sexta-feira, setembro 09, 2005

Sócrates by ACME


Afinal aconteceu! A discrepância de tempo entre o movimento do 1º Ministro a accionar o detonador e a implosão das torres de Tróia foi realidade. Soube-o aqui em primeira mão e confirmei-o em seguida aqui.
A associação imediata que senti ao ver a preparação da coisa e os funestos resultados dos ACME supplies nos gags do beep-beep e do coyote ganhou os contornos de uma verosimilhança indesmentível.
Uma vez que não passou tudo de uma grandessissima treta, presume-se que a simulação poderia ter sido feita de mil maneiras imagináveis (*) . Ou seja, barrete por barrete, Sócrates poderia ter

1. Soprado as velas de um bolo de anos.
2. Dado um salto pró ar.
3. Arreado um estalo na fronha do Belmiro.
4. Exibido um monumental manguito em directo.
5. Tapado a cara.
6. Osculado efusiva e repenicadamente as emaciadas faces de Belmiro.
7. Soltado uma sinistra gargalhada.
8. Saltado para o colo do ex-Presidente da República, general Ramalho Eanes. (**)

no preciso instante em que as torres implodiam.

Ou seja, poderia ter associado ao acto da implosão das torres uma qualquer actividade lúdica momentânea, um gesto inesperado e prenhe de significados ocultos que servisse de pasto
às bestas pactuantes da nossa imprensa e comunicação social, sempre carentes de actos simbólicos onde possam dar largas às suas necessidades locubrativas, especulativas, adivinhas de conspirações maquiavélicas secretas. Mas não. Preferiu, deliberadamente, tentar enganar as gentes do país que se comprometeu governar. Saiu-lhe o tiro pela culatra. Sócrates e os pactuantes "profissionais" da comunicação social indígena revelaram-se autênticos produtos ACME. Que se exportem de imediato, ouso sugerir, e de preferência para o feudo de George W., ele próprio grande apreciador de perús de plástico.

(*) Aceitam-se sugestões por parte de eventuais leitores.
(**) Continuam-se a aceitar sugestões por parte de eventuais leitores.

"Candidatura de ex-PR preocupa tartarugas das Seychelles"

Da edição de hoje do jornal Público, destaque para o seguinte artigo do suplemento Inimigo Público, com o título supra, da autoria de RC. Link indisponível.

«A candidatura de Mário Soares às próximas eleições presidenciais está a perturbar o modo de vida habitualmente pacato das tartarugas gigantes das Ilhas Seychelles. De acordo com Francis Pierre, biólogo responsável pela conservação das tartarugas do atol de Aldabra, "os animais têm-se mostrado nervosos e irritadiços desde o anúncio da candidatura, e pensamos que possa haver uma ligação. É preciso encontrar uma solução antes que seja tarde demais. Uma tartaruga irritada é uma visão aterradora". Recorde-se que Soares visitou as Seychelles enquanto Presidente da República numa das mais inusitadas visitas presidenciais da história, só comparável à visita de Américo Tomás e de uma comitiva de 36 pessoas a um urinol público de Coimbra em 1967. Durante a visita, da qual resultaram importantes tratados bilaterias relativos à poda de palmeiras e ao cultivo de areia da praia, o então presidente sentou-se na carapaça de uma tartaruga, que morreu pouco tempo depois vítima de depressão profunda.»
Play back
Ontem, na transmissão directa da implosão das torres de Tróia, pareceu-me ver um ligeiro desfasamento entre a 1ª explosão e o accionamento do detonador por parte do 1º Ministro.
Se calhar foi só impressão minha. Coisas da idade, é o que é.

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republicanices...
Permanece um mistério o estado de saúde do Presidente da República francesa. Pelos vistos, para a forma de regime republicano, até a "sucessão" faz parte do problema e não da solução.

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O síndroma do Outão (*)
O problema da má ou boa qualidade do serviço de self-service da cafetaria do aeroporto de Lisboa deixou de existir: não tem qualidade. Nem boa, nem má.

(*) Enquanto Ministro do Ambiente, José Sócrates resolveu o problema da pedreira a céu aberto instalada em plena área protegida da Serra da Arrábida desafectando-a do Parque Natural da Serra da Arrábida.

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Sondagens
A diferença percentual das intenções de voto entre Cavaco e Soares só são tranquilizantes para Soares.

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Muito Bom negócio
Foi o que conseguiu George W ao conseguir ser re-eleito presidente dos EUA. Para ele, bem entendido.

terça-feira, setembro 06, 2005

A referência

(...) Não tivesse nascido D. Afonso Henriques e não haveria qualquer "factor democrático" capaz de nos desancorar da meseta. Foi à vontade de poder desse homem que nascemos. Agora, como em tudo, é impossível voltar atrás. Seguimos em frente, ganhámos consciência, desenvolvemos uma língua prodigiosa e belíssima que emparceira com as maiores do planeta.(...)

de Miguel Castelo-Branco em Combustões

Salada de polvo

Segundo Joaquim Vieira, director da Grande Reportagem, «(...) com Soares, já não há moral para criticar Ferreira Torres, Isaltino, Valentim ou Felgueiras (...)».
Num texto intitulado O Polvo (1) inserido na rubrica "Os passos em volta", publicado no Nº 243 da GR de 3/9/2005, Vieira socorre-se do conteúdo do livro Contos Proibidos - Memórias De Um PS Desconhecido da autoria de Rui Mateus e publicado no fim do 2º mandato presidencial de Mário Soares para referir que após ganhar as presidenciais em 1986, Soares e um grupo de amigos políticos fundou um grupo empresarial destinado a usar os fundos remanescentes da campanha, canalizando fundos monetários com o objectivo de financiar a sua re-eleição. Soares terá ainda colocado amigos seus como testas de ferro, não podendo presidir ao grupo por razões óbvias. No exercício das suas funções como presidente da República, terá convocado «...alguns magnatas internacionais tais como Rupert Murdoch, Silvio Berlusconi, Robert Maxwell e Stanley Ho para o visitarem na Presidência da República e se associarem ao grupo a troco de avultadas quantias que pagariam para facilitação dos seus investimentos em Portugal...»
Ainda segundo Vieira, pela relevância do tema, ficará para próximo desenvolvimento.
Presume-se que o Polvo venha a ser o prato forte das presidenciais 2006.

segunda-feira, setembro 05, 2005

5 de Setembro

Alguém acredita que Jerónimo de Sousa tenha a mais tangencial possibilidade de ganhar as eleições presidenciais em 2006 ? Alguém acredita que Francisco Louçã possa vir a ser o futuro presidente da república? Então ? Está tudo a dormir ou quê ?

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O vómito : A SIC Notícias autopromovendo-se à custa das imagens de New Orleans submersa.


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É natural que Sócrates, à semelhança do binómio votos vs. SCUT sem portagens nas legislativas, venha a baixar o IVA para ganhar votos para Soares. Preparem-se.

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Os descendentes do povo rural povoam as praias, as cidades, o litoral, os centros comerciais.
Sem referências, sem valores, com vergonha dos seus antepassados, vivem aterrorizados com a possibilidade de serem confundidos com os saloios que tanto abominam, que tanto desprezam.
Por isso se prostituem por ideais de plástico, por telemóveis 3G, por roupas de marca já que, pensam eles, o nome que têm não vale dois peidos.

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O peregrino olha deslumbrado a Basílica de S. Pedro. Um mar de gente espraia-se a perder de vista. O peregrino sorri. Uma vozinha que mal se ouve insiste: "Qual é coisa qual é ela, que é branca e vai à janela".

sexta-feira, setembro 02, 2005

Colocação de professores

De acordo com as últimas notícias referentes à colocação de professores, generalizam-se as queixas relativamente às colocações longe das áreas de residência.
Por este motivo, a protecção civil pede que se divulguem os seguintes procedimentos:
No caso altamente provável de se deparar com um professor colocado repentinamente na sala, cozinha ou outra dependência da sua casa, a qualquer hora do dia ou da noite, não entre em pânico. Ofereça-lhe um copo de água fresca enquanto lhe sugere com firmeza suave que se sente.
Telefone para o 112 e diga que está a ser assaltado por um toxicodependente armado com uma seringa de repetição. Se disser que lhe colocaram um professor em casa, provavelmente não acreditarão.
Calmamente dirija-se para a porta da rua, saia e feche a porta à chave.

terça-feira, agosto 30, 2005

Combate aos incêndios


Segundo o especialista chileno Carlos Weber Bonte,

"Gasta-se demasiada água a combater os fogos em Portugal quando a aposta devia ser na utilização de ferramentas que destruam o combustível que faz propagar as chamas". O que, diga-se de passagem, é redobradamente custoso em ano de seca: desperdiçar tantos milhares de litros de água no meio dos fogos enquanto o gado morre à fome e à sede.

