sexta-feira, fevereiro 24, 2006

A República no seu "melhor"

A atribuição de quotas em alternativa à meritocracia sempre me pareceu de uma injustiça extrema. Seja o caso das mulheres em cargos públicos seja o da avaliação de desempenhos no marasmo indígena que comodamente se acoita na administração pública.
O Governo da República portuguesa resolveu estipular que, no vasto e extenso oceano pútrido da incompetência nativa, deveria ser estipulada uma quota mínima e obrigatória de 25% (vinte e cinco por cento) em excelência de desempenho. Ou seja, numa sala com cem funcionários públicos, vinte e cinco deles são obrigatoriamente, por força de lei portanto, excelentes. Nada mais errado. Em primeiro lugar porque jamais se conseguiria aglutinar tamanha quantidade de asneiras numa sala só. No máximo dos máximos oitenta e três. E isto porque ou estavam doentes uns, ou tinham ido tomar a bica outros ou estavam na casinha, ou tinham ido buscar o tabaco ao carro, ou tinham sido chamados pela chefia, ou estavam a comer a Francelina das cópias no economato. Uma impossibilidade técnica, essa dos tais 25%.
No entanto, ao que consta, o Conselho Superior de Magistratura atribuiu no Verão passado o qualificativo de excelente desempenho a 95% dos juízes. 95% meus amigos. É obra!
Portugal tem assim o maior ratio de excelentes juízes por m2 de justiça. Só igualado pelo ratio de campos de golfe por m2 de terra queimada.
O critério da atribuição arbitrária de quotas, seja qual for o número e área em que seja aplicado, não é critério coisa nenhuma. É uma desculpa esfarrapada de incompetentes e, por isso, natural e endemicamente incapazes de avaliar o que desconhecem por completo: competência.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

O Guerra

Era velho e tinha barbas grandes. Diziam que tinha lido a Bíblia de uma vez só e que, depois disso, tinha fugido para a serra da Jordana e por lá ficara, enjaulado em monólogos, pasto do silêncio e a comer o que apanhava. Gafanhotos, diziam. Um ano ou dois, pelo menos. Sozinho como um profeta.Um ermita.
Depois desceu da serra e apareceu lá no Monte.
O Guerra andava curvado, a empurrar um carrinho de mão encarnado com quatro argolas onde levava bilhas de alumínio com leite lá dentro. Não falava. Usava um chapéu de feltro castanho sujo, umas calças de fazenda cinzentas grossas e olhava para nós lá de cima, sem falar, com uns olhos que, diziam, metiam medo. Depois ia-se embora, curvado, a arrastar as botas curtas na poeira do chão. Um dia morreu. Ninguém sabe quando.

Interlúdio

-Mas porque é que escreves isso?
-Eu escrevo isto porque me apetece escrever o que me apetece, que é o que escrevo quando escrevo isto.
-Egoísta.

Histórias de encantar VIII

Numa tasca à tarde, no largo de uma aldeia alentejana, um velho enrola-se e esfrega as mãos em volta dos cotovelos nus encostado ao balcão.
- Mais um...!- urrou para a porta escura entreaberta na parte detrás do balcão. Outro velho menos velho que o primeiro assomou-se à porta e disse:
- Pôceras ti Jaquim! Vomecê hoje tá danado! Olhe que ainda tem que ir para casa e da maneira que está despachando bagaços tem que ter cuidado. É o quarto e último!
- Cala-te e avia-me mas é...- rosnou o velho enquanto insistia em retirar um estreitíssimo Definitivos do maço encardido e amachucado. -...que esta vida é uma puta e um gajo tem que se arrimar a ela enquanto tiver tesão. Depois acabou-se!
- Atão mas diga lá o que se passa, homem! Vomecê sempre bem disposto e agora anda para aí com uma cara que até parece sei lá o quê.
- Eh pá. É a nha Maria, pôceras. Já não me consigo chegar a ela a tempo. As mais das vezes quando estamos no campo e sinto vir aquela febre que dá vontade de agarrá-la toda e deitá-la ao chão, tás a perceber, quando a chamo e ela vem ter comigo já a puta da tesão se me foi.
- Mas olha que isso tem remédio.- ouviu-se dizer do fundo mais escuro da tasca.
Ti Jaquim rodou lentamente o corpo franzindo a fronha e prescrutando o ar carregado de cheiros vários e aromas abrangentes que iam do presunto no fumeiro às cebolas passando pelo tabaco, álcool, suor, merda, e ervas de cheiro de onde se destacavam os orégãos.
- Agarras na espingarda e combinas c'a m'lher que quando ela ouvir um tiro está na hora. Verás vê-la aos saltos e cangochas por essas arceadas de saias arregaçadas na pressa de ir ter contigo.
Ti Jaquim ergueu o copo na direcção da voz e tragou o quarto e último bagaço. - Não é tarde nem é cedo. Vou-me embora que amanhã é outro dia.
O tempo foi passando e Ti Jaquim tardava em aparecer, ocupado como andava aos tiros pr'ó ar na caça da sua Maria.
O Outono chegou à tasca e com ele o Ti Jaquim.
- Avia-me um penalte de bagaço e é para já!- vociferou batendo com força com a palma da mão esquerda no balcão.
- Eh pá, ó Jaquim! Então agora é todo duma vez por modos dos que não bebeste, não? E a Ti Maria? Tá boazinha de sal ou nem por isso?
- Atão e não é que a coisa resultou mesmo? - respondeu o velho. -Havia dias que me deitava sem ceia, tão derreado que ficava.
- Atão e agora? acabaram-se a pilhas?
-Não pôrra! A gaita é que abriu a caça, tás a perceber? e o raio da m'lher não pára em casa!

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

E agora uma coisa completamente diferente

O escritor australiano Patrick Wilcken falou do seu último livro Império à deriva no programa Pessoal e...transmissível transmitido no passado dia 8 de Fevereiro na TSF. O livro relata-nos os acontecimentos que ocorreram na altura da partida da família real portuguesa para o Brasil em 1808 e no seu regresso em 1821, 13 anos depois. Um dos episódios relatados foi o da carradinha de piolhos que infestou o barco onde viajava D. Carlota Joaquina acabando a Raínha e suas acompanhantes por desembarcarem em S. Salvador da Bahia com as cabeças completamente rapadas. Para além do facto assaz relevante, mas nem por isso abonatório, de se tratar do primeiro desembarque conhecido de skinheads em terras de Vera Cruz, o que tornou o acontecimento inesquecível é o facto de o traje das Baianas conservar até aos nossos dias um pequeno, mas determinante, apontamento que evoca esses tempos de outrora: o lenço na cabeça. Bom fim de semana.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

O Barril No Horizonte II


Blues inspirado na barba esférica que diáriamente parasita o PÚBLICO e que (se) assina Eduardo Prado Coelho:

