuma, como uma bailarina acabando um pas de deux. Ou como um génio cuja lamparina foi inadvertidamente esfregada. Nada na mão esquerda. Nada na mão direita. Eis-me.
3. Manuel Alegre parece ter sido tele transportado por engano. Enganaram-se nas coordenadas e em vez de se ver calmamente a deambular pelos corredores de S. Bento, dá consigo em cima dum 42 a olhar, pasmado, para as evoluções dançantes de Soares perante a calma intranquila do Sr. Aníbal.
4. Por fim, Freitas do Amaral surge sobraçando os complicados dossiers que terá que estudar para quando arrancar com a campanha eleitoral, enquanto que a mão direita se presta a largar a pasta dos Negócios Estrangeiros, aguardando para isso um momento em que ninguém esteja a olhar. Se alguém olhar, pode sempre abanar a pasta, como quem chama um táxi.
sábado, julho 23, 2005
quinta-feira, julho 21, 2005
PPM muda para PCP (f m)
O logotipo será um cavalo ruço cavalgado por uma raposa chamada Elsa.
No almoço de ontem no American Club
Como a maior parte da oipinião pública dos portugueses entendidos na matéria, é contra os projectos e consequentes obras do TGV e a OTA, podemos estar descansados.
Inércia
Só isso explica que os poucos, quase inexistentes, apelos à poupança de água tenham começado a surgir agora, na segunda metade do mês de Julho.
Poder instituído esse que, como é óbvio, se estende desde o Presidente da República até ao deputado mais incompetente, bronco e distraído desta III República, passando pelos diferentes Ministros de Estado bem como pelos seus colegas, os Ministros de Estando.
quarta-feira, julho 20, 2005
Estado de choque.
A entrevista de Diogo Freitas do Amaral ao Diário de Notícias tirou às elites, esquerda e direita, qualquer réstea de esperança de um resto de ano calmo, sossegado e de desfecho previsível: a vitória de Cavaco Silva nas presidenciais de 2006.
Já se tinha falado nisso cá no Terreiro: aqui, aqui, também aqui e, finalmente, aqui.
Caladinhos que nem ratos, os adeptos da esquerda e da direita, desorientados ao máximo, como fufas cegas com o cio, num armazém de bacalhau, assobiam para o lado todos ao mesmo tempo assobiando assim, nas caras uns dos outros.
Never say never

Diogo Freitas do Amaral assume-se como putativo candidato às eleições presidenciais de 2006.
Referindo-se a Cavaco Silva sublinha que há um prolongado silêncio destinado a criar as condições, não para uma eleição democrática e pluralista, mas para um plebiscito unanimista. Afirma ainda que seria pouco habitual se deixasse o governo para se candidatar às presidenciais, mas não seria estranho.
Ora, considerando-se extremamente pouco habitual que o fundador de um partido democrata cristão viesse algum dia a ser membro de um governo socialista, é legítimo que se considere abundantemente estranho que, após uma entrevista destas, a sua candidatura a presidente da república não se torne realidade.
Em entrevista ao DN de hoje.
- Never say never.- said the bishop to the actress.
- But you just said it! Twice! - she replied.
terça-feira, julho 19, 2005
E vão cinco
Talvez por isso nunca tenha sido fã da série que acabou ontem.
Nos episódios que fui vendo, não pude deixar de reparar numa coisa : é que não se aproveitava ninguém.
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A reforma da lei do arrendamento é uma treta. Alguém imagina ser possível que a renda de um T2 comprado há cinco anos por trinta mil contos e avaliado pelas Finanças em quinze mil contos seja de cinquenta contos por mês? Pois...habituem-se.
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O Presidente da república julga que se se unir aos restantes portugueses, todos juntos conseguirão fazer coisas belas por Portugal. Por favor, não o acordem.
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Eduardo Prado Coelho é o 17º na lista de Carrilho à CML.
Não tem hipótese.