No entanto, houve quem já tivesse percebido isso há algum tempo; parece que aqui ao lado, na Andaluzia, o problema já foi resolvido. O ano passado? Não. Há mais de doze anos.


(...) Entre 1995 e 2003, por exemplo, a Andaluzia perdeu menos floresta e mato do que Portugal em 24h de alguns dias de Agosto do ano passado. (...) (*)

(*) Excerto do trabalho da autoria de Pedro Almeida Vieira publicado na Grande Reportagem de 24 de agosto de 2004 .



O zurzido do Dragão

Todos, quase todos pois que, aconselharam-nos, há que salvaguardar vetustas minorias para tempos de míngua e pouca fé, sabem do zunir da melga, do zumbir da mosca. Pois aqui vos chamo para escutardes e, quiçá, se puderdes, pordes vossos lombos para lá do desabrigo. Deixo-vos com o zurzir do Dragão. Mas como e em quem zurzirá o Dragão ? perguntais vós, ansiosas criaturas. Pois que "É gente rústica, cerdosa, se bem que armada de espaventoso pingarelho" o alvo do seu zurzir.
E ele zurze que zurze, que se farta e se faz tarde.

domingo, agosto 28, 2005

O Bar

Versão minimal:

Acabara o último cigarro há um quarto de hora. Lembrara-se na altura que tinha que comprar mais. Sem pensar, pegou no maço vazio e procurou lá dentro um cigarro.
Não havia nem um.
- Querida, disse, vou lá abaixo num instantinho comprar cigarros e volto já.
Até hoje, nunca mais apareceu.

Versão completa:

Acabara o último cigarro há um quarto de hora. Lembrara-se na altura que tinha que comprar mais. Sem pensar, pegou no maço vazio e procurou lá dentro um cigarro.
Não havia nem um.
- Querida, disse, vou lá abaixo num instantinho comprar cigarros e volto já.
Abriu a porta e desceu os 17 degraus a correr e de seguida. Chegado ao café, desilusão. Já estava fechado.
- Lá ao fundo desta rua, à sua direita, há um bar que ainda deve de estar aberto. – retorquiu o dono do café à sua pergunta enquanto fechava a porta.
A noite estava fria e ele estava com pressa. Dirigiu-se na direcção indicada a passo rápido. Quando chegou ao bar, entrou e apeteceu-lhe um trago de qualquer coisa forte e que aquecesse. Chegou-se ao balcão, e sentou-se ao lado de uma loira que falava ao telemóvel.
- Um Cutty Sark só com gelo, por favor. – Enquanto o empregado lhe servia o whisky pediu dois maços de cigarros.
A loira acabara o telefonema e fizera dos seus gestos e da sua cara o alvo da sua atenção nos segundos seguintes. De seguida abriu a carteira, retirando dela um estreito maço de Slims e, enquanto se voltava para ele cruzando as pernas, pediu-lhe, com voz rouca, semicerrando os olhos:

- Do you have a light? –
Meteu a mão no bolso direito das calças e retirou um pequeno isqueiro Bic. Enquanto lhe acendia o cigarro, olhou a cara dela com atenção e sorriu.
- Obrigada.
Não o tenho visto por aqui. – disse ela com ar casual enquanto expirava o fumo e guardava na carteira o estreito maço de Slims.
Palavra puxa palavra e meia hora depois estavam os dois em casa dela.
Algum tempo depois, ele olhou para o relógio que trazia no pulso esquerdo e disse:
- Meu Deus, distrai-me completamente... a minha mulher vai-me matar!
A loira sorgueu as sobrancelhas enquanto, distraidamente, apertava o roupão.
- A menos que... tens por acaso pó de talco ?- perguntou-lhe
- Pó de talco?- inquiriu a loira soerguendo ainda mais as sobrancelhas,
- A-acho que sim. Porquê?-
- Vai-mo buscar, por favor. Rápido.-
A loira desapareceu e voltou calmamente segundos depois segurando uma embalagem de talco Johnson´s com que ele polvilhou um pouco as palmas das mãos, esfregando-as uma na outra de seguida.

Regressado a casa, muito devagarinho introduziu a chave na porta e abriu-a silenciosamente.
A luz e o som provenientes da sala prenunciavam a tempestade que, dali a nada, iria desabar. Estava f-o-d-i-d-o. Entrou na sala pé ante pé e perguntou-lhe, por entre os flashes da TV Shop e os do olhar dardejante dela:
- Querida, ainda está a pé? Mas é tardíssimo.-
- Tu tens cá um descaramento...Francamente! Onde é que estiveste até agora?
- Mas é que tu nem sabes o que me aconteceu.
- Ah pois não. E estou mortinha por saber. Ora vamos lá a ouvir a história que inventaste desta vez. Desembucha!
- Estou-te a dizer! Fui lá abaixo ao café para comprar cigarros como te disse antes de sair, só que o café estava fechado. Disseram-me que ao fundo da rua havia um bar que costumava ficar aberto até tarde e fui até lá. Acabei por conhecer uma rapariga loira muito simpática e fomos até casa dela beber um copo. Palavra puxa palavra e....
- Tu tens é uma grandessissima lata. Mostra-me as tuas mãos imediatamente. Ah-ha! Com que então uma loira hein?! Mas tu pensas que me enganas, meu sacana? Tu estiveste foi outra vez no bowling com os cabrões dos teus amigos!

sábado, agosto 27, 2005

Ignorância "Encartada"

A História ensina-nos que no dia 14 de Agosto de 1385 se deu a batalha de Aljubarrota, na qual as forças de Portugal, em minoria absoluta, infligiram pesadíssima derrota às tropas de Castela.
Após a vitória e cumprindo uma promessa que fizera, Dom João I, Mestre de Aviz, mandou então edificar o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, mais conhecido por Mosteiro da Batalha.

No entanto, segundo o Expresso, a última edição da enciclopédia digital Encarta da Microsoft atribui a construção do referido Mosteiro de Santa Maria da Vitória respectivamente a Dom João I de... Castela e a sua propriedade aos castelhanos! Segundo a Encarta, a sua construção teria sido iniciada em 1388, e «O mosteiro, igreja e capela octogonal são exemplos extraordinários da arquitectura gótica espanhola».
Qualquer dia ainda se lembram de atribuir a autoria da casa Milá, em Barcelona, a Siza Vieira.

sexta-feira, agosto 26, 2005

Retórica republicana

Em Portugal quando há desgoverno a culpa é dos "ricos". Desde que a república se arvorou em libertadora e equalizadora dos portugueses, pretendendo libertá-los do jugo opressor dos proprietários, renovando os votos disso pela última vez há trinta e um anos atrás, que é genéricamente bem aceite a descarga das culpas em cima das vítimas. Ao ameaçar os proprietários florestais com a aplicação de medidas coercivas, na linha das obras coercivas a serem executadas em prédios urbanos alugados há dezenas de anos por meia dúzia de euros, acorrentados a contratos de arrendamento ridículos, o presidente da república opta, em fim de mandato, por uma retórica populista e demagógica própria de uma república terceiro mundista, a braços com problemas graves de corrupção e traficância vária.
As consequências do laxismo irresponsável do Estado em Portugal é sempre pago pelos que por ele são mais prejudicados. Para se fazer ouvir, para se fazer respeitar, para ser levado a sério, qualquer Estado tem que dar o exemplo daquilo que entende ser o que deve ser feito.
Não é o caso em Portugal: em três anos a Tapada de Mafra, por exemplo, ardeu por duas vezes, a primeira das quais destruindo mais de 50% do seu património. Não consta que tenham sido aplicadas quaisquer medidas coercivas. Nem de qualquer outro tipo. Até hoje.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Presidenciais 2006

Afinal o candidato do PCP é Jerónimo de Sousa. Não sei quem, não sei quando, referiu que poderia ser uma mulher.
Que se calhar seria uma mulher. Quem ? O Jerónimo de Sousa ? Não. O candidato do PCP.

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O Sr. Aníbal Silva já tomou uma decisão: manter a indecisão até Outubro.

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O Sr. Alberto Lopes também já tomou uma decisão: anunciar a sua decisão dia 31 deste mês.

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Falta alguém ? Ah! o Sr. Fernando Rosas. Este ainda não anunciou coisa nenhuma. Não consta, por isso, que tenha tomado alguma decisão.