É sempre com cautelas de ourives que aborda temas da actualidade. Temas e assuntos que ainda não tiveram tempo para se tornarem objecto de estudo por parte de intelectuais de renome. Franceses, de preferência.
Enquanto espera dispersa-se.
Ora se socorre de lucubrações melancólicas que o saudosismo lhe suscita, ora salta para o terreiro brandindo a pena em defesa do indefensável.
Mas a tentação da abordagem pessoal está lá! Pequenina, nervosa, inquieta.
Ineficaz mas exigente; a dúvida metódica: O que será uma caricatura? Interroga-se inquieto, na edição do PÚBLICO de hoje, fremente, ansioso.
Enquanto as doutas frases dos provectos sábios e intelectuais, franceses de preferência, não são publicadas, traduzidas comentadas e criticadas, ao dispôr do vácuo voraz da sua mente oca, para prontamente serem sugadas para o interior do vazio escuro que é a sua caixa craniana, ele disserta. Ensimesma-se. Interroga-se. Arrisca-se a responder. É legítimo caricaturar o sagrado? Questiona angustiado para logo responder. Choque de culturas, afirma Prado.
De um lado Maomé e a realidade religiosa. Do outro a cultura ocidental, que vai além de todos os valores e é cada vez mais um universo onde tudo é possível e estamos à mercê da deriva sem limites (sic).
Com a delicadeza relojoeira de um “gourmand” a dissecar acepipes milimétricos, o espesso e barbudo barril opina, diz, escreve, sugere, impõe, massacra, desdenha, elogia, regurgita enfim enfastiado aquilo que acha por bem pendurar do seu nome.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Reflexões

Tenho para mim que grande parte das razões, causas e consequências dos males que abundam por este Reino afora, e fora dele, se devem à entrega do poder nas mãos da Estupidez, da Ignorância e da Teimosia. A Estupidez, mais do que ausência de inteligência, caracteriza-se pela glorificação do absurdo, defesa intransigente do autismo pavloviano e total incapacidade de reconhecimento de alternativas. A Ignorância, alcandorada a condição divina e repetidas vezes rebaptizada de Inocência, manifesta-se pela ausência total de qualquer fragmento de conhecimento e consequente incapacidade de reflexão sobre a existência, suas razões e objectivos.
A Teimosia, sendo a mais básica de todas, não é a menos maléfica. Perante a falta de lógica da Estupidez e a ausência de conhecimentos da Ignorância, reduz as razões da existência a meros Porque Sim ou Porque Não, ciente que está da inutilidade argumentativa face ao statuos quo diáriamente comprovado da vida como algo que não vale a pena entender porque as coisas são como são, assim como são, desde sempre e ad eternum.


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Há muito que se sabe que o fundamentalismo (político e/ou religioso) se caracteriza pela total ausência de sentido de humor. Há três ou quatro anos atrás na sequência da última Intifada em Israel, a Autoridade Palestiniana apresentou queixa formal das autoridades Israelitas, nomeadamente da Mossad, por estarem alegadamente por detrás de uma campanha de anedotas, chistes e piadas que tinham como principal objectivo denegrir e ridicularizar os activistas palestinianos, nomeadamente o seu líder, Arafat. Umas das anedotas referia o pedido que fora feito ao líder palestino pelas autoridades israelitas no sentido de instruir os seus seguidores para estarem quietos e não prosseguirem na Intifada, ao que o líder palestiniano terá respondido "Eu ? Pois se eu nem os meus beiços consigo manter quietos..."

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A recente polémica levantada pelos cartoons de Maomé deve-se, entre outras razões, à simultaneidade da coisa. Ao aparecer em diferentes publicações europeias, em diferentes países e ao mesmo tempo, terá tido a aparência de uma conspiração ocidental concertada para desacreditar e ridicularizar a religião islâmica. A reacção dos fundamentalistas islâmicos (religiosos e políticos) não se fez esperar. A ausência de sentido de humor, e a célebre postura de que "Com Coisas Sérias Não Se Brinca" pretende trazer para primeiro plano a seriedade de conceitos como a legitimidade de chacinar inocentes em nome da fé e a presença expectante de 70 virgens no céu para cada muçulmano mártir, relegando como pouco sérios assuntos como a paridade sexual, a liberdade de expressão e de religião.
Não me lembro de ter havido ruído comparável na Europa quando os Monty Python produziram, realizaram e levaram a um cinema perto de si "A Vida de Brian".



terça-feira, janeiro 31, 2006

O Regicídio


Esta é a primeira imagem que surge no Google (pt) quando se pesquisam imagens sobre regicídio.
É uma ilustração de um cromo, feita por Carlos Alberto, e que pertence à colecção História de Portugal.
Podia ser a "Heróis Lendários", "Epopeia do Oeste", "Branca de Neve" ou outra coisa qualquer. É triste. Reuzidos a uma colecção de cromos.
Amanhã será descerrada uma lápide no Terreiro do Paço assinalando o evento. Noventa e oito anos depois, a República digna-se reconhecer a importância da tagédia que aconteceu nessa manhã de 1 de Fevereiro de 1908 e que enlutou Portugal. Até hoje. Noventa e oito anos depois.
Incapaz de ganharem as eleições que estavam marcadas para Maio desse ano ( os 7% que o Partido Republicano vinha conseguindo nas urnas era manifestamente insuficiente à criação de massa crítica necessária para implementar as reformas que, achava, deviam ser tomadas em Portugal) os republicanos optaram pela solução radical.
Todos sabemos o que isso significou. Soluções radicais não faltaram nos anos subsequentes. De Estaline a Hitler.
Até hoje, noventa e oito anos depois.
VIVA O REI, CARAGO!



segunda-feira, janeiro 30, 2006

A República Em Debate

Ontem morreu O Eleito. Assim foi designado o blog arespublicaemdebate.blogspot.com
Notabilizou-se ao criar um espaço de debate, de troca de ideias e opiniões de discussão, tendo inclusive sido "eleito" pela revista Visão como o blogue sobre as presidenciais mais isento da blogosfera.
Pela iniciativa da sua criação e pelo espaço que ocupou na B.L.U.S.A. (blogosfera lusa) estão os seus proprietários, e também os seus colaboradores, de parabéns. Eu inclusive, claro.
No entanto a coisa(*) não pára, e a vontade de lhe zurzir ainda menos.
A República tem agora dois Presidentes. Portugal tem agora dois chefes de Estado. Como se não bastasse o pouco à vontade com que Presidentes e Palácios se têm entendido ao longo destes 96 anos, multiplicaram o problema por dois. Um em Belém e outro em Queluz.
Os Dr (ou seja Dons da República) que nada têm de aristocrático dispõem de dois Palácios para o exercício das suas superiores funções.
O ideal republicano é aqui mais uma vez contradito pela prática.
Extraordinário.
Lá diz o povo: Quem desdenha quer comprar.