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Autofagia republicana militante - Processo opinativo de cariz verborreico / incontinente dirigido a próprio ou ao seu semelhante. Exemplo: A recente troca de galhardetes entre VPV e António Barreto a propósito das elites.
segunda-feira, julho 18, 2005
O Príncipe Perfeito

«Foi el-rei D.João homem de corpo, mais grande que pequeno, mui bem feito e em todos os seus membros mui proporcionado; teve o rosto mais comprido que redondo e de barba em boa conveniência povoado. Teve os cabelos da cabeça castanhos e corredios e porém em idade de trinta e sete anos na cabeça e na barba era já mui cão, de que se mostrava receber grande contentamento pela muita autoridade que à sua dignidade real suas cãs acrescentavam; e os olhos de perfeita vista e às vezes mostrava nos brancos deles umas veias e mágoas de sangue, com que nas coisas de sanha, quando era dela tocado, lhe faziam aspecto mui temeroso. E porém nas coisas de honra, prazer e gasalhado, mui alegre e de mui real e excelente graça; o nariz teve um pouco comprido e derrubado. Era em tudo mui alvo, salvo no rosto, que era corado em boa maneira. E até idade de trinta anos foi mui enxuto das carnes e depois foi nelas mais revolto. Foi príncipe de maravilhoso engenho e subida agudeza e mui místico para todas as coisas; e a confiança grande que disso tinha muitas vezes lhe fazia confiar mais de seu saber e creu conselhos de outrem menos do que devia. Foi de mui viva e esperta memória e teve o juízo claro e profundo; e porém suas sentenças e falas que inventava e dizia tinham sempre na invenção mais de verdade, agudeza e autoridade que de doçura nem elegância nas palavras, cuja pronunciação foi vagarosa, entoada algum tanto pelos narizes, que lhe tirava alguma graça. Foi rei de mui alto, esforçado e sofrido coração, que lhe fazia suspirar por grandes e estranhas empresas, pelo qual, conquanto seu corpo pessoalmente em seus reinos andasse para as bem reger como fazia, porém seu espírito sempre andava fora deles, com desejo de os acrescentar. Foi príncipe mui justo e mui amigo de justiça e nas execuções dela mais rigoroso e severo que piedoso, porque, sem alguma excepção de pessoas de baixa e alta condições, foi dela mui inteiro executor, cuja vara e leis nunca tirou de sua própria seda, para assentar nela sua vontade nem apetites, porque as leis que a seus vassalos condenavam nunca quis que a si mesmo absolvessem.»
(Da Crónica de D.João II, de Rui de Pina)
sexta-feira, julho 15, 2005
Um milhão
Senão o espólio será vendido ao estrangeiro.
Isto em vésperas de o Fado se tornar património mundial.
Assunto abordado por Pedro Bidarra no Público de hoje. Página 9.
quarta-feira, julho 13, 2005
Redacção - As minhas férias
Nos dias de chuva a neura, o tédio, o fartanço e a parvoeira apossavam-se, insinuantes, de cada um dos habitantes da casa. O cão aproveitava para dormitar perto da grande janela de sacada da sala.
Se por acaso alguém passasse lá fora, um gato miasse, uma folha de jornal de há três dias fosse espalmada pelo vento contra o vidro, acto contínuo o cão desatava a ladrar começando, invariávelmente, por se levantar e esticar as quatro patas com toda a força, olhar para o tecto e para aí dirigir uma sucessão de latidos ensurdecedores até que alguém lhe atirasse um calado! acompanhado de um pontapé ou cachação.
O meu irmão Jaime não perdia a oportunidade para, nessas alturas, acrescentar um pouco mais de educação ao cão socorrendo-se para o efeito de um banco de cozinha e de um pequeno galho de figueira que, como todos os galhos de figueira, não era aproveitado para queimar na lareira. Como quem punha a mesa para o almoço todos os dias, Jaime transportava o banco para junto do animal e poisava-o no chão. De seguida acocorava-se ao pé do cão e enquanto lhe dizia "Tu-és-um-cão-muito-feio" preenchia os intervalos entre as palavras com pequenas mas irritantes traulitadas executadas com o galho de figueira na cabeça do canídeo o qual, escusado será dizer, suportava a coisa com pouca ou nenhuma paciência. Geralmente começava por dar a sua opinião sobre o que estava a suceder a seguir à terceira ou quarta traulitada expondo, numa brancura cintilante e silenciosa, as protuberâncias ósseas com que a natureza se encarregara de lhe ornamentar as fauces.