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P.S. - O facto do Sr. Alberto Lopes anunciar que só se candidata para preencher um vazio à esquerda significa, obrigatóriamente, que o Sr. Manuel Alegre é oco ?

quarta-feira, agosto 24, 2005

Parabéns à Lolita e ao Besugo!

Pelo dia 24 de Agosto de 2003, dia em que nasceu o Blogame mucho!

Encontrões imediatos do 3º degrau

O autor do blog A Barriga de um Arquitecto , paragem que muitas vezes escolho durante as minhas deambulações pelos blogs do reino, pegou num comentário meu a um post que escrevera intitulado Por amor de Deus no qual ele tecia considerações, mais ou menos politicamente correctas, sobre criacionismo e evolucionismo, recortou-o e destacou um trecho que pespegou à laia de introdução de um texto seu com 61 linhas intitulado O centro do mundo.
Um verdadeiro tratado.
Presumo que tanta atenção tenha sido a razão para o disparo alucinante de visitas aqui ao terreiro nos últimos três dias.

Foto: Supernova Remnant N 63A Menagerie, daqui.


Assim sendo retribuo a sua atenção com este post, devidamente equipado e artilhado em conformidade com imagem, links, linques, itálicos, bolds e o camandro, no qual transcrevo o comentário que lá lhe deixei sobre aquilo que escreveu.

Caro Daniel Carrapa,

1.«É compreensível que alguns achem discutível o facto de que somos descendentes dos macacos. Suponho que essas pessoas nunca tenham visto o “Fiel ou Infiel” na TVI.» Esta frase é sua. Presumo que inclua no grupo a chusma de primatóides que se baba e delicia com semelhantes programas de TV.

2."Esta gente..." como você se refere a determinadas pessoas que não pensam como você, nem como eu, é uma forma de discurso há muito adoptado pelos escravos do pensamento único. Neste pequeno planeta, como você diz, tem que haver espaço para outras opiniões que não a sua. Ou a minha.

3. Que Darwin tenha demonstrado com sucesso que os ingleses descendem dos macacos, não me obriga a mim nem a ninguém a deixar de questionar, com isenção, espírito crítico e sem aceitar nada como "garantido", qual a verdadeira origem da Humanidade. Talvez aí, meu caro, ao descobrir-se a verdadeira origem do Humanidade se vislumbre uma réstea de esperança sobre a previsão do seu destino, como dizia Carl Sagan. Nesta Terra ou noutra qualquer.

Cumprimentos

Estrago da Nação

É o nome do blog de Pedro Almeida Vieira, autor deste texto que, teimosamente, tenho vindo a divulgar na blogosfera desde final do ano passado.
Descobri-o ontem, através deste post no Nova Floresta.
Bem haja.

terça-feira, agosto 23, 2005

Actos Políticos I

Nos últimos tempos, a interrupção das férias tornou-se o acto político por excelência. O acto de entrar em férias, aliás, passou a ter todo um outro significado a partir do momento em que a classe política descobriu o potencial de merchandising directamente relacionado com essoutro acto sublime, de altruismo incondicional e nobre amor à pátria que consiste em Interromper as Férias.
A própria sonoridade da expressão, aliás, tem um je ne sait quoi de pré-parto, relação vaga com o romper das águas. A classe política passou a encarar o acto de partir para férias, tão caro, quiçá sagrado, para a generalidade de todos nós, portugueses, como uma antecâmara de estadia provisória ou preparação iniciática para a entrada triunfal em todo um outro iluminado estado de consciência, prenhe de tiques de liderança e impulsos de auto-sacrifício que é revelado precisamente no acto de interromper essas mesmas férias.
O arranque para esta nova abordagem terá partido do próprio Mário Soares, no dia do seu aniversário, ao anunciar públicamente a sua retirada da vida política activa vociferando um rotundo e ensurdecedor Basta!, dado não se sentir com fôlego suficiente para apagar as oitenta e três velas do seu bolo de aniversário. (Diz-se à boca pequena, nos soturnos e sombrios corredores do poder, que alguém da facção Socrática terá acrescentado mais uma vela ao bolo sem saber que outra facção, a de Alegre, já teria acrescentado outras duas velas por seu lado. Só para chatear.)
Eis que poucos meses decorridos interrompe o seu afastamento da vida política activa, leia-se férias, para se apresentar como O Candidato presidencial da esquerda unida.
No entanto, curiosamente, a utilização e manuseamento deste novo potencial denominado Interromper as Férias, não é encarado unânimemente por todos os intervenientes. Há, por exemplo, quem encontre mais força na mensagem contida na opção de Não Interromper as Férias do que no acto sublime de interrompê-las. José Sócrates concluiu que o Acto Político mais forte, com mais potencial de merchandising, seria providenciar para que o cargo de 1º Ministro fosse exercido por António Costa durante o período dos incêndios em Portugal, visto ter preferido não interromper as suas férias.
Já Jorge Sampaio não.
O presidente da república optou claramente pelo auto sacrifício ao interromper as suas férias para melhor se inteirar, in loco, dos arrasadores resultados provocados pelos incêndios na mancha verde do território nacional, já que os seu dez anos/dez verões de Portugal ardendo foram insuficientes para que, como Chefe de Estado que foi e é, diligenciasse tomar medidas definitivas para acabar com esta tragédia.
Até o próprio presidente da Comissão Europeia, a passar o fim das suas férias no norte do país, não hesitou em interromper as suas férias, fazendo questão inclusive em mencioná-lo, para assim poder dar um pulinho ao incêndio mediáticamente mais relevante e geográficamente mais próximo onde, subliminarmente, assinalou a importância de se ter um dos nossos no poder europeu para que a ajuda internacional no combate aos fogos nacionais se processe com rapidez.

segunda-feira, agosto 22, 2005

Faz hoje um mês

O Movimento 560 tem como objectivo promover a compra de produtos portugueses por portugueses. Para isso "descodificou" o código de barras concluindo que são de origem portuguesa ou distribuídos por Portugal todos os produtos que tenham associados ao código de barras um número começado por 560. Descobri isto ao ler este post d'O Sexo dos Anjos.
Mas o melhor é irem até .

Bombardeiros de água

Plenamente convencido da generosidade europeia, da sua capacidade inesgotável em repetir os mesmos erros e perdoar os dos países membros prevaricadores, o ministro da Administração Interna de Portugal sugere a construção de um bombardeiro de água europeu, custeado pelos contribuintes europeus, para apagar os fogos europeus. Leia-se fogos portugueses, uma vez que os restantes países europeus têm o problema dos incêndios em adiantado estado de resolução.

sexta-feira, agosto 19, 2005

De partida

Eis a última foto conhecida de Pedro Lomba, Pedro Mexia e Francisco José Viegas precisamente quando começavam a ser tele transportados, beamed up, as they say, de Fora do Mundo para um outro planeta qualquer da blogáctica.
Prova irrefutável desta partida é, igualmente, o fim do Aviz.
- Hasta la pasta!- said the bishop to the actress.

quinta-feira, agosto 18, 2005

Parabéns

Ao Eclético e ao A Causa Foi Modificada, pelos dois anos de travessia nos vastíssimos e surpreendentes oceanos da blogos. Que o diga o maradona (com minúscula) após recente pesquisa no Google Images.

terça-feira, agosto 16, 2005

Reformas

Face à iminência de falência total do regime partidocrático republicano, surge a ideia peregrina do PS de avançar com uma proposta que visa a criação de círculos eleitorais uninominais. Sendo a melhor forma de abortar processos de reformas em Portugal controlar o processo do seu desenvolvimento desde o início, do seu anúncio à sua concretização, esta iniciativa é contranatura por partir dos que se auto reclamam herdeiros do republicanismo puro e duro de 1910, este sim, responsável pela extinção dos círculos uninominais criados na 2ª metade do século XIX, no tempo em que o General António Maria Fontes Pereira de Melo era Ministro da Fazenda.
Esta ideia do PS é tão contranatura como, nos anos 80, a criação do Partido Ecologista "Os Verdes" pelo PCP, filiado da URSS onde na altura agonizava um regime que fez da indústria extractiva e transformadora o baluarte de um desenvolvimento a todo o preço que tinha tanto de ecologia como água tem o deserto. Ao criar essa melancia chamada PEV, o PCP retirou espaço de manobra a qualquer outro tipo de grupo ou associação que, emergindo, se reclamasse da ecologia procurando afirmar-se no espectro político de então.
Só o PPM já moribundo na altura se reclamava, e bem, como partido ecologista.