(*)
República
do Lat. re + publica, coisa pública

s. f., negócios públicos;
regime em que que se tem em vista o interesse geral de todos os cidadãos e em que o Chefe de Estado é eleito, exercendo um mandato temporário;
esc., conjunto de estudantes que vivem em comum;
deprec., fig., anarquia;
agremiação sem chefe e sem disciplina.
(Definição do Priberam - Dicionário online)





A Promessa

Por tu graal saúda a promessa da chegada de VPV à blogosfera via O Espectro.
Nada ficará como dantes. De certeza. Agarrem-se às amuradas, ó dragões, tripulantes de Abruptos, evolucionistas e quejandos, pois que se adivinham impiedosas abordagens, tinir de sabres e saques vários.

Diz o povo

- Foi preciso Cavaco ganhar as Presidenciais para nevar no Algarve...!

Os tais vinte vírgula qualquer coisa por cento

Que fazer com o "capital" político que representam?
A ser verdade o que se diz , foram votos "roubados" à esquerda e à direita.
Perante o capital, as posições da esquerda e direita são distintas: a esquerda defende a distribuição dos lucros e consequente aniquilação do capital, a direita defende o re investimento e consequente multiplicação do capital.
O destino político de Manuel Alegre estará definitivamente ligado ao destino que vier a ser dado ao capital acumulado de mais de um milhão de votos. E da forma de lidar com isso também.
Ironia q.b.: se o Movimento perdurar, será porque foi escolhida uma abordagem de direita para lidar com o fenómeno. Se a mentalidade de esquerda prevalecer, o Movimento estará condenado à extinção a breve prazo.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Até à próxima


Foi com gosto que fui acompanhando e participando no debate sobre a res publica, iniciativa dos Dolos Eventuais David Afonso e Pedro Santos Cardoso proprietários do estabelecimento por eles crismado de O Eleito.
Agradeço a oportunidade que me foi dada de ter feito parte da tripulação desse cargueiro de opiniões diversas, por vezes díspares e frequentemente antagónicas, um espaço muito próprio, plural nas convicções e democráticamente abrangente. Uma iniciativa (esta sim) fixe.
Bem hajam.

Memorável


A evocação ontem à noite na RTPM de um dos programas da série Raios e Coriscos de Manuela Moura Guedes mostrando como, com o tempo, as coisas mudam.
Nem sempre para melhor, entenda-se.
Galgos convidados: Adolfo Luxúria Canibal, Vera Lagoa, Paulo Portas, Herman José, Vasco Pulido Valente e um gajo com cara de merceeiro que não percebi quem era.
Lebre do dia: Zita Seabra.
Memorável.

terça-feira, janeiro 24, 2006

"Wicked" Pickett


Wilson Pickett - 1941 - 2006

Mustang Sally e In the Minight Hour foram dois dos temas que o celebrizaram, juntamente com a sua versão do tema que Paul McCartney dedicou a Julian Lennon: Hey Jude.

É normal

Mais extraordinário que a onda de apoio manifestada pela direita chineleira em torno de Sócrates após o faux pas cometido quando interrompeu as declarações de Manuel Alegre (*), é a naturalidade com que é encarado o destaque dado a Mário Soares e aos seus 14 e pouco por cento.
Ou não fosse isto Portugal.
Como teria dito Artur Jorge naquela manhã no Estádio Nacional depois de ter levado uns sopapos de Ricardo Sá Pinto: É normal, em Portugal, é normal...

(*) Afinal, ó tribunos do regime, sempre se tratavam das declarações do segundo candidato mais votado nas eleições para a Presidência da República.

domingo, janeiro 22, 2006

O Eleito

Muitos portugueses têm mau perder. Gostam de apostar em vencedores porque gostam de ganhar. A ideia de perder é insuportável, mais ainda num país que é um poço onde se cai, um cu de onde não se sai como dizia João César Monteiro, o inventor do cinema cego.
Quanto mais destacado nas sondagens está um partido ou um candidato presidencial maior é a probabilidade desse partido ou candidato presidencial vir a ganhar eleições.
Muitos portugueses não gostam de ver maus resultados no Domingo à noite, na véspera de mais uma semana de trabalho. Não gostam de arriscar votar em alguém que sabem não ter hipóteses de ganhar. A ideia draconiana de um sorteio eleitoral para a Presidência da República não é tão irrealista como possa parecer à primeira vista. Ou à primeira volta. Só que é um sorteio à portuguesa. Um sorteio com batota, em que se viciam com entusiástica alegria os próprios resultados. A mentalidade do jogo e do sorteio, última esperança para quem quer resolver a sua vida sem esforço, o síndroma Euromilhões é parte integrante da mentalidade autóctone seja na forma de eternos subsídios a fundo perdido seja no preenchimento frenético de boletins de jogo, ou de voto. Tudo menos dispender esforço na procura de soluções para os problemas que importa resolver. Eles, os políticos, são eleitos para isso. Nós, os eleitores, incumbimo-los dessa árdua tarefa, dizem. Mesmo que se trate da eleição de uma figura meramente representativa como é o Presidente da República. O único super poder que tem é o de dissolver a A.R. ou demitir o Primeiro Ministro. E mesmo esse super poder, a Bomba Atómica como alguns lhe chamam, longe de ser uma decisão solitária, só tem sido aplicado com sucesso até agora porque tem tido a esmagadora maioria do apoio popular quando é exercido. Apenas uma vez o General Ramalho Eanes se serviu dele sem o apoio incondicional de todas, ou quase todas, as forças políticas em acção na altura e o preço que pagou foi o mais alto: a implosão do Eanismo.
Cavaco sabia isso antes de ganhar as eleições e terá isso em conta agora, mantendo Sócrates à frente das medidas impopulares que ele, enquanto 1º Ministro refém da sua pusilanimidade, jamais conseguiu concretizar.
O retumbante 2º lugar de Manuel Alegre, escandalosamente à frente de todas as sondagens feitas, mostra o receio que muitos têm de, publicamente, criticarem César, ou seja Mário Soares, com medo de virem a sofrer represálias incalculáveis, acabando na arena, pasto das feras.
Soares está definitivamente acabado, apunhalado pelas costas no silêncio das cabines de voto.
Lamentável o destaque dado pelas estações televisivas, em conjunto, às justificações dadas por um Primeiro Ministro pela derrota do candidato do seu partido enquanto o segundo candidato discursava. O timing disso não foi inocente. A República é assim, pequenina e vingativa.
Quanto aos resultados irrisórios dos candidatos do PCP do BE e do MRPP, esses resultados falam por si: Os eleitores mobilizaram-se sim. Mas não por eles.
A grande percentagem de abstencionistas neste acto eleitoral também tem um significado. E, quanto a isso, a República tem razões de sobra para continuar o que começou a fazer ontem: reflectir.

Publicado em O Eleito

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Procura-se (?)