A passagem ao segundo andamento era subtil e consistia em acompanhar as traulitadas que recebia com rosnadelas a meio gás que, ritmicamente, se acentuavam no momento preciso em que a traulitada era executada.
À medida que o repertório do meu irmão se ia extinguindo, a improvisação tomava o lugar do bom senso, sugestões e conselhos arrastavam-se, alongando-se e decompondo-se silabicamente em frases absurdas que para ninguém faziam sentido muito menos para o cão que, de olhos vítreos, encetara o terceiro andamento iniciando uma série de sinistras roncadelas aspiradas, como quem diz "tás quase, meu cabrão, tás quase". Era então que algo de muito mais estranho acontecia. O cão, que até então olhara o banco de cozinha de solslaio, passou a encará-lo como uma ameaça silenciosa, incompreensível mas real. O arrastar daquele banco de cozinha iniciando esta cena miserável e fazendo parte integrante do espaço cénico onde se desenrolava a acção tinha que ter algum sentido, alguma intenção. Para o cão era óbvio que se tratava de mais um instrumento de agressão e tortura, fruto pérfido do sadismo do meu irmão Jaime. Para nós, que assistiamos vagamente ao que se passava, era só uma questão de tempo até vermos que, inevitávelmente, Jaime se sentaria lá em em cima. Nesse momento, enquanto ele dissertava sobre as contrariedades quotidianas e a importância, ou não, da resignação proferindo frases como "es-ta-mos-to-dos-far-tos-des-ta-chu-va" traulitando a cabeça do cão com suavidade, toda a atenção do cão se encontrava concentada no banco. Quando o nível decibélico a que chegavam as rosnadelas, então soluçadamente aspiradas e expelidas com uma frequência de sprint final, se tornava definitivamente ameaçador para além de qualquer parcela de dúvida, Jaime virava-se de súbito para o banco de cozinha, balouçava-o repetida e rápidamente, numa tosca imitação do que poderia ser um galope Calvinesco, berrando em simutâneo um formidável kiai. O cão, acto contínuo, apoteose final e encerramento, desatava a correr pela sala, alucinação tridimensional completa, com as orelhas esticadas para trás, o rabo entre as pernas a lingua pendente de lado, curvando em slide em volta da mesa grande, pulverizando as garras das patas na tijoleira do chão enquanto recebia aplausos carinhosos e suaves cachações no lombo por parte da assistência.
Era sempre a seguir a este ritual que a chuva parava e o sol aparecia.
segunda-feira, julho 11, 2005
Quem sabe, sabe
sábado, julho 09, 2005
Contra factos não há argumentos.
(...) A área total ardida naquela região espanhola (50.617 hectares - Andaluzia) durante todo este período (1995-2003) chega a ser inferior àquela que se perdeu em Portugal em menos de 24h de alguns dos dias de Agosto do ano passado. (2003) (...)
(...) Ou então que seja o luso fadário o responsável pelos fogos terem varrido, desde 1995, uma área equivalente a 15 por cento do território português, enquanto na Andaluzia essa cifra não atingiu sequer os 0,6 por cento.(...)
(...) remuneração de um elemento de brigada BRICA ascende aos 1200 euros e a dos outros “bombeiros” pouco menos (...)
Contra factos não há argumentos. Só a estupidez, a teimosia e a aldrabice.
Ler o artigo completo aqui.
sexta-feira, julho 08, 2005
Perto do fim
O destino desses milhões de dólares terá sido o recrutamento de pessoas e meios e o financiamento de mais actos terroristas.