Controlando o processo da criação de círculos uninominais, o PS tudo fará para que as regalias e benesses conseguidas para a nomenklatura partidocrática em pouco ou nada sejam atingidas, puxando para uma regionalização que, embora negada em referendo, se avizinha cada vez mais como reforma inevitável. Um dos argumentos que se farão ouvir na rentrée será o da falência do actual regime de ordenamento do território (leia-se RAN e REN) "provada à saciedade pela calamidade anual dos incêndios", dirão.
A criação dos círculos uninominais mais não será do que a redacção legislativa das regras da regionalização que se avizinha.

segunda-feira, agosto 15, 2005

Histórias de encantar V

Era uma vez um cego que tinha um cão.
O cego ia a vários sítios na cidade com o cão. Um dia chegou ao lado de cá da Av. da Liberdade que é o lado do S. Jorge e do Odéon. Resolveu ali e então que era altura de atravessar para o outro lado.
Aproximou-se da beira do passeio com o cão pela trela. Percebeu pelo som dos carros a abrandar e pelo disparar do sinal sonoro que era altura de atravessar. Deu um passo e estacou. O cão permanecia quedo, imóvel. O cego puxou pela trela, puxou, puxou e o cão nada. Assim que a cor do semáforo mudou para verde os carros arrancaram e o cão idem, arrastando o cego aflito para o meio do trânsito enquanto se faziam ouvir buzinas, chiar de pneus e impropérios. Chegados ao pimenteiro e saleiro a meio da avenida o cão estacou. Os carros também. De novo se ouviu o sinal sonoro indicando ser o momento seguro para a travessia do resto da avenida. E o cego puxou o cão e o cão nada. Imóvel, teimosamente parado. Nova mudança na cor dos semáforos e o cão relança o dono cego na alucinante travessia pelo meio do trânsito. Chegados finalmente ao outro lado, o cego parou e, trémulo, tirou um pacote de bolachas Maria de um saco de plástico azul cueca.
- Toma toma... - balbuciava o cego para o cão enquanto este, esticando a trela, tentava desesperadamente manter-se o mais afastado possível do dono. Um transeunte que passava e testemunhara a alucinante travessia e o obstruso comportamento do cão não se conseguiu conter de espanto e inquiriu o cego:
- Então o senhor vai dar bolachas a esse cão de um cabrão que quase o ia matando ?-
- Eu ? Nããã. Só quero saber onde está a cabeça do gajo para lhe dar um valente chuto nos tomates.

domingo, agosto 14, 2005

Tu também? (*)

Agosto à tarde. Esplanada em Lisboa. Pouco trânsito, ar quente, turistas.
- Então pá? Vais ver os U2 ?
- Quem ? Eu? -
- ... -
- Tás parvo ou quê? Eu não dou vinte contos para ir às putas e pagava quarenta para ver esses picolhos dum tinhoso?
- Eh eh. Pois.

(*) U2 = U too = You too?

sexta-feira, agosto 12, 2005

Desprezo II


«Os incêndios são preocupantes quando há pessoas e bens afectados, mas a situação não é de uma enorme gravidade do ponto de vista da conservação da natureza»

Humberto Rosa, secretário de estado do ambiente, referindo-se aos 15.500 Ha de área "protegida" ardida, no rescaldo dos incêndios deste ano.

Desprezo I

"...O Ministério dos Negócios Estrangeiros (...) não é uma agência de viagens..."

Resposta de Carneiro Jacinto, porta voz do MNE, dada hoje quando inquirido sobre que ajuda e diligências por parte dos serviços da Embaixada de Portugal em Londres podiam os portugueses retidos em Heathrow contar.


«As embaixadas e os consulados existem para dar aquilo que nós chamamos protecção consular às pessoas. Significa pessoas que estão com dificuldades, de saúde ou outras. Não significa que são para resolver problemas de pessoas que estão em turismo e ou em viagens de negócios e que apanham com uma greve pela frente»

Como na Tailândia após o tsunami de 24 de Dezembro de 2004. Certo?

quinta-feira, agosto 11, 2005

Doze de Agosto






A "época dos incêndios" está mais que a meio, quase perto do fim. Cento e vinte mil hectares ardidos depois, a discussão estéril, a recriminação desabafante, a co-irresponsabilidade total dos senhores do poder está bem patente no cinzeiro nacional, na desolação da paisagem, na desertificação resultante da chacina pueril a que foi submetida a floresta, a paisagem, a fauna natural, a alma de todos os portugueses.
O ministro António Costa, após se ter reunido com os vários "responsáveis" (esta coisa dos fogos é complexa, há que haver vários, senão mesmo muitos "responsáveis") pelos vários pelouros que dirigem nos diversos e variados "combates" que travam contra as "chamas". O mais tecnológico dos quais foi o do Bloco de Esquerda, apelando ao combate às chamas na origem, leia-se, na sua divulgação.
Medindo áreas ardidas com fita métrica, os senhores do poder da república chegaram à sossegantemente provisória cifra de 68 mil hectares ardidos. Mas a Europa (a que todos reclamam que Portugal pertence) mercê do recurso a meios tecnológicamente chocantes, incuindo o rastreio por satélite, chegou a uma cifra bem maior: 120 mil hectares ardidos. Até agora.
Não é culpa deste ou daquele partido.
É, isso sim, culpa do regime, porra.
A república está morta. E fede.
Se fede.
Real! Real! Por El-Rei de Portugal!

terça-feira, agosto 09, 2005

Lambada nas tasquinhas

Santos populares ainda duram na Figueira da Foz.

S. Pedro
e Nada envolvem-se em em cenas de pancadaria

O caso mais flagrante aconteceu no sábado à noite, quando o candidato do PS à Junta de Freguesia de Marinha das Ondas, Manuel Rodrigues Nada, foi visitar as tasquinhas da ExpoOndas, certame da localidade, encontrando o actual presidente da Junta e recandidato pelo PSD, São Pedro Almeida. Foi então que começaram os insultos e seguiram-se agressões físicas.

Futurologia II

Quando os pelouros da REN e da RAN, implementados pelos monárquicos a seguir ao 25 de Abril de 1974, cairem nas mãos dos autarcas que, assim, poderão "planear" a seu belprazer, definindo o que pode ou não ser área urbanizável, o que deve ou não ser protegido, os incêndios provavelmente diminuirão e a República terá conseguido mais um objectivo: a regionalização que não conseguiu com o referendo, obteve-a com o fogo.
Como em 1908: O que não conseguiram pela via democrática, conseguiram-no a tiro.

O Sol, o sal, a praia e outras merdas

- Rui Miguel chegas aqui imediatamente fazes o favor? - ruge a megera.

-...-

- Tu ouvistes o que te acabei de dizer Rui Miguel?-

-...-

(sssuoooshh sssuooosh sssuooosh (passos na areia))

(ZZZTRASSSHHH...(tonc) )

_ Para a próxima já sabes.-

- estúpida -

domingo, julho 31, 2005

O Template

- Vou mudar o template desta merda.
- Não faças isso. Já mudaste uma vez, lembras-te?
- E depois? Posso mudar de template as vezes que me apetecer.
- Então tiveste uma trabalheira enorme, perdeste uma data de links e não ganhaste nada com isso.
- Não quero saber. Vou mudar o template desta merda, foda-se.
- Não faças isso. A sério. Olha, come antes uma peça de fruta.

sábado, julho 30, 2005

O Papagaio

Quando mo ofereceram não cabia em mim de contente. Um papagaio verde, que falava. Antes que me fosse entregue, fui a correr comprar um poleiro próprio para papagaios na primeira loja de animais que encontrei: um T com uma corrente e dois recipientes em cada ponta do traço do T.
No primeiro dia, não dizia nada. "Olha que o gajo fala pelos cotovelos" garantira-me o casal meu amigo de partida para a Austrália. "E às vezes até diz um palavrãozito ou dois", gracejou a medo a Joana.
- Ah é? - respondi eu. Vindo de quem vinha, dificilmente imaginaria que as provocações em vernáculo da palradora ave fossem muito além de sonoros "ó louro dá cá o pé" ou então "olha lá ó paspalho!", ou, na mais escabrosa das hipóteses um "desolha, ó pintas!". Mal sabia eu.
É sempre ao terceiro dia que ocorrem fenómenos determinantes na existência humana.
Foi então que o papagaio resolveu dissertar em velocidade e variedade sobrepondo as mais alarves e inconcebíveis avaliações sobre anatomia humana com classificações multigeracionais
de género tipo e feitio sobre todo e qualquer transeunte que passasse.
O rol de impropérios incluia mimos do tipo "tens cá uma máquina de cagar!" e "pokeralhopókeralho...!croac!....dassse....!croac!...vaituókamelovaitu...!croac!" , etc.