Recebido por email

domingo, janeiro 08, 2006

RUSSia vs Ucrânia

A recente questão da guerra do gás natural fornecido pela Rússia à Europa via Ucrânia é perigosa.
O ressabiamento da Rússia face à opção Ucraniana pelo ocidente (Victor Yushchenko (um Yushchenko quase irreconhecível pela infecção facial com que o contaminaram, lembram-se?) e a revoada laranja) só não poderia ser tolerado por uma Rússia permanentemente insegura das suas fronteiras se essa mesma Rússia, por seu lado, não estivesse mergulhada numa depressão nostálgica de uma URSS que caiu de podre.
Ao garantir o fornecimento de gás natural pela extracção que é feita no Turquestão e Cazaquistão (regiões muçulmanas da ex-URSS) a um preço (90 US$) que é uma fracção daquilo que, publicamente anunciado, se propunha cobrar à Ucrânia (200 e...US$) a realidade é que, de uma assentada e com o apoio estratégico da Europa Ocidental, Moscovo conseguiu três coisas:

- Manter a Ucrânia dependente. Entalada entre a Europa Ocidental e o emergente fervilhanço das regiões maioritáriamente muçulmanas do sul da ex-URSS.

- Acabar com o desgastante compromisso de abastecer "directamente" o Ocidente com gás natural.

- Envolver directamente a Europa Ocidental no processo de manutenção de regimes políticos viáveis no Turquestão e Cazaquistão, regiões pró muçulmanas da ex-URSS, que lhe garantam o normal abastecimento de gás natural.

Em Portugal, dizem, o problema não se coloca porque o gás natural com que somos abastecidos provém da Argélia e da Nigéria. Pois.

sábado, janeiro 07, 2006

Arruada

Arruada é um termo que tem sido abundantemente utilizado pelos OCS (Orgãos de Comunicação Social) quando se referem às passeatas a pé pelas ruas das aldeias, vilas e cidades cá do Reino, promovidas pelos candidatos à Presidência da República.
Fui tirar a limpo o seu significado no Priberam, Dicionário on line. Eis o resultado:

Foram detectadas 2 formas.


sing. part. pass. de arruar
fem. sing. de arruado
arruar

Conjugar


de rua

v. tr., dividir, dispor em ruas;
distribuir por ruas;
alinhar;
fam., divulgar pelas ruas;
v. int., vadiar;
passear com ostentação.

do Lat. hip. rugitare

v. int., grunhir (o javali);
mugir (o touro).

quarta-feira, janeiro 04, 2006

O Fim Da República

Quando os governos em Portugal, de direita ou de esquerda, apregoam medidas e iniciativas que consideram excelentes e adoptam posições de crítica relativamente às mesmas matérias quando os partidos a que pertencem se encontram na oposição, reflectem a caducidade do regime em que estão inseridos: a República. À preocupação com o país sobrepõe-se a estratégia partidária da conquista do poder. Veja-se o caso do TGV/OTA e as posições do PS e do PSD.
Ainda por cima, a questão estratégica da OTA/TGV, quando analisada à luz da região Ibérica, faz todo um sentido que, sob o ponto de vista estritamente português, é quase um absurdo. Por exemplo: para quê fazer uma ligação Lisboa-Porto por TGV e ao mesmo tempo desencadear a construção de um novo mega-aeroporto? Um deles ficará, decerto, com menos passageiros.
Se o objectivo do regime em vigor em Portugal é promover a criação de vias de comunicação que benefeciarão em primeiro lugar a estratégia expansionista económica da vizinha Espanha, então esse regime, a República, não serve Portugal.

A questão da ingerência estratégicamente promovida da Iberdrola na EDP através da criação de um Conselho Consultivo em que a eléctrica espanhola (e concorrente assumida) terá assento permanente e acesso contínuo a informação priveligiada é puro inside trading, razando o incesto.
Se o regime em vigor em Portugal a República, está na disposição de alienar de barato o poder de decisão em empresas tão estratégicas como o são a GALP e a EDP, é porque não serve Portugal.

O Partido Socialista propõe que sejam atribuídas isenções fiscais às doações a partidos políticos.
Se o partido no poder está na disposição de facultar incentivos fiscais às doações a partidos políticos cortando essas mesmas isenções ao esforço de poupança de cada cidadão (caso dos PPR) e os partidos na oposição pactuarem pelo silêncio com essa estratégia de angariação de fundos, o regime em que estão inseridos, a República, não serve Portugal.

O cansaço dos portugueses, mais do que tudo, contribuirá para que Cavaco Silva venha a ser o próximo Presidente da República. Sem esforço, consegue pôr todos os outros candidatos no mesmo saco sem fazer nada para isso. Basta abrir a boca e assistir às reacções de todos os outros, unidos contra ele.
Mesmo, e sobretudo, quando afirma não ter o apoio de partidos políticos. O povo simples é assim. Gosta de ser enganado.

Publicado em O Eleito

sábado, dezembro 31, 2005

2005 morreu. Viva 2006!


O ano de 2005 acabou.
Não faço balanços porque não sou merceeiro. Nem destaques tão pouco.
Desejo, isso sim, um 2006 espectacular aos indefectíveis leitores deste espaço que, teimosamente, têm contribuido para manter em cima o moral deste Afonso Henriques extemporâneo e a notável média de visitas a este Blog.

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A fúria de Soares contra a comunicação social é sintomática. Não que ela lhe tenha dado pouco destaque, a ele que se considera sempre o rei da festa. Mas, provavelmente, pelo relato que vem fazendo das suas gaffes e trocadilhos os quais, face à provecta idade do seu autor, deixaram de fazer parte do seu charme. Definitivamente. Em sua opinião, o factor Garcia Pereira, o sexto candidato a presidente , deveria determinar por si só nova ronda de debates inter-candidatos à Presidência da República. Este desespero em ter sempre que dizer alguma coisa, seja o que for, a propósito de tudo e mais alguma coisa, seja o que for, acaba por fartar.

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Nos primeiros tempos a seguir à imposição do regime republicano em Portugal, o jacobinismo imperava ao ponto de se querer acabar com o Bolo Rei e substitui-lo pelo Bolo Presidente. Não se riam. O mais grave é que este tipo de arremedos alucinados, sugestões descabeladas, propostas esclerosadas eram sempre levadas a sério quer por quem as fazia quer por quem as discutia. O regime actual em Portugal é o herdeiro directo, e natural, disso.

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Muito da História de Portugal está ainda por conhecer.

Em 1986, um grupo de sábios passou uma semana em Belmonte com o objectivo de tentar definir, de uma vez por todas, a origem do enigmático monumento conhecido como Centum Cellas (*), localizado no desvio da EN18 para a povoação de Colmeal da Torre, antes de se chegar a Belmonte quando se vem da Guarda.
Sem resultado.
O regime resignou-se a classificá-lo como uma ruína romana, e assim é apresentado hoje em dia.
Mesmo que a flagrante semelhança com a arquitectura pré-colombiana (América do Sul) seja por demais evidente. Mas isso, é claro, não faz nenhum sentido. Como também não faz sentido preservar a casa onde viveu Almeida Garrett.