Com os recursos petrolíferos do planeta perto do fim, mesmo que o actual preço do barril, em permanente e imparável subida, seja um argumento de peso para que se opte por processos de extracção que, com o barril a 25 dólares não compensariam, e com a procura a atingir níveis inconcebíveis há dois anos atrás, a luta pelo controle da produção acentuar-se-á de forma violenta. Prevê-se que, perto de 2015, o preço do barril atinja os 380 dólares.
O objectivo dos terroristas islâmicos é o dinheiro. Seja ele obtido pelo controle da produção do petróleo nos países árabes, ou pelo controle da produção de papoila de ópio no Afeganistão.
Quanto mais alto estiver o preço do petróleo, mais motivados estarão para a prossecução das suas acções vingativas e de terror. Os países em vias de desenvolvimento, com o crescimento dos PIB na ordem dos 10% ao ano, como a China e a Índia, dificilmente estarão na disposição de pagar cada vez mais caro por aquilo que não produzem: petróleo; e que tão caro e indispensável é ao seu desenvolvimento. Daí à tentação de "anexar" países produtores, vizinhos de preferência, vai um pequeno passo. A recente eleição no Irão do ultraconservador Mahmud Ma Ahmadinejad, partidário do não aumento de produção de barris de petróleo por parte do Irão, não augura nada de bom a um mundo viciado no ouro negro que, em vez de o injectar nas veias, extrai-o, processa-o e consome-o sem cessar, sem se preocupar com a extinção dos stocks.
Pela primeira vez na história da humanidade, começando na era industrial, os habitantes deste planeta dedicam-se, com a intensidade de famintos mamíferos recém nascidos, a consumir desenfreadamente os recursos naturais do planeta mãe, útero cósmico, que os pariu.
O capital inicial, seja ele a pesca, a água potável, a fertilidade do solo, as florestas, os recursos petrolíferos, etc., é consumido com uma voracidade larvar como se Deus, a uma dada altura do processo evolutivo, dissesse: "Matai-vos e comei-vos uns aos outros."
Pela primeira vez na história da humanidade, o anti-capitalismo antropófago globalizou-se, espalhando a sua sanha vingativa pelos quatro cantos do mundo, empenhando a humanidade na delapidação, consumo e esbanjamento dos recursos naturais de um planeta criado há milhões de anos para lhe servir de repasto, de carcaça.
É estafar e deitar fora.
Com a geração "tásse" à beira do poder, provida de polegares hiperdesenvolvidos, inteligência atrofiada e memória inexistente, será em poucos anos que se servirá a caldeirada final, com molho de cogumelos e polvilhada com enxofre.
terça-feira, julho 05, 2005
A barrela metrossexual
Ensinança de virar o bico ao prego, em toda a tábua.
Assim escrevia Eduardo Prado Coelho.
No Público de hoje.
A Inveja é como a República : pequenina, mentirosa e incompetente.

"Criada no reinado de D. João V, após a construção do Convento, como um parque para lazer do monarca e da corte, a Tapada Nacional de Mafra constitui hoje um património natural de características únicas. Numa área de mais de oitocentos hectares, veados, gamos, javalis, raposas, aves de rapina e muitas outras espécies coexistem num cenário de flora invulgarmente rica e diversificada. Local de eleição dos soberanos de Portugal para o lazer e para a caça, a Tapada de Mafra ganhou por isso um cunho próprio de nobreza que ainda hoje é preservado e continuado."
segunda-feira, julho 04, 2005
Monárquicos côr de rosinha...
A seguir à candidatura de Elsa Raposo à Câmara Municipal de Cascais quem se seguirá em Lisboa e Sintra? José Cid e João Braga?
domingo, julho 03, 2005
sexta-feira, julho 01, 2005
The times, they are a changin'
Passou a ser possível, legal e portanto recomendável, a adopção de crianças por "casais" homossexuais.
Para todos os homossexuais?
Não.