Precipitei-me para a varanda e consegui arrancar o conjunto poleiro/papagaio para dentro da sala, entornando no acto sementes de girassol e água na alcatifa no exacto momento em que uma chusma de aleivosias eram cuspidas envolvendo as dimensões do aparelho genital do Sr. Barros, sapateiro aposentado, e a indiscrição da dona Lurdes, do lugar.. Olhei a ave fixamentemente no olho direito, era o que estava a olhar para mim na altura, reparei nas penas encrespadas no pescoço e mumurei-lhe em surdina entredentes : "Ouve uma coisa, ó meu grandessissimo papagaio dum cabrão. Se voltas a dizer um palavrão, caralho, UM PALAVRÃO que seja, garanto-te que te enfio no frigorífico durante uma semana.
"Tábémtábém !croac!" respondia desdenhoso. "OUVISTE???", berrei encostando os dentes semicerrados à fronha do pássaro. Ele disse que sim que sim que tinha ouvido.
Saí para trabalhar descansado. Quando voltei não queria acreditar. À entrada do prédio tinha um comité de recepção constituido por dois policias, a porteira do lado e o administrador do meu prédio. Duas freiras e um cauteleiro fechavam o conjunto. Resumindo:
Após a minha saída, o papagaio voltou à carga e despejou durante horas todo o tipo de impropérios possíveis e imaginários. As freiras, conduzindo um grupo de crianças órfãs a caminho da praia, decidiram chamar a polícia face às bestialidades gritadas pelo pássaro, as quais, além de dissertações alucinantes sobre a anatomia dos personagens do presépio, incluiam detalhadas descrições dos hábitos sodomitas de certos pinguins.
O cauteleiro, que passava por ali por acaso, ficou pregado ao chão a ouvir o papagaio. "O papagaio é seu?" perguntou-me. Respondi-lhe que sim. "Juro-lhe" afiançou-me ele, "que nunca ouvi um papagaio berrar palavrões daquela maneira! E o que ele dizia... E se eu tenho viajado pelo mundo!" disse olhando com espanto as copas das árvores do outro lado da rua.
Forneci os meus elementos de identificação à Polícia para "dar provimento à queixa".
"De quem", perguntei eu? "De toda a gente", repondeu o polícia olhando-me com ar triunfant
e.
Pedi desculpa a toda a gente, garantindo que aquilo jamais voltaria a acontecer após o que subi devagar os degraus da escada até ao meu apartamento, no 1º andar. Meti a chave à porta devagar, possuído por um sentimento de ódio gelado e sede de vingança como nunca na vida sentira. Fechei a porta atrás de mim com cuidado, como se não quisesse acordar ninguém e dirigi-me furtivamente à varanda. Agarrei no papagaio/poleiro e trouxe o conjunto para dentro.
Nem me atrevi a olhar para baixo, de onde vários pares de olhos me fitavam.
Corri as cortinas, agarrei no papagaio, soltei-o da corrente que o prendia ao poleiro e, enquanto me encaminhava para a cozinha dizia-lhe, martelando sincopadamente cada sílaba: "Es-tás-fo-di-do-meu-ca-brão"
"No frigorifico? Nãããã. Vais mas é para o congelador!" Abri a porta da arca vertical escolhi a gaveta menos cheia, enfiei lá o papagaio fechei a gaveta com força e bati com a porta gritando" É PARA APRENDERES".
Servi-me de uma dose generosa de Bushmills, juntei-lhe um pouco de água fria, acendi um cigarro e fui calmamente até à sala. Liguei a televisão e decidi alienar-me do mundo durante o tempo daquele cigarro.
À medida que os minutos passavam, o cigarro e o whiskey desapareciam, a calma regressava devagar, como folhas secas a poisar no chão a seguir a uma inexplicável rabanada de vento.
Comecei a sentir um ligeiro desconforto ao imaginar o papagaio trancado no congelador. O desconforto transformou-se rápidamente num saco de remorsos pesadíssimo. Levantei-me e libertei o bicho do seu castigo, trazendo-o para a sala embrulhado numa toalha de cozinha.
Comecei a enxugá-lo devagar e, a pouco e pouco, as tremuras de frio foram desaparecendo, enquanto conversava com ele e lhe tentava explicar que não se pode andar a dizer palavrões a toda a gente, a insultar as pessoas que passavam na rua, que era muito feio, enfim as parvoeiras que se costumam dizer a um papagaio de que se gosta e que se portou mal. A tudo ele dizia que sim, acenando com a cabeça e evitando, a todo o custo, olhar-me nos olhos. De seguida poisei-o no chão e observei-lhe as penas exofradas da nuca enquanto ele se afastava bamboleante, como um pirata de perna de pau. De um salto poisou no braço da poltrona à minha direita e ali se deixou ficar, encolhido. Minutos depois, poucos, dois ou três, salta para o chão e dirige-se na minha direcção. Mantive-me quieto, na expectativa. De súbito senti que me estava a puxar pela bainha das calças. Soergui o tronco e olhei para baixo. O papagaio acenou-me com a cabeça como que a dizer para me aproximar. Debrucei-me na sua direcção e ele, acenando com a cabeça em direcção à cozinha, perguntou-me com voz rouca e muito baixinho: "O que é que fez o frango?"

sexta-feira, julho 29, 2005

Passar palavra


«Alguma imprensa – com particular atenção de um semanário – sempre atento a tudo quanto seja polémico neste assunto – tem dado inusitada relevância aos que apelidam de monárquicos, confundindo-os com o PPM agora com visibilidade mediática graças ao seu actual Presidente e, creio que, sobretudo ao seu Vice-Presidente saído da popularucha "Quinta das Celebridades" para a política pêpemista. Ora nem o PPM representa os monárquicos – a esmagadora maioria ou milita ou vota noutros partidos – nem o actual PPM representa mais do que a cúpula que o tomou e uns tantos incautos que votaram nela.»

«O PPM nasceu de um grupo de monárquicos que se opunham ou discordavam do Estado Novo e que com o 25 de Abril quiseram marcar a diferença daqueles que na Causa Monárquica – onde já tinham ocorrido dissidências antes de 1974 – apoiavam o regime autoritário de Salazar, o supremo manipulador, que foi sempre alimentando a ideia de uma restauração a troco do apoio de monárquicos formados numa doutrina mal assimilada que os fez preferir a ordem a qualquer preço, sobre a liberdade dos que proclamavam que "o nosso Rei é livre e nós somos livres". Cumpriu a sua missão. Devia ter morrido aí.»

«A partir de então passou a ser um grupúsculo com ideias políticas de sinal contrário e ultimamente serviu para fazer, aqui e acolá, coligações com os grandes partidos, na convicção de que ascenderia ao poder, autárquico ou nacional. O PPM se já não era nada, hoje ainda o é menos, com tiradas do seu Presidente que se considera mais herdeiro dos Reis de Portugal do que o Senhor Dom Duarte de Bragança, por descender de uma Infanta casada com um Duque de Loulé e ou do seu Vice-Presidente que tendo tido a brilhante ideia de candidatar à Câmara de Cascais uma das celebridades de tal quinta, teve esta saída brilhante "Neste país pode-se ser homossexual, mas uma mulher solteira não pode ser candidata só porque teve vários homens"!»

«A defesa da monarquia é uma coisa muito diferente desta exposição mediática por más razões, muito diferente da defesa inglória e ridícula de uma pretensão à representação dos Reis de Portugal que a quase totalidade dos monárquicos vê com uma gargalhada, senão com comiseração pelos protagonistas atirados para a frente de guerras pessoais. É a defesa de um regime em que a Chefia do Estado e da Nação coincidem, em que o seu detentor não está dependente e prisioneiro dos votos dos partidos, em que a sua independência é garantia da estabilidade política, em que a representação exterior do País ganha outra visibilidade e outra credibilidade.»

«Para essa luta contribuíram e contribuem muitos portugueses de relevo, com formação ideológica e política, com convicções, no anonimato muitas vezes, sem parangonas nos jornais das intrigas políticas e da vida social, que só lhes interessa o apoucamento de luta pela Monarquia ou o seu lado "folclórico", das celebridades e dos aristocratas do "socialite".»

«A defesa da Monarquia é uma coisa séria. Não uma brincadeira de quem, sem saber como, se apanhou na ribalta política e dela fez trampolim para as suas "causas" pessoais.»

João Mattos e Silva

Texto retirado daqui

Euro English



(...) "This will make words like fotograf 20% shorter. "(...)