(*) Foto no topo do post.

domingo, dezembro 25, 2005

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Famintos vs Satisfeitos

Estava eu em amena cavaqueira com a Sancha sobre aparência, sexo, corpos e isso (a Sancha atravessa um período fragilizante e vulnerável a sugestões descabeladas. Está tentada em artilhar-se, através do implante de extensões cabeludas e outros atavios inqualificáveis promovidos à tripa forra por Manuelas Moura Guedes e outras harpias semelhantes), quando chegámos ambos a brilhante conclusão. O mundo divide-se, não em ricos e pobres, em justos e cruéis, em estúpidos e inteligentes mas, isso sim, em famintos e satisfeitos. De um lado refastelam-se os satisfeitos, os que comem o que lhes apetece, bebem o que lhes dá na real gana, fodem por tudo e por nada, acompanhando o festim com sonoros peidos de regozijo entremeados de não menos sonoras gargalhadas vitoriosas.
Do outro acoitam-se infelizes os famintos, criaturas nocturnas, atoladas em crises existenciais, embrenhados em raciocínios estéreis, presos de sofismas irresolúveis e atascados em dietas e privações inconcebíveis.
Aos satisfeitos pertence o mundo, as coisas e a alegria. Aos outros resta-lhes a falta disso tudo.
É a vida.

quarta-feira, dezembro 21, 2005

A Pré campanha

Está quase a acabar.
A seguir é a campanha.
Depois as eleições (e toda a gente sabe quem vai ganhar).
A seguir? Mais sete anos de Quadro Comunitário de Apoio, com 10% de retenção na fonte, a bem da indigência nativa.
Haja paciência.

Publicado em O Eleito

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Presidenciais 2006

Estratégia de campanha
Na sequência dos insultos e agressão no braço de que foi vítima Mário Soares em Barcelos, o staff da C.O.S. (candidatura oficial socialista) teme que o sucedido tenha sido o primeiro de futuros episódios semelhantes inseridos numa nova estratégia da candidatura de Cavaco Silva.
Ao garantir todo o respeito pelas candidaturas adversárias recusando-se peremptóriamente a responder a insultos e provocações, o staff Cavaquista terá optado por um tipo de resposta que consiste na distribuição de atrasados mentais, retardados e imbecis inimputáveis em vários pontos do país, estratégicamente colocados no trajecto da campanha soarista. A esses caberá a tarefa de insultar e provocar a caravana soarista beneficiando do estatuto de inimputabilidade que lhes é reconhecido.

Obviamente, demito-o.
Francisco Louçã afirmou que, no caso de ser eleito presidente da República, ponderará sériamente na demissão do Governo Regional da Madeira caso existam perturbações graves no funcionamento das instituições.
Ao contrário do insulto e murro no braço, Louçã preconiza o puxão de orelhas protagonizado pelo próprio presidente da República na pessoa do governador regional prevaricador.
O evento, incluindo a perseguição preliminar, o agarrar do governante e execução da punição, será transmitido ao vivo a partir do átrio do palácio de justiça de cada cidade sede de governo regional ou civil. Uma proposta da ala mais radical do Bloco sugere que esse tipo de punição seja alargado a outros orgãos dos responsáveis por outros orgãos do poder político.

Expulsão
Manuel Alegre irá anunciar em breve a expulsão do Partido Socialista.
Segundo círculos próximos do candidato poeta, as recentes declarações de Soares preconizando a sua saída do Partido Socialista deixam-lhe pouco espaço de manobra, tendo Alegre optado pela expulsão de todo o Partido de uma só vez. Os principais dirigentes socialistas ficarão provisoriamente alojados em cabines de portagem da Brisa munidos de laptops com internet sem fios.

Câmara persegue pedintes.
Como é habitual na época de Natal,o número de pedintes nas ruas, estações e avenidas da capital, com predominância de cegos, aumenta exponencialmente. Este ano, por se tratar de ano de eleições presidenciais, e satisfazendo um desejo secreto e muito antigo dos próprios lisboetas, fartos de assistir às mesmas lengalengas protagonizadas pela chusma de pedintes que diariamente infestam, ano após ano consecutivamente desde há décadas as ruas, carruagens de metro, estações ferroviárias e fluviais desta cidade , bem como os cegos que, em hordas crescentes, há anos consecutivos tocando sempre as mesmas músicas desafinadas, sem a menor preocupação em diversificar os reportórios, melhorar a qualidade das suas performances ou progredir nas carreiras, cientes da promoção automática que lhes é concedida pela indiferença do cidadão que passa, a câmara municipal decidiu perseguir os pedintes contratando para o efeito outros pedintes que irão pedir, e expôr as suas maleitas aos primeiros, em turnos ininterruptos de 24 horas.