Os padres homossexuais, esses, continuam condenados ao celibato.
terça-feira, junho 28, 2005
Divagações III
Para onde quer que me vire, só vejo asneiras, bestas, aldrabões e emproados. Também há gajas boas, prados verdes alguns bosques e alguma caça. Coisa pouca, é certo. Mas ainda assim lá vão sobrevivendo. Há que dizê-lo. Mas não chega.
Lembro-me de caçar coelhos à paulada no bosquedo de Sintra, já junto à várzea, tantos que eles eram. Agora os coelhos são "animais de estimação". Há quem os apaparique e com eles conviva entre dois golos de cerveja e um cigarro enquanto na televisão um anormal qualquer vende carros aos peidos. E os cabrões a semearem esferas de composto pelo cómodos da habitação. É a laparagem em vias de alcançar o patamar evolutivo de canídeos e felinos, é o que é.
Mas apesar de tudo, o mais extraordinário é a metamorfose por que atravessam certos e determinados mamíferos desta terra quando abrem a porta da frente do lado esquerdo das suas viaturas e se passam lá para dentro fechando a porta em seguida. Assim que o fazem, das duas uma: ou se convencem que ficam invisíveis, ou se persuadem em definitivo que entraram numa latrina, entregando-se às mais variadas actividades que o senso comum impede de fazer em público.
Enquanto os machos desta espécie de mamíferos automobilizados se dedica à prospecção geológica das suas próprias fossas nasais, com uma dedicação, intensidade e virtuosismo tais que acabam por conseguir extrair pedaços dos próprios cérebros que depois fitam com uma curiosidade infantil, as fêmeas optam pela make up, exibindo toda uma variada gama de expressões e esticanços da derme facial enquanto finalizam os acabamentos: rimmel, bâton, base, pó-de-arroz, etc, etc, etc., que, em última análise e como o próprio nome indica, tem como objectivo fazer subir algo.
Mas é com as referidas viaturas em movimento que se operam as transformações mais extraordinárias. O pálido, pacífico, anónimo, incompetente e excedentário funcionário público assume posturas de patrão impiedoso, esbracejando e gesticulando com o frenesim próprio de um primata em marcação de território. O facies distorcido por um incomensurável ódio furibundo espelha uma guerra total, de vida ou de morte, entre ele próprio e o resto do mundo, que se resume a literalmente tudo o que se encontra no exterior da caixa de lata em que se desloca. Relva e pássaros incluídos. O volante, por exemplo, deixa de servir para a execução de manobras de mudança de direcção para se tornar num misto de balcão de bar onde apoia as patas roliças e papudas e um par de rédeas com as quais opera de surpresa súbitas guinadas ora para a esquerda ora para a direita, qual Messala alucinado quadrigando-se contra uma chusma de Ben-Hurs no Coliseu de Roma.
Os pequenos farolins de cor amarelada ou laranja, os chamados pisca-pisca que, quando utilizados com calma e oportunidade, emitem uma luz intermitente com o objectivo de comunicar o sentido de uma mudança de direcção que se avizinha, são coisa de paneleiros: " Um gajo vira quando quer, olha o caralho, e quer que se foda".
A Sancha é da opinião que os besuntas automobilizados o que querem é poupar os piscas para os usarem nas árvores de Natal. Talvez.
Conheço um tipo que um dia, num cruzamento qualquer em Lisboa e prestes a ser cilindrado por um besunta destes, estacou o carro, saiu e dirigiu-se em passos rápidos à guarita do alarve que o ia abalroando. Num tom ríspido e autoritário que não admitia contestação berrou: " A carta!" . O besunta, persuadido de que se encontrava perante uma autoridade, de pronto lha apresentou. O tipo abriu a carta (nesse tempo era um desdobrável em cartolina cor de rosa), confirmou que a fotografia era a do assassino que quase o rebentara, voltou a fechá-la e rasgou-a em quatro devolvendo-a em seguida. Diz ele que jamais se esqueceu da expressão do outro, imóvel no cruzamento enquanto ele arrancava rindo à gargalhada.
segunda-feira, junho 20, 2005
Meteoropirologia
Este serviço, pasme-se, é fornecido pelo Instituto Nacional de Meteorologia.