No Só Palpites .

Em roda livre

Portugal não recorreu a um fundo de 17.832.000 Euros (mais de 3,5 milhões de contos) a que poderia ter recorrido para minimizar os resultados da seca.

Este fundo não carecia da aprovação da Comissão Europeia.

terça-feira, julho 26, 2005

Monarquia ? Sim, por favor.







A quase candidatura de Mário Soares à presidência da República reflecte a falência do regime republicano em três frentes distintas: na sua
essência, no seu futuro e na sua credibilidade.

Na sua essência porque desde o 25 de Abril de 1974 e em todas as eleições presidenciais, todos os presidentes da república eleitos exerceram dois mandatos consecutivos única e simplesmente porque constitucionalmente não puderam exercer um terceiro. Não que isso não fosse um desejo legítimo dos eleitores. Se a lei o permitisse, o Chefe de Estado em Portugal, sendo um presidente da República, seria permanentemente re-eleito. Seria um quase Rei.
A permanência em funções de criaturas como Alberto João Jardim e a complacente condescendêndia para com as suas diatribes, acessos de arrogância e grosserias, concedendo-lhe assento permanente no Conselho de Estado reflecte bem que tipo de Estado é este.

No futuro porque um partido (PS) embora se reclame herdeiro do partido republicano, não consegue descortinar nas suas hostes ninguém ao nível de candidato a Chefe de Estado sem ser o seu próprio fundador. para os repblicanos do PS, ninguém está tão bem colocado para disputar umas presidenciais do que um presidente com dez anos consecutivos de exercício. Mesmo que tenha oitenta anos de idade. E depois logo se vê.
O outro partido (PSD) tem para oferecer como candidato o homem da regisconta. Os candidatos a chefe de Estado são apresentados como produtos de feira, elixires milagrosos, banha da cobra, só eles capazes de conduzir Portugal na senda do futuro. Seja ele qual for.

O regime republicano está ferido de morte na sua credibilidade porque ao querer promover junto do povo candidatos com provas dadas do que fizeram, não se livra de que esses mesmos candidatos também tenham provas dadas do que não fizeram, como por exemplo, a falta de empenho pessoal na criação de uma estratégia de combate aos incêndios à semelhança do que foi implementado há 12 anos na Andaluzia com provas mais que dadas e resultados exemplares. À semelhança, aliás, do que o actual presidente também não fez.
Ou, no caso do candidato do PSD, chefe de goveno por dez anos consecutivos, a falta de coragem para avançar com profundas reformas internas, desde a administração pública, à revisão da lei do arrendamento, contribuindo assim para o descalabro e o caos urbanístico nas periferias das grandes cidades, obrigando gerações e gerações de portugueses a endividarem-se para com os bancos, verdadeiros senhorios incontestados, pagando rendas astronómicas por apartamentos que serão seus ao fim de trinta anos.

A partidocracia republicana vigente, herança dos republicanos do início do século passado que suprimiram os círculos uninominais criados no tempo de Fontes Pereira de Melo, na segunda metade do sec. XIX, que fomenta a eleição para a Assembleia da República de deputados que nem sequer conhecem o seu próprio círculo eleitoral, quanto mais os seus eleitores, é o expoente máximo de um regime em que os interesses corporativos e o compadrio descarado entre meia dúzia de senhores feudais se sobrepõe descaradamente ao interesse do país.

Em conclusão, refira-se que a noção de património se encontra definitivamente arredada do modus operandi do regime republicano. Seja esse património de origem natural ( florestal, hídrico e marítimo) ou edificado (pontes, estradas, monumentos ,etc.,). O que ainda existe é para ser negligenciado, saqueado ou negociado. A complacência do poder republicano para com a praga cíclica e anual dos incêndios e a sua promoção a fenómeno "meteorológico" sazonal, previsível e inevitável é um insulto à inteligência de todos os portugueses. Quando os pelouros da RAN e da REN forem definitivamente depostos nas mãos dos caciques autárquicos, que promoverão a sua rápida delapidação e substituição por monstros de betão, será tarde.
A regionalização que não foi conseguida com o referendo será obtida pelo fogo.



Agradecimentos

Ao The Antoninos, ao Xanel 5 pelas referências.
A O Velho da Montanha e ao blogame mucho pelos links.
Parabéns, ainda que atrasados, pelo 2º aniversário ao blogame mucho, um Blog caliente, carregado de sensibilidade e bom senso.

domingo, julho 24, 2005

Presidenciais 2006

O gráfico com que o Expresso resolveu acompanhar mais uma das suas sondagens, desta feita relativa a umas eleições presidenciais que se realizarão daqui a seis meses, é em si próprio expressivo e digno de nota. Senão repare-se:

1. Cavaco Silva, aparece numa atitude despreocupada, de mão no bolso, como quem caminha seguro do que quer, sem dúvidas, poucos enganos e nenhum Bolo-rei. Mas atenção! O que é que ele leva na mão? Um jornal. Ele leva um jornal na mão. Para quem se gabava de nunca ler jornais, há contradição que chegue.

2. Em seguida aparece Mário Soares. Aparece não. Acontece. Mário Soares acontece de repente, vindo de parte nenhuma, como uma bailarina acabando um pas de deux. Ou como um génio cuja lamparina foi inadvertidamente esfregada. Nada na mão esquerda. Nada na mão direita. Eis-me.

3. Manuel Alegre parece ter sido tele transportado por engano. Enganaram-se nas coordenadas e em vez de se ver calmamente a deambular pelos corredores de S. Bento, dá consigo em cima dum 42 a olhar, pasmado, para as evoluções dançantes de Soares perante a calma intranquila do Sr. Aníbal.

4. Por fim, Freitas do Amaral surge sobraçando os complicados dossiers que terá que estudar para quando arrancar com a campanha eleitoral, enquanto que a mão direita se presta a largar a pasta dos Negócios Estrangeiros, aguardando para isso um momento em que ninguém esteja a olhar. Se alguém olhar, pode sempre abanar a pasta, como quem chama um táxi.

sábado, julho 23, 2005

Domingo à tarde


(c) Manuel Amado


quinta-feira, julho 21, 2005

PPM muda para PCP (f m)

O Partido Popular Monárquico vai mudar de nome. Passará a chamar-se Partido dos Câmara Pereira (f m - fadistas militantes) .
O logotipo será um cavalo ruço cavalgado por uma raposa chamada Elsa.

No almoço de ontem no American Club

Para José Sócrates, não interessa a opinião e manipulação dos meios de comunicação. Interessa, isso sim, a opinião pública dos portugueses.
Como a maior parte da oipinião pública dos portugueses entendidos na matéria, é contra os projectos e consequentes obras do TGV e a OTA, podemos estar descansados.

Inércia

Tal como com os incêndios, hoje em dia estúpida e amplamente reconhecidos como fenómenos sazonais inevitáveis, o problema da falta de água (mais que previsível no início do ano) só agora merece preocupação por parte do poder instituído.
Só isso explica que os poucos, quase inexistentes, apelos à poupança de água tenham começado a surgir agora, na segunda metade do mês de Julho.
Poder instituído esse que, como é óbvio, se estende desde o Presidente da República até ao deputado mais incompetente, bronco e distraído desta III República, passando pelos diferentes Ministros de Estado bem como pelos seus colegas, os Ministros de Estando.

quarta-feira, julho 20, 2005

Estado de choque.

Pronto. Já está.
A entrevista de Diogo Freitas do Amaral ao Diário de Notícias tirou às elites, esquerda e direita, qualquer réstea de esperança de um resto de ano calmo, sossegado e de desfecho previsível: a vitória de Cavaco Silva nas presidenciais de 2006.
Já se tinha falado nisso cá no Terreiro: aqui, aqui, também aqui e, finalmente, aqui.
Caladinhos que nem ratos, os adeptos da esquerda e da direita, desorientados ao máximo, como fufas cegas com o cio, num armazém de bacalhau, assobiam para o lado todos ao mesmo tempo assobiando assim, nas caras uns dos outros.

Never say never



Diogo Freitas do Amaral assume-se como putativo candidato às eleições presidenciais de 2006.
Referindo-se a Cavaco Silva sublinha que há um prolongado silêncio destinado a criar as condições, não para uma eleição democrática e pluralista, mas para um plebiscito unanimista. Afirma ainda que seria pouco habitual se deixasse o governo para se candidatar às presidenciais, mas não seria estranho.
Ora, considerando-se extremamente pouco habitual que o fundador de um partido democrata cristão viesse algum dia a ser membro de um governo socialista, é legítimo que se considere abundantemente estranho que, após uma entrevista destas, a sua candidatura a presidente da república não se torne realidade.
Em entrevista ao DN de hoje.