terça-feira, dezembro 06, 2005

Histórias de encantar VII

Era uma vez uma aldeia perto de Macedo de Cavaleiros, há muitos anos atrás. O pároco da aldeia, criatura espartana, seco de carnes e de hábitos sóbrios, nutria um estonteante, desmesurado e profundo ódio pelos vizinhos castelhanos. Ódio esse que nada tinha de surdo. Antes pelo contrário. Em cada palestra, em cada homilia, fosse em latim ou em português, o pároco da aldeia não perdia a oportunidade para demonstrar com a irrefutabilidade própria da obsessão, a certeza característica das grandes fés e a objectividade inegável do senso comum que a grande culpa dos males na terra, sobretudo na parte do reino d'el-Rei que circunscrevia Macedo de Cavaleiros, era do castelhano. Umas vezes disfarçado de mafarrico, outras de cabra montês, houve inclusive quem o tivesse vislumbrado encarnando um onagro entesado e enlouquecido perseguindo virgens p'las enconstas das serranias, o castelhano era em si mesmo a criatura mais abjecta que, por artes de distração, vingança ou ironia, Deus alguma vez pusera neste mundo, numa punição feroz a homens e natureza.
Esta estima avessa pelo castelhano, avatar do demo, chegou aos ouvidos do bispo que, além de remotos laços de parentesco com castelhanos ainda colectava rendas em olivais da Galiza. Indignado, o bispo resolveu ir, ele próprio, assistir a uma prelecção do pároco na primeira missa do mês seguinte, visto terem-lhe dito que na primeira missa de cada mês a expressão do ódio insano do pároco ao castelhano, que o consumia e que, simultâneamente, o equipava com uma inabalável energia e vontade de viver, adquiria foros de exorcisão catártica tal não era a verborreia ininterrupta devidamente acompanhada por exuberante pantomina e enquadrada em modesta cenografia montada a preceito pelo sacristão, figura sinistra e omnipresente.
Se hoje em dia acautelar segredos é difícil, naquela altura em que ainda não haviam debates para as presidenciais na televisão e o Vitória de Setúbal era um homossexual chamado Henrique que explorava um bordel montado nas ruínas romanas de Tróia onde não faltavam um frigidarium um tepidarium e, inclusive um caldarium sobre hipocaustum, naquela altura, dizia eu, agir em segredo era proeza ao alcance apenas de grandes estrategas militares. Resumindo: o sempre bem informado sacristão soube da marosca, disseram-lhe que o bispo iria assistir, ele próprio, à próxima missa disfarçado de ceifeira alentejana. O sacristão disse logo que isso era uma estupidez porque o bispo assim disfarçado seria imediatamente descoberto. O staff do bispo optou assim por disfarçá-lo de artesão. O pároco, avisado, tomou todas as providências para que em tudo o que dissesse e fizesse não deixasse transparecer o menor vestígio que pudesse conduzir a uma acusação de difamação contra os vizinhos castelhanos. Estava fora de questão qualquer manifestação cénica a acompanhar a homilia desse dia.
A certa altura da missa, dita de forma sóbria e irrepreensível, o pároco dissertava sobre a última ceia e tudo o que se passaria a seguir. As suas palavras, proferidas com uma fortíssima pronúncia bracarense, foram estas: "E Jesus, de semblante carregado, olhando em torno da mesa onde partilhava o pão e o vinho com os seus apóstolos disse:
- Em verdade, em verdade vos digo, que esta noite serei preso, torturado, humilhado, insultado e crucificado.
- Nunca! Nunca! Nunca!- bradaram desesperados, repetidamente e em uníssono os apóstolos. - Jamais o permitiremos!- gritaram.
- Calem-se, estúpidos! Deixem-me falar! - retorquiu o senhor, visivelmente agastado.
Nesta altura o bispo não se conteve e murmurou esconjuras em surdina enquanto se remexia inquieto no banco corrido da primeira fila. Jesus a chamar estúpidos aos apóstolos! Onde é que já se viu!
"- E tudo isso acontecerá - continuou Jesus olhando em volta da mesa na cara de cada um dos seus atónitos apóstolos, - porque um de entre vós me traiu. Sim! um de entre vós, por um miserável punhado de moedas de prata, cometeu a infâmia de me trair. Serei entregue por um de vós. - E com estas palavras calou-se Jesus, com os olhos marejados de lágrimas fixos em Judas.
Ao ver-se confrontado com o semblante triste de Jesus, o torpe, indigno e infame Judas, essa criatura dos infernos, indigna de viver, de respirar o nosso ar e de partilhar esta terra connosco, não se conteve e perguntou-lhe: - Pero Jesús, por que me miras así?"

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Na praia

É sempre com espanto que o puto olha para trás e vê as pegadas dele próprio que o perseguem sempre na areia húmida da maré que vaza. O puto devolve o olhar dele ao horizonte longínquo do fim da praia, esperando ver mais coisas que o façam andar para a frente, para além dos restos das armações da apanha da conquilha, redes velhas cheias de limo, conchas vazias, areia e água salgada, das carcaças de caranguejo ocas, da areia, do sol e do mar.
"Aqui é o fim do meu país" pensa o puto imaginando um mapa de Portugal com a fronteira água-terra muito bem definida, geométricamente delineada separando a terra de um mar parado, morto, imóvel, sem marés, sem correntes, sem nada.
O puto tem quinze anos, feitos hoje, e na mão leva amarrotada a carta que o pai lhe escreveu de França a congratulá-lo por esse dia que era importante. O puto continua o seu caminho, perseguido pelas pegadas que vai fazendo na areia húmida da maré que vaza. Olha para a direita e vê o ondular das dunas que o vêm acompanhando neste passeio solitário. Guina à direita e escolhe um sítio. Abre um buraco fundo, do tamanho do seu braço direito magro, queimado do sol e manchado de sal. Segura na carta e memoriza-a. Não o texto mas a textura. O papel amarrotado, manchado de tinta borrada da água salgada. Deposita a carta no fundo do buraco e vai tapando tudo com areia seca, macia e branca. No fim tem a certeza que se voltar à ilha dali a um ano, dez, vinte, jamais achará o lugar onde a carta escrita pelo pai, importante portanto, estará guardada. Assim tem a certeza de que jamais a poderá rasgar.

1º de Dezembro

Completam-se hoje 365 anos que Portugal recuperou o estatuto de nação independente, pondo termo a 60 anos de domínio castelhano.
Seguiram-se 28 anos de guerra contra as pretensões de Castela de recuperar o trono de Portugal.
O duque de Bragança, futuro rei D. João IV, era na altura comandante supremo das forças armadas compostas por portugueses e castelhanos ao serviço do rei de Castela. A Casa de Bragança era a mais rica e abastada casa nobiliárquica de Portugal (décima terceira da Península Ibérica). A decisão do Duque em aceitar encabeçar a revolta e tornar-se rei de Portugal colocou a sua cabeça a prémio durante o resto da sua vida. Para essa sua decisão contribuiu decisivamente o carácter determinado da duquesa, D. Luísa de Gusmão, autora da célebre frase "antes Rainha por um dia do que duquesa toda a vida".
Nascia assim a 4ª e última dinastia, de Bragança, que terminou após o regicídio de 1908 com a imposição da República em 1910.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Os zelotas

De quando em vez, a nomenklatura republicana fundamentaliza-se, exagera e espeta-se.
Em assomos assíncronos de patrioteira actividade doutrinária, os guardiões da pureza do estado laico e republicano decidem de vez em quando e extemporaneamente ressuscitar cadáveres ideológicos, práticas de intolerância e comportamentos pombalinos, perseguindo crucifixos e outros símbolos cristãos "ignobilmente expostos nos espaços públicos da república". Quais dráculas de bolso, vituperam com argumentos carregados de religiosa laicidade, acusando com fervor insuspeito todos os que não cumprem os preceitos da doutrina laica republicana: há que retirar os símbolos religiosos (leia-se crucifixos) das escolas. Instalou-se a caça à cruz.
Pois então, ó senhores da república, não se esqueçam de a arrancarem também das comendas e condecorações com que anualmente ataviam Bonos e outros que tais.
Amputem também, e já agora, os bracinhos ao Cristo Rei.
A seguir, presume-se, seguem-se as salgas às hortas de alhos e o encerramento das minas de prata, não vá aparecer por aí algum Lone Ranger a fazer companhia à chusma de Tontos que esbracejam e estrubucham em inquietudes congénitas, pelas pradarias, vales e montanhas cá do Reino. Singui gai ai upi upi ai...