Como a canícula ou os nevões, os incêndios passaram a ser um fenómeno meteorológico natural previsível e sazonal.
quarta-feira, junho 15, 2005
Coincidência ou não, eis que se calam as cortesãs ofendidas aquando do último dia de luto nacional: o dia do funeral da Irmã Lúcia.
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Sai de cena quem não é de cena, diz mecânicamente sorrindo António Guterres quando questionado sobre a sua saída de líder da Internacional Socialista. Provávelmente a frase que ele mais ouviu na última campanha eleitoral em Portugal.
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Boato 1 : Por exclusão de partes à esquerda, Mário Soares vai-se candidatar a Presidente da República.
Boato 2 : Por reflexo, Freitas do Amaral candidata-se também.
Boato 3 : Por fastio, Mário Soares desiste da sua candidatura a Belém.
Boato 4 : Por arrastão, Nino Vieira aparece na corrida.
segunda-feira, junho 13, 2005
Razoávelmente improvável
domingo, junho 12, 2005
Post mortem
sexta-feira, junho 10, 2005
quinta-feira, junho 09, 2005
Verão quente de 2005
2. Por causa disso António Vitorino irritou-se, percebendo que jamais será candidato às presidenciais de 2006.
3. Sócrates manobra à direita recorrendo a medidas drásticas para a redução da despesa pública. Os deputados republicanos do PS não gostaram. Ao ponto de alguns deles estarem dispostos a pôr os lugares à disposição.
4. O reconhecimento da inevitabilidade sazonal dos incêndios comprova em definitivo o que se suspeitava há muito: que os fogos em Portugal dão de comer a muita gente.
5. Segundo a Única da semana passada, prevê-se uma mudança radical nas cores da bandeira nacional, nomeadamente a substituição do verde/vermelho pelo azul, obedecendo assim ao princípio universal que estipula uma mudança de logo quando se quer melhorar a performance de uma marca no mercado...
quarta-feira, junho 08, 2005
Mais do mesmo, servido a quente
Em Agosto de 2004, a revista Grande Reportagem publicou um excelente trabalho de Pedro Almeida Vieira sobre as diferenças de abordagem do problema dos incêndios em Espanha e em Portugal. Num post de 30 de Dezembro de 2004 reproduzi, na íntegra, o texto desse trabalho.
Dar a conhecer essa diferença de abordagens de um mesmo problema grave é importante.
Uma coisa é o poder republicano convencer as suas hostes que, pobres coitadas jamais conheceram outra realidade, todo o trabalho possível está a ser feito, que os investimentos na prevenção e combate aos incêndios são muitos e por demais evidentes, e que a crise económica que Portugal agora atravessa não dá para mais.
Outra coisa é as hostes cá do reino terem acesso a informação que lhes mostre e prove, por a + b , que o regime republicano mente com quantos dentes tem nas fauces, interessado como está em perpetuar um status quo que favorece a especulação imobiliária e a degradação gradual e permanente de um património que é de todos inviabilizando uma qualidade de vida a que todos temos direito.
Agora a sério. Encham-se de paciência e leiam o trabalho de investigação que o Pedro Almeida Vieira levou a cabo na Andaluzia "(...) território com uma dimensão geográfica idêntica à de Portugal Continental e com uma área florestal de cerca de 4,3 milhões de hectares, há mais de uma década que os incêndios deixaram de ser uma fatalidade. Entre 1995 e 2003, por exemplo, a Andaluzia perdeu menos floresta e mato do que Portugal em 24h de alguns dias de Agosto do ano passado. (...)
Contra factos não há argumentos.
segunda-feira, junho 06, 2005
Viva a República...