- Never say never.- said the bishop to the actress.
- But you just said it! Twice! - she replied.

terça-feira, julho 19, 2005

E vão cinco

Nunca percebi a equivalência entre six feet under e sete palmos de terra.
Talvez por isso nunca tenha sido fã da série que acabou ontem.
Nos episódios que fui vendo, não pude deixar de reparar numa coisa : é que não se aproveitava ninguém.
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A reforma da lei do arrendamento é uma treta. Alguém imagina ser possível que a renda de um T2 comprado há cinco anos por trinta mil contos e avaliado pelas Finanças em quinze mil contos seja de cinquenta contos por mês? Pois...habituem-se.

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O Presidente da república julga que se se unir aos restantes portugueses, todos juntos conseguirão fazer coisas belas por Portugal. Por favor, não o acordem.

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Eduardo Prado Coelho é o 17º na lista de Carrilho à CML.
Não tem hipótese.

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Autofagia republicana militante - Processo opinativo de cariz verborreico / incontinente dirigido a próprio ou ao seu semelhante. Exemplo: A recente troca de galhardetes entre VPV e António Barreto a propósito das elites.



segunda-feira, julho 18, 2005

O Príncipe Perfeito



«Foi el-rei D.João homem de corpo, mais grande que pequeno, mui bem feito e em todos os seus membros mui proporcionado; teve o rosto mais comprido que redondo e de barba em boa conveniência povoado. Teve os cabelos da cabeça castanhos e corredios e porém em idade de trinta e sete anos na cabeça e na barba era já mui cão, de que se mostrava receber grande contentamento pela muita autoridade que à sua dignidade real suas cãs acrescentavam; e os olhos de perfeita vista e às vezes mostrava nos brancos deles umas veias e mágoas de sangue, com que nas coisas de sanha, quando era dela tocado, lhe faziam aspecto mui temeroso. E porém nas coisas de honra, prazer e gasalhado, mui alegre e de mui real e excelente graça; o nariz teve um pouco comprido e derrubado. Era em tudo mui alvo, salvo no rosto, que era corado em boa maneira. E até idade de trinta anos foi mui enxuto das carnes e depois foi nelas mais revolto. Foi príncipe de maravilhoso engenho e subida agudeza e mui místico para todas as coisas; e a confiança grande que disso tinha muitas vezes lhe fazia confiar mais de seu saber e creu conselhos de outrem menos do que devia. Foi de mui viva e esperta memória e teve o juízo claro e profundo; e porém suas sentenças e falas que inventava e dizia tinham sempre na invenção mais de verdade, agudeza e autoridade que de doçura nem elegância nas palavras, cuja pronunciação foi vagarosa, entoada algum tanto pelos narizes, que lhe tirava alguma graça. Foi rei de mui alto, esforçado e sofrido coração, que lhe fazia suspirar por grandes e estranhas empresas, pelo qual, conquanto seu corpo pessoalmente em seus reinos andasse para as bem reger como fazia, porém seu espírito sempre andava fora deles, com desejo de os acrescentar. Foi príncipe mui justo e mui amigo de justiça e nas execuções dela mais rigoroso e severo que piedoso, porque, sem alguma excepção de pessoas de baixa e alta condições, foi dela mui inteiro executor, cuja vara e leis nunca tirou de sua própria seda, para assentar nela sua vontade nem apetites, porque as leis que a seus vassalos condenavam nunca quis que a si mesmo absolvessem.»

(Da Crónica de D.João II, de Rui de Pina)

sexta-feira, julho 15, 2005

Um milhão

De Euros pede há dois anos João Pinto de Sousa pelo conjunto de oito mil registos de fado desde 1904 até à 2ª Guerra Mundial. Quase meio século de história desconhecida do Fado.
Senão o espólio será vendido ao estrangeiro.
Isto em vésperas de o Fado se tornar património mundial.

Assunto abordado por
Pedro Bidarra no Público de hoje. Página 9.

quarta-feira, julho 13, 2005

Portugal a arder visto do espaço



Imagem recolhida aqui.

Redacção - As minhas férias

O cão era pequeno e malhado, mais ao menos entre o Jack Russel de Jim Carrey em The Mask e o Flag do Umberto D. do Vitorio De Sica.
Nos dias de chuva a neura, o tédio, o fartanço e a parvoeira apossavam-se, insinuantes, de cada um dos habitantes da casa. O cão aproveitava para dormitar perto da grande janela de sacada da sala.
Se por acaso alguém passasse lá fora, um gato miasse, uma folha de jornal de há três dias fosse espalmada pelo vento contra o vidro, acto contínuo o cão desatava a ladrar começando, invariávelmente, por se levantar e esticar as quatro patas com toda a força, olhar para o tecto e para aí dirigir uma sucessão de latidos ensurdecedores até que alguém lhe atirasse um calado! acompanhado de um pontapé ou cachação.
O meu irmão Jaime não perdia a oportunidade para, nessas alturas, acrescentar um pouco mais de educação ao cão socorrendo-se para o efeito de um banco de cozinha e de um pequeno galho de figueira que, como todos os galhos de figueira, não era aproveitado para queimar na lareira. Como quem punha a mesa para o almoço todos os dias, Jaime transportava o banco para junto do animal e poisava-o no chão. De seguida acocorava-se ao pé do cão e enquanto lhe dizia "Tu-és-um-cão-muito-feio" preenchia os intervalos entre as palavras com pequenas mas irritantes traulitadas executadas com o galho de figueira na cabeça do canídeo o qual, escusado será dizer, suportava a coisa com pouca ou nenhuma paciência. Geralmente começava por dar a sua opinião sobre o que estava a suceder a seguir à terceira ou quarta traulitada expondo, numa brancura cintilante e silenciosa, as protuberâncias ósseas com que a natureza se encarregara de lhe ornamentar as fauces.
A passagem ao segundo andamento era subtil e consistia em acompanhar as traulitadas que recebia com rosnadelas a meio gás que, ritmicamente, se acentuavam no momento preciso em que a traulitada era executada.
À medida que o repertório do meu irmão se ia extinguindo, a improvisação tomava o lugar do bom senso, sugestões e conselhos arrastavam-se, alongando-se e decompondo-se silabicamente em frases absurdas que para ninguém faziam sentido muito menos para o cão que, de olhos vítreos, encetara o terceiro andamento iniciando uma série de sinistras roncadelas aspiradas, como quem diz "tás quase, meu cabrão, tás quase". Era então que algo de muito mais estranho acontecia. O cão, que até então olhara o banco de cozinha de solslaio, passou a encará-lo como uma ameaça silenciosa, incompreensível mas real. O arrastar daquele banco de cozinha iniciando esta cena miserável e fazendo parte integrante do espaço cénico onde se desenrolava a acção tinha que ter algum sentido, alguma intenção. Para o cão era óbvio que se tratava de mais um instrumento de agressão e tortura, fruto pérfido do sadismo do meu irmão Jaime. Para nós, que assistiamos vagamente ao que se passava, era só uma questão de tempo até vermos que, inevitávelmente, Jaime se sentaria lá em em cima. Nesse momento, enquanto ele dissertava sobre as contrariedades quotidianas e a importância, ou não, da resignação proferindo frases como "es-ta-mos-to-dos-far-tos-des-ta-chu-va" traulitando a cabeça do cão com suavidade, toda a atenção do cão se encontrava concentada no banco. Quando o nível decibélico a que chegavam as rosnadelas, então soluçadamente aspiradas e expelidas com uma frequência de sprint final, se tornava definitivamente ameaçador para além de qualquer parcela de dúvida, Jaime virava-se de súbito para o banco de cozinha, balouçava-o repetida e rápidamente, numa tosca imitação do que poderia ser um galope Calvinesco, berrando em simutâneo um formidável kiai. O cão, acto contínuo, apoteose final e encerramento, desatava a correr pela sala, alucinação tridimensional completa, com as orelhas esticadas para trás, o rabo entre as pernas a lingua pendente de lado, curvando em slide em volta da mesa grande, pulverizando as garras das patas na tijoleira do chão enquanto recebia aplausos carinhosos e suaves cachações no lombo por parte da assistência.
Era sempre a seguir a este ritual que a chuva parava e o sol aparecia.

segunda-feira, julho 11, 2005

sábado, julho 09, 2005

Contra factos não há argumentos.