Texto publicado em O Eleito

quinta-feira, novembro 24, 2005

Soares vs Cavaco

O ano está perto do fim. É o fim do Ano Velho. Desde sempre se associou velhice, decrepitude e morte ao ano que se aproxima do seu termo. Ao Ano Novo, também chamado de Ano Bom, correspondia uma imagem de rejuvenescimento, de recomeçar de vida, de esperança.
É nesse sentido e, pelo facto de, sendo Sagitário, ser um entusiasta inabalável de causas perdidas, que Mário Soares está tramado. Muito provavelmente, e na área dos arquétipos publicitários, chavões de marketing ou mensagens subliminares de carácter colectivo, é natural constatar que a sua provecta idade numa disputa eleitoral que se realiza em plena passagem de ano, não lhe será favorável. O seu esforço no entanto, e a vitalidade que aparenta, contribuirão decisivamente para manter a imagem de competidor e de guerreiro a que foi habituando os portugueses nos ultimos trinta anos, constituindo um exemplo sério de combatividade e de dedicação ao poder. Por outro lado, nem a sua indignação com o facto de a corrida à Presidência da República estar constitucionalmente aberta a todos os portugueses recenseados, maiores de 35 anos, nem o pavor das insónias que terá se o Prof. Cavaco ganhar, lhe granjearão mais simpatias. Antes pelo contrário. Por muito que simpatizem com o "O Bochechas", os portugueses execram o seu ar de dono-disto-tudo.
A postura de Cavaco, essa sim, é a do arqueiro. O silêncio que produz contrasta com o ruído à sua volta, constituindo uma carapaça invisível mas opaca, por detrás da qual se faz adivinhar um potencial de acção indesmentível tal como a corda do arco que se vai esticando à medida que é puxada. O arqueiro não fala, não ouve, o seu olhar trespassante está concentrado num ponto para além do alvo, no objectivo que só ele vê mas que todos adivinham, como adivinham que será o estalido da corda de couro e o silvo da flecha num instante que todos sabem que vai acontecer mas que ninguém consegue precisar ao certo.

Texto publicado em O Eleito

Na zona das bilheteiras, dia de ante estreia de Elizabethtown(*)



- Então? que é que achaste ?

- Do quê?
- Do blog!
- Ahh...achei giro, achei giro. Tem piada. Só que...quer dizer...acho que...é pá como é que hei-de dizer...
- O quê merda! Achas o quê caraças?
- Acho que, para blog monárquico, ou lá o que é, tem muitos palavrões. Acho que o tipo usa muitos palavrões.
- Palavrões ? Palavrões como ?
- É pá palavrões! Palavrões...Sei lá...caralhadas e isso.
- ...-

(*) Elizabethtown rima com Lynard Skynard

quinta-feira, novembro 10, 2005

Brandos e acostumados

Os portugueses sorvem a "pré campanha para as presidenciais" como se de mais uma telenovela se tratasse. É como se fosse uma espécie de "Quinta das celebridades" ataviada a rigor. Agora a sério:
Quem é que no seu perfeito juízo quer ser Presidente desta merda? Quem é que no seu perfeito juízo aceitaria ser Rei desta merda? Brandos e acostumados, os portugueses resignam-se ao seu futuro permanentemente adiado. A História dos seus antepassados, de que todos somos herdeiros e descendentes dos seus protagonistas, fala tão alto, grita tão forte que até um dos candidatos se arroga qualidades únicas para, encostado a 800 de monarquia, se julgar como único candidato viável ao mais alto cargo da Nação. E quem são eles? Os outros ? Cavaco Silva, o mastigador, que gere silêncios como uma gaja boa gere as partes do corpo que mostra ou esconde. Manuel Alegre, entalado entre a realidade e a poesia, é o cavaleiro solitário, o D. Quixote romântico que brande o montante na defesa de absurdos como a fidelidade à palavra dada, a coragem e o desassombro.
Jerónimo de Sousa, em peixeiradas de sopeira alucinada e mal fodida quer o quê? As conquistas de Abril ? Outravez? E frei Louçã, o seminarista, sempre a pregar, a pregar, a pregar, a pregar.
Foda-se.
E são estes os candidatos à Presidência da República ? Mas que merda vem a ser esta?

Os filhos da Revolução

A Revolução Francesa é tida como o grande marco da história contemporânea. Com tudo o que implicou, desde a execrar a aristocracia, passando pela guilhotina qualquer garganta dissidente ou dissonante, culminando na Civilização actual regida por merceeiros sem escrúpulos que apregoam aos quatro ventos a javardeira que pretentem impingir ao mundo como sendo a salvação suprema.
O consumo adquire foros de religião, a medianização é alcandorada a objectivo máximo, a mediocridade é promovida aos quatro ventos, a ecologia constitui-se ciência e o Homem é reduzido ao número; de identidade, de contribiunte, de cheque.
É a glorificação da República.
A Idade Contemporânea fede por todos os lados, é ameaçada à porrada no berço que a viu nascer.
A França, mais uma vez, exemplifica a asneira, ergue-a como farol e sintetiza em três semanas de vandalismo o erro de décadas de ignorância e altaneira estupidez.

terça-feira, novembro 01, 2005

Foi há 250 anos



O texto que se segue foi-me enviado pela Sancha por email e é transcrito do livro de João Duarte Fonseca "1755 O Terramoto de Lisboa."

"Uma curiosa carta proveniente de Mazagão (El Jadita) relata os efeitos do tsunami naquela praça portuguesa do Norte de África, dizendo que após a maior atribulação causada pelo sismo, "o mar com um movimento horroroso, subindo pelas rochas, e arrombando os portos, entrou dentro do terreiro da Praça, onde quando se retirou deixou muitos peixes...
O alcaide-mor desta Praça, que o mar arrebatou e levou consigo... O tornou a meter vivo dentro da Praça por um postigo.
Administraram-se-lhe logo os sacramentos dentro de oito dias, depois de haver vomitado areia, búzios, conchinhas e algum sangue pisado, convalesceu por mercê de Deus".

segunda-feira, outubro 31, 2005

Felicitações

Por tu graal felicita Espanha pelo nascimento de Leonor de Borbon, herdeira do Trono Espanhol.
Nasceu à 1:46 da madrugada, de cesariana, com 3,450 Kg e 47 cm.

Números

€: 2.694.539.529,00 É a verba atribuida pelo Orçamento Geral do Estado para os Serviços de Apoio, Estudos e Coordenação da Presidência do Conselho de Ministros...
É quase tanto como o custo do aeroporto da OTA, orçamentado para ser gasto em um ano.
Lê-se assim: dois mil milhões seiscentos e noventa e quatro milhões, quinhentos e trinta nove mil quinhentos e vinte e nove Euros.
O que será que se faz, o que é produzido, que actividades extraordinárias serão realizadas pelos referidos serviços da República que justifiquem tal gasto? E porque é que ninguém chamou a atenção para isso ? Hum ?
Tirado daqui.

sábado, outubro 29, 2005

Aniversário II

Parabéns ao Frangos para Fora, um blog politicamente incorrecto, pouco dado a pandemias.
Fez ontem dois anos.