Ah, carago. Houvesse Rei nesta terra e esse carroceiro era corrido à bofetada.
sexta-feira, junho 03, 2005
A caminho de Olivença
Atente-se no entanto no seguinte: independentemente do sucesso ou insucesso de semelhante missão reconheça-se, e de uma vez por todas, que o Dragoscópio é do melhor que orbita a blogosfera cá do Reino.
quarta-feira, junho 01, 2005
Referendo
Por cá, a pouco e pouco, a inteligentsia do Reino vai-se sentindo atraída pelo Não, essa aposta em coisa nenhuma, opção niilista, redutora e terminal. Mas se n Nãos ganharem, o que está feito continua feito; o Tratado de Nice manter-se-á em vigor, as decisões que afectarão cada membro da União continuarão a ser tomadas. Só que tudo isso mais lentamente. Com a velocidade a que a China e a Índia se preparam para tomar de assalto a economia mundial, essa lentidão de reflexos, que se prevê europeia, não augura nada de bom; nunca há nada de bom do lado do Dr. Louçã e do lado do Sr. Le Pen. Ainda por cima quando ambos estão do mesmo lado. Só mais uma coisa: acreditem que a China jamais estará disposta a continuar a pagar tão caro o petróleo de que necessita para cilindrar económicamente o Ocidente. Mal acabem os Olímpicos de 2008, barriquem-se.
Post Scriptum: A verdadeira razão do Não francês e Holandês é esta: Ma$$a. Os gajos já deram para o peditório dos pobres do Sul, e não querem continuar a dar para o peditório dos pobres do Leste. O resto é retórica.
segunda-feira, maio 30, 2005
Segunda, a seguir ao almoço
Provérbio Capadócio:
"Os franceses às vezes têm medo dos chineses"
Provável tradução Google:
"Les françois aux fois ont peur des chinois"
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A propósito de rimas parvas e outras coisas, lembrei-me de uma história passada com o cretino do meu irmão Jaime, quando andávamos na 3ª classe. Eu com oito anos, ele com onze.
A certa altura a professora de Língua Portuguesa sugeriu que a aula inventasse uma rima; cada um deveria pensar numa rima, escrevê-la no caderno de rascunho e passá-la a limpo com caneta de tinta permanente para o caderno de Língua Portuguesa. Vinte minutos depois a professora de Língua Portuguesa pedia ao Abel, que era sempre o primeiro a responder a tudo dado que o nome dele começava por Ab, tipo matrícula de carro dos anos 30, que lesse em voz alta a rima que escrevera. E o Abel leu:
- O passarinho dorme no ninho.-
- Muito bem, Abel.- condescendeu a professora sorrindo. - Agora tu.- disse, apontando com uma unha encarnada para o Carlos, à minha direita.
- O gato está no sapato.- leu devagar o Carlos enquanto corava e se levantava.
- Bravo!- soltou a professora de Língua Portuguesa. - Agora tu, Jaime.
A aula inteira, éramos sete, voltou-se em simultâneo para o fundo da sala. O Jaime levantou-se e ouviu-se:
- O canguru tem pêlos no cú.- Silêncio. Um silêncio breve e ensurdecedor atafulhou a sala enquanto 13 olhos se cravavam na professora. O Carlos usava óculos e tinha uma daquelas merdas côr de pele a tapar uma lente por dentro para endireitar a vista.
- Jaime! Francamente! Vais lá para fora escrever uma rima. Uma não, duas. Duas rimas como deve de ser e voltas aqui antes de acabar a aula. E ai de ti que voltes a entrar sem teres feito o que te mandei.- O meu irmão reuniu os cadernos e o estojo, levantou-se, saiu da sala devagar e fechou a porta devagarinho.
Minutos depois batia à porta e entrava com ar triunfante. Eu já sabia que aquela expressão desvairada na cara dele só podia significar uma coisa.
- Já acabaste ? - inquiriu a Professora com surpresa.
- Já. Posso ler?- respondeu o Jaime. A professora anuiu e o meu irmão leu:
- O canguru tem pêlos na bochecha, porque no cú a Professora não deixa.