(...) A área total ardida naquela região espanhola (50.617 hectares - Andaluzia) durante todo este período (1995-2003) chega a ser inferior àquela que se perdeu em Portugal em menos de 24h de alguns dos dias de Agosto do ano passado. (2003) (...)

(...) Ou então que seja o luso fadário o responsável pelos fogos terem varrido, desde 1995, uma área equivalente a 15 por cento do território português, enquanto na Andaluzia essa cifra não atingiu sequer os 0,6 por cento.(...)

(...) Em 1991, perante um balanço final “catastrófico”, a Junta da Andaluzia decidiu acabar com a dispersão de competência e o amadorismo da gestão florestal.(...)

(...) naquele ano arderam na Andaluzia somente 65 mil hectares - ou seja, cerca de um terço daquilo que foi dizimado, nesse período, no nosso país. (...)

(...) medidas drásticas. A primeira foi centralizar toda a gestão florestal – desde a prevenção até ao combate, passando pela vigilância – para uma única e nova entidade : a Consejería do Medio Ambiente, a entidade homóloga do Ministério do Ambiente português. (...)

(Em Portugal) (...)Depois de, no ano passado (2003) terem ardido 480 mil hectares, à dispersão nacional que já existia, juntou-se ainda a criação da Agência de Prevenção dos Incêndios Florestais, as Comissões Municipais de Defesa da Floresta contra Incêndios e o Conselho Nacional e Comissões Regionais das Áreas Ardidas.(...)

(...)“Ter poucos focos de incêndio e que sejam atacados rapidamente, de modo a que os fogachos não se transformem em grandes fogos. Para isso apostamos numa boa gestão preventiva, numa vigilância apertada e numa intervenção rápida nos primeiros minutos, com meios adequados”(...)

(...) Enquanto em Portugal são os autotanques e a água que são os meios de combate – por vezes demorando mais de meia hora a chegar ao local-, na Andaluzia são as moto-serras, as enxadas, os machados e outros utensílios, que diríamos agrícolas, os instrumentos mais usados na primeira fase de combate pelas brigadas de extinção.(...)

(...) O equipamento de protecção é um “detalhe” minuciosamente controlado: cada membro da brigada tem de estar vestido com roupa protectora, óculos e máscara com filtro especial anti-partículas, não esquecendo água para beber e um pequeno kit de primeiros socorros.(...)

(...) Na Andaluzia não há espaço para voluntarismos nem desvarios. “Os bombeiros portugueses são loucos”, diz Carlos Rey, quando lhe pedimos opinião sobre o facto de em Portugal ser habitual os nossos “heróis” irem para a frente de combate sem máscaras nem equipamewnto térmico, por vezes de manga curta. (...)

(...) nos casos mais bicudos ou em focos de incêndio de difícil acesso, o Plano Infoca conta com quatro brigadas de reforço de elite – as BRICA -, cada uma constituída por 11 elementos escolhidos de entre os melhores especialistas em extinção. Estes elementos têm profundos conhecimentos em tácticas de cartografia, sobrevivência, estratégia e combate – como, por exmplo, a colocação de “bombas de extinção” e de execução de contrafogos além de uma forte preparação física. (...)

(...) Para isso, os treinos são diários e acompanhados por um preparador físico. (...)

(...) No meio desta azáfama, há também tempo para a descontracção, mas sem bebidas alcoólicas à mistura nem ausências para o café mais próximo. (...)

(...) Observando uma simulação das técnicas de combate destes homens – durante os dias em que a GR esteve na Andaluzia não houve incêndios, apesar de alguns períodos de intenso calor -, facilmente se constata que por mais heróicos que sejam os nossos bombeiros, eles estão a “anos-luz” da eficácia e preparação técnica e física dos “bombeiros” andaluzes. (...)

(...) no Plano Infoca não se querem actos heróicos, por isso, e só em situações excepcionais se chegam às 14 horas ininterruptas de combate, (...)

(...) tudo isto só é possível porque o sistema é profissional, bem organizado e relativamente bem pago para os padrões nacionais. O salário mais baixo – por exemplo, de um vigilante – ronda os 800 euros por mês,

(...) remuneração de um elemento de brigada BRICA ascende aos 1200 euros e a dos outros “bombeiros” pouco menos (...)

(...) a Junta da Andaluzia está preocupada com a “ovelha negra” da sua floresta: o eucalipto. “As importações da América do Sul tiraram a rentabilidade económica dos eucaliptais que estão a ser abandonados e que estão a transformar-se num autêntico barril de pólvora” (...)

(...) as intervenções em caso de incêndio são parcialmente pagas pelos proprietários afectados, independentemente da causa e início dos incêndios. Por exemplo, num incêndio maior do que mil hectares, essa taxa – que será paga de modo proporcional pelos proprietários, o que implica um cadastro actualizado, aspecto que em Portugal não existe – pode atingir um máximo de 12 mil euros. Mesmo que seja apenas um fogacho, o proprietário terá de arcar com uma factura de 120 euros.(...)

Contra factos não há argumentos. Só a estupidez, a teimosia e a aldrabice.

Ler o artigo completo aqui.

Despedida



O Dragão andou em obras, a remodelar o estabelecimento.
Prepara-se para hibernar. Vão dizer-lhe até já.

sexta-feira, julho 08, 2005

Perto do fim

Li uma vez, num sítio qualquer, que, dias antes do 11 de Setembro de 2001, Ossama Bin Laden dera ordem de venda de todas as acções que possuía em companhias de seguros. Dias depois do massacre voltou a comprar o que vendera. A manobra ter-lhe-á rendido perto de sessenta milhões de dólares.
O destino desses milhões de dólares terá sido o recrutamento de pessoas e meios e o financiamento de mais actos terroristas.
Com os recursos petrolíferos do planeta perto do fim, mesmo que o actual preço do barril, em permanente e imparável subida, seja um argumento de peso para que se opte por processos de extracção que, com o barril a 25 dólares não compensariam, e com a procura a atingir níveis inconcebíveis há dois anos atrás, a luta pelo controle da produção acentuar-se-á de forma violenta. Prevê-se que, perto de 2015, o preço do barril atinja os 380 dólares.
O objectivo dos terroristas islâmicos é o dinheiro. Seja ele obtido pelo controle da produção do petróleo nos países árabes, ou pelo controle da produção de papoila de ópio no Afeganistão.
Quanto mais alto estiver o preço do petróleo, mais motivados estarão para a prossecução das suas acções vingativas e de terror. Os países em vias de desenvolvimento, com o crescimento dos PIB na ordem dos 10% ao ano, como a China e a Índia, dificilmente estarão na disposição de pagar cada vez mais caro por aquilo que não produzem: petróleo; e que tão caro e indispensável é ao seu desenvolvimento. Daí à tentação de "anexar" países produtores, vizinhos de preferência, vai um pequeno passo. A recente eleição no Irão do ultraconservador
Mahmud Ma Ahmadinejad, partidário do não aumento de produção de barris de petróleo por parte do Irão, não augura nada de bom a um mundo viciado no ouro negro que, em vez de o injectar nas veias, extrai-o, processa-o e consome-o sem cessar, sem se preocupar com a extinção dos stocks.
Pela primeira vez na história da humanidade, começando na era industrial, os habitantes deste planeta dedicam-se, com a intensidade de famintos mamíferos recém nascidos, a consumir desenfreadamente os recursos naturais do planeta mãe, útero cósmico, que os pariu.
O capital inicial, seja ele a pesca, a água potável, a fertilidade do solo, as florestas, os recursos petrolíferos, etc., é consumido com uma voracidade larvar como se Deus, a uma dada altura do processo evolutivo, dissesse: "Matai-vos e comei-vos uns aos outros."
Pela primeira vez na história da humanidade, o anti-capitalismo antropófago globalizou-se, espalhando a sua sanha vingativa pelos quatro cantos do mundo, empenhando a humanidade na delapidação, consumo e esbanjamento dos recursos naturais de um planeta criado há milhões de anos para lhe servir de repasto, de carcaça.
É estafar e deitar fora.
Com a geração "tásse" à beira do poder, provida de polegares hiperdesenvolvidos, inteligência atrofiada e memória inexistente, será em poucos anos que se servirá a caldeirada final, com molho de cogumelos e polvilhada com enxofre.


terça-feira, julho 05, 2005

A barrela metrossexual


"A candidatura [de Manuel Maria Carrilho] tem mais nível, tem mais classe, tem mais elegância e, sobretudo, dá garantias de poder defender essa mais valia sem preço que se chama inteligência!"

Assim falou o maestro da bengala, sogro de Henry Miller.
No Público de hoje.
 
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