Aniversário

Dia 27 o Rua da Judiaria fez 2 anos.
Dele escolhi este post. Pela sua actualidade e pelo seu significado.
Parabéns Nuno Guerreiro.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Deprimente

É como facilmente se adivinha que virá a ser a próxima campanha para a Presidência da República.
As confusões de Mário Soares, relatadas no Público de ontem, não são compatíveis com uma figura que se queira para chefe de Estado, a não ser na República Portuguesa.E isso diz muita coisa.
A insistente identificação do Partido Socialista com este candidato, reafirmada insistente e publicamente por Jorge Coelho nos últimos dias, diz o resto.

Responde Outro Dos Monárquicos de Serviço

Em resposta ao repto lançado pelo Pedro Santos Cardoso: a possibilidade de a monarquia alguma vez voltar a ser o regime em vigor em Portugal, não significa que não o possa ser num Estado laico. Muito antes pelo contrário. No entanto, não se deve confundir Estado laico com Estado persecutório, que foi o que caracterizou o arranque do Estado republicano em Portugal, e que, pelos vistos, ainda se mantém hoje em dia graças a alguma empenhada militância republicana fundamentalista.
Neste ponto, inteiramente de acordo com JMO.
No que diz respeito à amplitude dos poderes do Rei, estes obedeceriam a um quadro legal, formulado dentro dos princípios de uma monarquia constitucional: chefia do Estado e das forças armadas, primeira figura representante de Portugal em qualquer acto oficial quer em território nacional quer no estrangeiro, constituindo uma referência nacional suprapartidária.
Neste aspecto, também de acordo com JMO.
As duas questões levantadas por Pedro Santos Cardoso, ao inquirirem da laicidade do Estado e da limitação dos poderes do Rei, são muito bem escolhidas e reflectem claramente a essência de grande parte do argumentário republicano na sua génese. Falta uma: a questão da pertinência ou não do direito à propriedade. O regime republicano em Portugal nunca foi capaz de reconhecer em absoluto o direito à propriedade. O quadro legal do arrendamento, seja ele urbano ou rural, é um reflexo disso mesmo. Mas isso fica para outro dia.

Publicado em O Eleito

terça-feira, outubro 25, 2005

Foi há 858 anos

........................................O Cerco de Lisboa, por Roque Gameiro

Hoje terá lugar em Lisboa, mais propriamente no Castelo de S. Jorge, uma reconstituição histórica do cerco e conquista de Lisboa protagonizada por mim e pelas minhas tropas há uma porrada de anos atrás, culminando com a entrada solene na cidade em 25 de Outubro de 1147.

(...) É então que, por sua vez, os nossos se empenham mais no trabalho e se lançam a escavar um fosso subterrâneo entre a Torre e a Porta de Ferro, com o fim de deitarem abaixo a muralha. Porque estava demasiado acessível aos inimigos, ao ser descoberta depois de iniciado o cerco (...)

Como vêem, já naquela altura a panca por túneis eufemísticamente designados por "fossos subterrâneos" dominava a mente lusa obcecando povos e alcaides...

A quem possa interessar o acontecimento, pode ler mais aqui.

Velhos Hábitos

Quase sempre que se põe em causa a república, ou seja, o regime político em vigor em Portugal desde 1910, que se eleva um coro surdo de protestos a meia voz, nada de grande gritaria, como se o simples facto de questionar o regime conduzisse a inéditos esforços intelectuais conducentes a rebuscadíssimos argumentos e contra pontos, cansativos portanto, para os quais as mentes indígenas além de não se encontrarem devidamente treinadas e preparadas, não têm a menor atracção ou vocação; os portugueses habituaram-se a ser republicanos. Ponto. São como os velhos hábitos: temo-los sem saber muito bem porquê mas achamos difícil largá-los.
Isso de questionar o regime é "voltar para trás", a monarquia é "coisa do passado", temos é que andar para a frente e o resto é conversa. Mesmo que o andar para a frente tenha conduzido Portugal a um quase beco sem saída, há que manter inquestionável a natureza do regime.
No entanto, se isto tresanda a antolhos, cuidai-vos que vos tomam por bestas.
Questionar o regime tornou-se impensável. Mesmo com o exemplo flagrante de Espanha, que em 1975 estava em muito piores condições económicas e sociais do que Portugal e que, em trinta anos, recuperou de um atraso carregado de atavismos com uma determinação e fé tais que isso tem indiscutivelmente que nos obrigar a pensar. É que, quer se queira quer não, uma grande diferença separa de facto as duas democracias ibéricas. E essa diferença, é o regime.
A abordagem dos mesmos problemas, sejam eles o combate aos incêndios, a divulgação cultural ou/e a projecção internacional como partes integrantes de uma estratégia concertada de desenvolvimento económico, tem sido feita de modo completamente diferente nos dois países.
E, para cúmulo, há por aí muito republicano bem instalado no poder e descaradamente partidário da passagem para Espanha de importantes, senão vitais, centros de decisão fundamentais para o desenvolvimento do nosso país. Para não falar dos desesperados que sonham com a anexação pura e simples, renunciando em definitivo à independência e soberania nacionais.

publicado hoje em O Eleito

segunda-feira, outubro 24, 2005

Solidariedade emplumada

Face à escabrosa escalada de violência histérica e intempestiva, acompanhada de não menores manifestações descontroladas de verborreia compulsiva e incontinente escabeche que vem assolando o planeta em toda a extensão do seu perímetro alado, daqui envio um sincero e honesto abraço solidário aos Pássaros, ao Frangos para Fora e ao Pombo Incontinente.

Contradições da República

Em Janeiro de 2006, mais uma vez, os portugueses serão chamados às urnas para elegerem o chefe de Estado de Portugal. Desde as primeiras eleições para a Presidência da República, após o pronunciamento militar de 25 de Abril de 1974, que os candidatos eleitos são-no invariavelmente pela segunda vez, cumprindo segundo mandato.
Provavelmente sê-lo-iam de novo se existisse a possibilidade de um terceiro mandato, e por aí fora. E isto porque, na sua essência, os portugueses são profundamente monárquicos. Durante anos, todavia, a propaganda republicana encarregou-se de explicar que isso era mau. Mesmo durante a II República, os tais famosos 48 anos de ditadura foram-no em República.
No entanto, se até agora e após (repito) o pronunciamento militar de 25 de Abril de 1974, um simples presidente de câmara podia ser eleito e re-eleito as vezes que se quisesse, o mesmo nunca foi possível com o mais alto magistrado da nação. Porquê? Porque o regime republicano é, em si mesmo e acima de tudo, profundamente contraditório.

Publicado hoje em O Eleito
 
Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue!