Era velho e tinha barbas grandes. Diziam que tinha lido a Bíblia de uma vez só e que, depois disso, tinha fugido para a serra da Jordana e por lá ficara, enjaulado em monólogos, pasto do silêncio e a comer o que apanhava. Gafanhotos, diziam. Um ano ou dois, pelo menos. Sozinho como um profeta.Um ermita.
Depois desceu da serra e apareceu lá no Monte.
O Guerra andava curvado, a empurrar um carrinho de mão encarnado com quatro argolas onde levava bilhas de alumínio com leite lá dentro. Não falava. Usava um chapéu de feltro castanho sujo, umas calças de fazenda cinzentas grossas e olhava para nós lá de cima, sem falar, com uns olhos que, diziam, metiam medo. Depois ia-se embora, curvado, a arrastar as botas curtas na poeira do chão. Um dia morreu. Ninguém sabe quando.
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
Interlúdio
-Mas porque é que escreves isso?
-Eu escrevo isto porque me apetece escrever o que me apetece, que é o que escrevo quando escrevo isto.
-Egoísta.
-Eu escrevo isto porque me apetece escrever o que me apetece, que é o que escrevo quando escrevo isto.
-Egoísta.
Histórias de encantar VIII
Numa tasca à tarde, no largo de uma aldeia alentejana, um velho enrola-se e esfrega as mãos em volta dos cotovelos nus encostado ao balcão.- Mais um...!- urrou para a porta escura entreaberta na parte detrás do balcão. Outro velho menos velho que o primeiro assomou-se à porta e disse:
- Pôceras ti Jaquim! Vomecê hoje tá danado! Olhe que ainda tem que ir para casa e da maneira que está despachando bagaços tem que ter cuidado. É o quarto e último!
- Cala-te e avia-me mas é...- rosnou o velho enquanto insistia em retirar um estreitíssimo Definitivos do maço encardido e amachucado. -...que esta vida é uma puta e um gajo tem que se arrimar a ela enquanto tiver tesão. Depois acabou-se!
- Atão mas diga lá o que se passa, homem! Vomecê sempre bem disposto e agora anda para aí com uma cara que até parece sei lá o quê.
- Eh pá. É a nha Maria, pôceras. Já não me consigo chegar a ela a tempo. As mais das vezes quando estamos no campo e sinto vir aquela febre que dá vontade de agarrá-la toda e deitá-la ao chão, tás a perceber, quando a chamo e ela vem ter comigo já a puta da tesão se me foi.
- Mas olha que isso tem remédio.- ouviu-se dizer do fundo mais escuro da tasca.
Ti Jaquim rodou lentamente o corpo franzindo a fronha e prescrutando o ar carregado de cheiros vários e aromas abrangentes que iam do presunto no fumeiro às cebolas passando pelo tabaco, álcool, suor, merda, e ervas de cheiro de onde se destacavam os orégãos.
- Agarras na espingarda e combinas c'a m'lher que quando ela ouvir um tiro está na hora. Verás vê-la aos saltos e cangochas por essas arceadas de saias arregaçadas na pressa de ir ter contigo.
Ti Jaquim ergueu o copo na direcção da voz e tragou o quarto e último bagaço. - Não é tarde nem é cedo. Vou-me embora que amanhã é outro dia.
O tempo foi passando e Ti Jaquim tardava em aparecer, ocupado como andava aos tiros pr'ó ar na caça da sua Maria.
O Outono chegou à tasca e com ele o Ti Jaquim.
- Avia-me um penalte de bagaço e é para já!- vociferou batendo com força com a palma da mão esquerda no balcão.
- Eh pá, ó Jaquim! Então agora é todo duma vez por modos dos que não bebeste, não? E a Ti Maria? Tá boazinha de sal ou nem por isso?
- Atão e não é que a coisa resultou mesmo? - respondeu o velho. -Havia dias que me deitava sem ceia, tão derreado que ficava.
- Atão e agora? acabaram-se a pilhas?
-Não pôrra! A gaita é que abriu a caça, tás a perceber? e o raio da m'lher não pára em casa!
- Pôceras ti Jaquim! Vomecê hoje tá danado! Olhe que ainda tem que ir para casa e da maneira que está despachando bagaços tem que ter cuidado. É o quarto e último!
- Cala-te e avia-me mas é...- rosnou o velho enquanto insistia em retirar um estreitíssimo Definitivos do maço encardido e amachucado. -...que esta vida é uma puta e um gajo tem que se arrimar a ela enquanto tiver tesão. Depois acabou-se!
- Atão mas diga lá o que se passa, homem! Vomecê sempre bem disposto e agora anda para aí com uma cara que até parece sei lá o quê.
- Eh pá. É a nha Maria, pôceras. Já não me consigo chegar a ela a tempo. As mais das vezes quando estamos no campo e sinto vir aquela febre que dá vontade de agarrá-la toda e deitá-la ao chão, tás a perceber, quando a chamo e ela vem ter comigo já a puta da tesão se me foi.
- Mas olha que isso tem remédio.- ouviu-se dizer do fundo mais escuro da tasca.
Ti Jaquim rodou lentamente o corpo franzindo a fronha e prescrutando o ar carregado de cheiros vários e aromas abrangentes que iam do presunto no fumeiro às cebolas passando pelo tabaco, álcool, suor, merda, e ervas de cheiro de onde se destacavam os orégãos.
- Agarras na espingarda e combinas c'a m'lher que quando ela ouvir um tiro está na hora. Verás vê-la aos saltos e cangochas por essas arceadas de saias arregaçadas na pressa de ir ter contigo.
Ti Jaquim ergueu o copo na direcção da voz e tragou o quarto e último bagaço. - Não é tarde nem é cedo. Vou-me embora que amanhã é outro dia.
O tempo foi passando e Ti Jaquim tardava em aparecer, ocupado como andava aos tiros pr'ó ar na caça da sua Maria.
O Outono chegou à tasca e com ele o Ti Jaquim.
- Avia-me um penalte de bagaço e é para já!- vociferou batendo com força com a palma da mão esquerda no balcão.
- Eh pá, ó Jaquim! Então agora é todo duma vez por modos dos que não bebeste, não? E a Ti Maria? Tá boazinha de sal ou nem por isso?
- Atão e não é que a coisa resultou mesmo? - respondeu o velho. -Havia dias que me deitava sem ceia, tão derreado que ficava.
- Atão e agora? acabaram-se a pilhas?
-Não pôrra! A gaita é que abriu a caça, tás a perceber? e o raio da m'lher não pára em casa!
sexta-feira, fevereiro 10, 2006
E agora uma coisa completamente diferente
O escritor australiano Patrick Wilcken falou do seu último livro Império à deriva no programa Pessoal e...transmissível transmitido no passado dia 8 de Fevereiro na TSF. O livro relata-nos os acontecimentos que ocorreram na altura da partida da família real portuguesa para o Brasil em 1808 e no seu regresso em 1821, 13 anos depois. Um dos episódios relatados foi o da carradinha de piolhos que infestou o barco onde viajava D. Carlota Joaquina acabando a Raínha e suas acompanhantes por desembarcarem em S. Salvador da Bahia com as cabeças completamente rapadas. Para além do facto assaz relevante, mas nem por isso abonatório, de se tratar do primeiro desembarque conhecido de skinheads em terras de Vera Cruz, o que tornou o acontecimento inesquecível é o facto de o traje das Baianas conservar até aos nossos dias um pequeno, mas determinante, apontamento que evoca esses tempos de outrora: o lenço na cabeça. Bom fim de semana.