segunda-feira, março 11, 2013
Regresso
sexta-feira, outubro 05, 2012
5 de Outubro de 2012
quinta-feira, maio 10, 2012
Ainda a treta do (des)acordo ortográfico de 1990
quarta-feira, abril 25, 2012
25 de Abril sempre ?
Curiosamente ainda há pouco tempo ambos protagonizaram dois episódios confrangedores: Soares, apanhado a circular num veículo a 199 km/h na Autoestrada encolheu os ombros e disse que quem pagava a multa era o Estado, ou seja, nós os contribuintes. Alegre deu graças a Deus por não ter ganho as presidenciais e ser assim poupado à humilhação de assistir à chegada da troika enviada pela "Europa" para pôr ordem cá no estabelecimento. Olha a sorte que ele teve!
sábado, março 24, 2012
Vamos a eles
Um estudante de computação de nome João Ricardo Rosa desenvolveu um script que ao ser instalado no Firefox corrige automáticamente os textos escritos em português "incorreto" para português correcto. O processo é simples:
1. Aceda ao endereço https://addons.mozilla.org/pt-pt/firefox/addon/foxreplace/ e “click” no botão “Transferir agora/Download Now”) e “Instalar Agora/Install Now”.
2. Re-inicie o Firefox.
3. No menu do Firefox, “click” na opção “Ferramentas/Tools”), seleccione “FoxReplace” e abra o sub-menu “Opções do FoxReplace/Options”).

4. Irá abrir uma nova “caixa” com as opções do FoxReplace.

5. Copie o endereço http://dl.dropbox.com/u/4967399/FoxReplace.xml e cole-o na linha em branco onde diz URL (como vê na imagem). Assinale as caixas de verificação “Update from Url/Actualizar de Url” e também “Auto-replace on page load/Substituir ao carregar página”. Por fim, “click” no botão “Ok”.
E pronto, já se pode, por exemplo, ler o Expresso on-line escrito como deve de ser.
Obrigado ao site http://ilcao.cedilha.net pela divulgação desta arma de arremesso cuja receita aqui transcrevi na íntegra.
segunda-feira, março 19, 2012
Os livros convertidos em produto de mercearia
a mercadoria neste caso são as palavras, devidamentente acondicionadas em livros. Se se venderem as mesmas histórias escritas com menos letras - tan tan nanãããã - ganha-se mais dinheiro. Ou seja, aliviando as palavras de letras cuja utilidade sumáriamente se elimina, vende-se a mesma embalagem de palavras, pelo mesmo preço mas mais leve.
No fim de contas, o processo de transformação de livrarias em mercearias e de editores em marçanos atingiu uma evolução no nosso país que é digna de destaque internacional.
terça-feira, fevereiro 07, 2012
O melhor texto de Rui Tavares
Não tanto pelo conteúdo mas mais pela forma; não foi escrito conforme os preceitos do senhor professor doutor João Malaca Casteleiro, apesar da nota de pé de página dizer que sim.
sábado, fevereiro 04, 2012
Actualidades da República
O primeiro foi a divulgação nos média de referência do manifesto pro-monarquia subscrito por Gonçalo Ribeiro Telles, Miguel Esteves Cardoso e Pedro Ayres de Magalhães, entre outros. Obrigado.
O segundo episódio pertence à esotérica esfera do ininteligível, tecido mais ou menos orgânico que envolve caridosamente os cerebelos da inteligentzia indígena protegendo-a de eventuais choques violentos com a realidade e as merdas e que consiste no Exercício do Poder. A saber: o Doutor Vasco Navarro da Graça Moura resolveu pôr em ordem a casa que lhe entregaram e mandou às urtigas, para não dizer para o caralho, aquela merda inclassificável que dá pelo nome de Acordo Ortográfico. Tomara ao secretário da merda do estado em que está a cultura nativa ter um pintelho que fosse dos que dignamente recobrem os cojones do Doutor Vasco Navarro da Graça Moura, por exemplo. A talho de foice refira-se o total desnorte e falta de objectivos do inseguro secretário geral do partido socialista, condenado que está a pilotar o carro vassoura da volta a Portugal da novela do Obama de Massamá, o camisola amarela. O terceiro episódio consiste no palavreado da autoria do bibliotecário da Marmeleira que o Públicou deu à luz na edição de hoje e que tem por enigmático título "Perguntas que não levam a parte nenhuma II", do qual extraí, com cautelas redobradas e pinças de ourives, as expressões entre aspas que estão na introdução deste texto sendo que as mesmas se referiam a blogues-e-autores-de-blogues-e-outros-que-tal como este se estão positivamente cagando para as suas questões metafísicas.
Está frio em Portugal, mas o sol brilha.
domingo, novembro 06, 2011
Os Evangelhos
Depois aprendi que eram Escrituras Sagradas, o que vem mais ao menos a dar no mesmo mas de sexo diferente. Fosse como fosse, era coisa séria.
Com o decorrer dos anos, da vida e doutras coisas, o tema tornou-se coisa apetecida por crentes, agnósticos e ateus; o segundo a dar sinal visível foi Saramago que, apercebendo-se do potencial mediático que o Salmão Rushdie revelou atacando a fé dos crentes seus conterrâneos, logo se apreçou a escrever um "Evangelho segundo Jesus Cristo" que lhe garantiu de imediato um lugar na grelha de partida para o grande prémio do Nobel, o gajo que inventou a pólvora.
Anos depois, Dan Brown retoma o filão e parte a loiça toda com o "Da Vinci Code", contribuindo de forma decisiva para uma retoma fantástica do turismo na Europa, nomeadamente em França e no Reino Unido. Com o seu último livro José Rodrigues dos Santos volta ao frigorífico e recupera o gosto pelas carnes frias revelando como verdades absolutas várias constatações entre as quais o facto de Jesus não ser cristão mas sim judeu, que tinha irmãos, que não ressuscitou, que não era filho de uma virgem, etc., etc., etc. A Igreja Católica através da contestação pública aos temas abordados no livro, numa notória publicidade pro bono, dá sinais de uma grande fragilidade ao mesmo tempo que acerta o passo com a sinistra herança da Congregação da Doutrina e da Fé, cujo chefe máximo era precisamente o cardeal Ratzinger, actual Papa.
Rodrigues dos Santos, por seu lado, voltou a ganhar uma notoriedade que jamais teria se só tivesse escrito livros a vida inteira, continuando a publicitar despudoradamente a marca MontBlanc, volteando frente às câmaras um exemplar sempre que pode.
quarta-feira, outubro 05, 2011
A data que hoje
se comemora deveria ser a do 868º aniversário da Fundação de Portugal. Mas para a maioria da população, com os miolos assepticamente higienizados por 101 anos de propaganda republicana, não é.A data que o regime pretende que a população comemore hoje é a do 101º aniversário da sua própria implantação, num exercício estéril de mergulhar no universo através do próprio umbigo.
As dificuldades económicas da altura, uma altura em que Portugal tinha pela frente um conjunto inadiável de reformas económicas e sociais, a pouca credibilidade e aceitação que o "ideal republicano" tinha junto da maioria da população (nunca ultrapassando 7% dos votos) e a emergência de uma classe média urbana foram os três apoios principais para a implantação, à lei da bala, do regime republicano. Perante a ineficácia governativa do rotativismo dos dois principais partidos políticos, o Partido Regenerador e o Partido Progressista (bem diferente da eficácia demonstrada entre 1878 e 1890, em que Portugal saltou para a frente da Europa em várias aspectos do seu desenvolvimento chegando a ser, no final do sec. XIX, o país europeu com maior cobertura de caminho de ferro, por exemplo) o rei D.Carlos e o 1º Ministro João Franco implementaram em 1907 a Ditadura, que deveria durar até à realização de eleições em Maio do ano seguinte. Há que esclarecer as hostes para o significado de Ditadura no contexto da altura: significava que os poderes do Parlamento seriam suspensos temporáriamente para a implementação de medidas eficazes urgentes e pouco compatíveis com as diatribes e dislates de deputados pouco empenhados em governar...
É claro que à medida que as opções governativas de João Franco iam dando resultados e a data das novas eleições se aproximava, maior era o pânico da minoria republicana ao ver fugir-lhe em definitivo a conquista do poder. Prepararam então o assalto ao poder pela via das armas, iniciado com o atentado de Fevereiro de 1908. O que se passou nos dezasseis anos que decorreram após a implantação da República em 1910 e o Estado Novo de 1926 resume-se em poucas palavras: regabofe, banditagem, descalabro, censura, perseguições e caos económico.
Entre 1926 e 1974 a República manteve a censura as perseguições e o atraso generalizado do país até ao boom económico iniciado nos anos 1950 com as exportações do continente para as províncias ultramarinas. É certo que Oliveira Salazar fez um excelente trabalho contabilístico nos 10 primeiros anos do regime republicano do Estado Novo mas nada mais.
Em 25 de Abril de 1974 um pronunciamento militar de oficiais de média patente ajudou a pôr fim ao regime republicano do Estado Novo, que por si só já estava a cair de podre.
Entre 1974 e 2011, a República Democrática mantém um regime hipócrita, em que as nomeações ao Parlamento são ditadas de cima. Com a implantação da República deixou de existir a democracia representativa por círculos uninominais instituída por D. Pedro V, passando os deputados a ser nomeados pelos dirigentes partidários num processo do tipo de "tu que tens mau feitio vais representar Castelo Branco e tu, que tens cara de vaca, vais representar os Açores" etc..
Neste momento, nas condições em que Portugal se encontra, é perfeitamente legítimo questionar
a razão de ser de um regime que, com os 101 anos de existência que hoje perfaz, tão pouco fez por Portugal e pela Democracia Representativa.
sábado, setembro 24, 2011
Carta do Egas Moniz. Recebida ontem por email
Ou Afonsinho, como eu te chamava no tempo em que te educava junto às margens do rio Douro, quando foi do milagre. Eras tão pequenino e enfezadinho.
Afonsinho, em que estavas a pensar quando mais tarde te zangaste com o teu Tio e fundaste Portugal?
Olha só no que deu essa tua travessura:
No exame final de 12º ano, és apanhado a copiar, chumbas o ano; o primeiro-ministro fez o exame de inglês técnico em casa, mandou por fax e é engenheiro.
Uma adolescente de 16 anos pode fazer livremente um aborto, mas não pode pôr um'piercing' (um prego nas trombas, mas em inglês diz-se assim).
· Um jovem de 18 anos recebe 200 € do Estado para não trabalhar; um idoso recebe de reforma 236 € depois de toda uma vida do trabalho.
Um marido oferece um anel à sua mulher e tem de declarar a doação ao fisco. O mesmo fisco penhora indevidamente o salário de um trabalhador e demora 3 anos a corrigir o erro.
Nas zonas mais problemáticas das áreas urbanas existe 1 polícia para cada 2.000 habitantes; o Governo diz que não precisa de mais polícias.
Um professor é sovado por um aluno e o Governo diz que a culpa é das causas sociais.
O café da esquina fechou porque não tinha WC para homens, mulheres e empregados. No Fórum Montijo, o WC da Pizza Hut fica a 100mts e não tem local para lavar as mãos.
O governo incentiva as pessoas a procurarem energias alternativas ao petróleo e depois multa quem coloca óleo vegetal nos carros porque não paga ISP (Imposto sobre produtos petrolíferos).
Nas prisões, são distribuídas gratuitamente seringas por causa do HIV, mas é proibido consumir droga nas prisões!
Um jovem de 14 anos mata um adulto, não tem idade para ir a tribunal. Um jovem de 15 leva um chapada do pai, por ter roubado dinheiro para droga, é violência doméstica!
A uma família a quem a casa ruiu e não tem dinheiro para comprar outra, o estado não tem dinheiro para fazer uma nova, tem de viver conforme pode. 6 presos que mataram e violaram idosos vivem numa cela de 4 e sem wc privado, não estão a viver condignamente e aí aassociação de direitos humanos faz queixa ao tribunal europeu.
Aos militares que combateram em África a mando do governo da época na defesa do território nacional não lhes é reconhecido nenhuma causa nem direito de guerra, mas o primeiro-ministro elogia as tropas que estão em defesa das Pátrias DO KOSOVO, AFEGANISTÃO E IRAQUE, não da Pátria que fundaste.
Começas a descontar em Janeiro o IRS e só vais receber o excesso em Agosto do ano que vem; não pagas às finanças a tempo e horas, passado um dia, já estás a pagar juros.
Fechas a janela da tua varanda e estás a fazer uma obra ilegal. Constrói-se um bairro de lata e ninguém vê.
Se o teu filho não tem cabeça para a escola e com 14 anos o pões a trabalhar contigo num ofício respeitável, é exploração de trabalho infantil. Se és artista e o teu filho com 7 anos participa em gravações de telenovelas 8 horas por dia ou mais, a criança tem muito talento, sai ao pai ou à mãe!
Numa farmácia pagas 0.50€ por uma seringa que se usa para dar um medicamento a uma criança. Se fosses drogado, não pagavas nada!
Afonsinho, de novo te pergunto e por favor responde-me: em que estavas a pensar quando fundaste Portugal? Carago, foi uma diarreia mental que tiveste, confessa lá que foi. Agora todos estão desiludidos. Já te falarei um dia na corrupção. O Gonçalo Mendes da Maia que tu tanto criticavas por querer tudo, era um ingénuo, não era nada ao lado desta gangada, nossos descendentes.
Se vires a senhora tua Mãe, dá-lhe recados.
Um beijo do teu servidor sempre fiel,
Egas Moniz
sexta-feira, setembro 02, 2011
Os extremistas e o Ricardo Carvalho
Ora extremistas há-os em todo o lado e para todos os gostos.
Como eu não me considero um extremista, não simpatizo com extremismos e considero o extremismo um sintoma, mais um, da manifesta falta de inteligência e bom senso que se vai propalando por este planeta afora a uma velocidade crescente, darei a minha contribuição para lhe tolher a progressão não divulgando este mail.
Nem aos meus amigos muçulmanos, que por acaso até nem tenho.
Posto isto, há que encaralhar as hostes com atitudes pragmáticas próprias de um frontalismo actuante, e sempre incomodativo, reforçado com frases do tipo das que são tão caras ao nosso povo tais como as do teor que se seguem:
- Viva o Rei! e mai nada!
- S. Bento nos valha q'a selecção só come palha! -
- Ó Ricardo (Carvalho) vai pró caralho! -
Posto isto, que é tudo uma redundante estupidez mas que me apeteceu pôr aqui e como este espaço é meu e eu ponho aqui o que bem me apetecer ao contrário do Miguel Sousa Tavares que não põe nada em net nenhuma, desejo-vos a todos um excelente fim de semana e que Deus queira que não se note a falta do Ricardo Carvalho na defesa. Caso contrário sugiro ao Paulo Bento a adopção imediata da nacionalidade cipriota.
quarta-feira, julho 06, 2011
Se me sair o euromilhões
sexta-feira, julho 01, 2011
Perguntas difíceis
quarta-feira, junho 29, 2011
Era uma piada...
Imaginem que se em vez de José Sócrates se chamasse José Maria, ia fazer o quê para Paris? Hã? Vá lá, então então, não vale ordinarices!
terça-feira, junho 28, 2011
Terça Feira de cinzas
Agradeço ao Carlos Vaz Marques que, entre os sorrisos que afivela durante as habituais piruetas que faz nos espaldares propositadamente montados em estúdio enquanto entrevista personagens intransmissiveis, me deu a conhecer um pouco mais do escritor que classificou como infantil a arquitectura da praça de touros do Campo Pequeno.
No que diz respeito ao momento político que atravessamos, chamo a vossa atenção para a hipótese de pelo menos 10% dos novos secretários do estado em que se encontra esta merda não perdurarem nos respectivos cargos mais do que 6 meses que é mais coisa menos coisa o tempo de gestação de um arrependimento profundo.
terça-feira, maio 17, 2011
Histórias de encantar IV - 2ª edição
O local onde se realizaria o casamento era uma fazenda grande e muito antiga, na família do noivo havia várias gerações, bem no interior do pantanal. A viagem seria longa e por isso iam preparados para lá pernoitarem. A sogra do meu tio Henrique também ia.
A certa altura da viagem, a minha tia e a mãe dela ressonavam profunda e alternadamente, dando a impressão que o carro se transformara num barco, subindo e descendo imensos vagalhões invisíveis à medida que o ronco delas se intensificava e alternava. Com os movimentos que fizera enquanto dormia, a sogra do meu tio Henrique descalçara um sapato que, com outros movimentos seguintes mas ainda a dormir, fora empurrando para debaixo do banco do meu tio Henrique. A certa altura, o meu tio Henrique sentiu que o seu pé tocara em qualquer coisa. Enfiando a mão por debaixo do banco sentiu, e adivinhou de imediato, os contornos e textura inconfundíveis de um sapato feminino de cetim e salto alto. Aquilo só poderia ter sido esquecimento de uma das últimas parceiras de regabofe e fodilhanço a quem ele dera boleia.
Da última vez quase tinha sido descoberto quando a mulher, ao baixar a pala para se ver ao espelho, levara nas trombas com um par de cuecas de renda pretas.
- Aquele cabrão-, vociferara de imediato o meu tio Henrique arrancando as cuecas da cara da mulher e aventando-as pela janela fora.
- Aquele mecânico de um cabrão, é a terceira vez que arruma ali a puta da camurça dos vidros. Filho da puta.
- A camurça dos vidros ? - , repetira a mulher tentando recompôr-se do cagaço que aquela cegueira súbita seguida de impropérios e corrente de ar lhe provocara.
- Sim, filha. A camurça que eles usam para limpar os vidros do carro por dentro. É diferente das que usam do lado de fora.-
- Ahh..Suspirou sossegada a mulher. - Se calhar devias mudar de mecânico.-
Mas agora era diferente. Nenhum mecânico, por muito paneleiro que fosse, usaria sapatos de cetim e salto alto. Certificando-se que a mulher dormia profundamente, olhou no retrovisor e confirmou que a sogra também dormia. Muito devagar abriu o vidro e, acto contínuo, arremessou fora o dito sapato.
Suspirando de alívio, fechou o vidro até meio, recostou-se no banco, acendeu um cigarro e, confiante, sorriu. Estava safo.
Chegados ao local do casamento assistiu, impávido e sereno, à maior descompostura que alguma vez presenciara a mulher dar em alguém, na pessoa da sua própria sogra.
segunda-feira, maio 16, 2011
Histórias de encantar II - 2ª edição
Embora vivessem na mesma floresta, nunca se dera o acaso de se encontrarem.
À medida que os anos decorriam, as probabilidades de isso acontecer cresciam de forma assustadora. Um dia encontraram-se.
O urso-formigueiro, de indole aprazível e comunicativa, encetou as apresentações:
- Ora viva! Quem és tu e como te chamas, que nunca te vi por aqui?- inquiriu o urso-formigueiro exibindo num esgar um olhar de vaca alucinada.
- Eu ? - disse incrédulo o cão-lobo. - Eu sou um cão-lobo .
- Um cão-lobo? E porque carga de água te chamas assim, ó cão-lobo? - retorquiu, berrando confuso e impaciente, o urso formigueiro aproximando as fauces descarnadas e babantes a dois centímetros do focinho do cão-lobo, que permanecia impassível.
- Ora, porque o meu pai era um cão e a minha mãe era uma loba. E tu, como te chamas?- retorquiu o cão-lobo.
- Eu ? Eu cá sou um urso-formigueiro! - afirmou com orgulho, endireitando-se, o urso -formigueiro.
- Estás a gozar...? - retorquiu-lhe o cão-lobo, virando-lhe as costas e partindo.
A confusão permanece, até hoje, no espírito do urso-formigueiro.
Anos decorridos, nunca mais se encontraram.
quinta-feira, maio 12, 2011
Histórias de encantar I - 2ª edição
Era uma vez um naufrágio. A ele sobreviveram dois tipos, ambos feridos: um ficara totalmente cego e o outro ficara cego de um olho e só via pelo cantinho do outro olho.
Tendo conseguido trepar para um escaler equipado com um par de remos e um leme à popa, o que via pelo cantinho do olho decidiu que o melhor para ambos seria ir ele ao leme e o cego que remasse. E assim foi. Ao fim de uma semana porém, o cego manifestava evidentes sinais de cansaço pelo que decidiram trocar. Passou o cego para o leme e o que via pelo cantinho do olho pegou nos remos. Os tubarões escoltavam a desgraça. De vez em quando o que via pelo cantinho do olho olhava com isso para trás e ia dando orientações ao cego sentado na popa do escaler, ao leme.
“Mais para a esquerda” ou “mais para a direita” berrava o remador que isso de “bombordo” e “estibordo” era conversa de navegantes e eles não passavam de meros candidatos a 1º Ministro, sobreviventes de umas férias num cruzeiro. A certa altura, num intervalo entre duas olhadelas, o escaler embateu em qualquer coisa o que fez com que o punho de um remo saltasse da mão e acertasse precisamente no cantinho do olho são do remador cegando-o por completo. “É o fim!!” berrou o remador. O cego pensou que tinham chegado à costa, e de pronto saltou do barco berrando “Boa! Boa!”.
Os tubarões mostraram-lhe quão errado estava.
O que via pelo cantinho do olho, com aquilo tudo de remar e olhar para trás, do impacto, do remo a saltar, a acertar-lhe no cantinho do olho e a cegá-lo ficou sem perceber patavina do que se passava. Ao ouvir o cego saltar para a água gritando “Boa!” julgou que tinham chegado à costa e saltou. Segundo e derradeiro esclarecimento por parte dos tubarões.
Silêncio no oceano.terça-feira, maio 10, 2011
Histórias de Encantar III - 2ª Edição
Um dia foram lá jantar a casa uns tios. É claro que durante o jantar o Jaime (é assim que se chama o meu irmão) fartou-se de fazer merda; interrompia as conversas, fazia perguntas parvas, tossia altíssimo, dava peidos inacreditáveis, mexia nas pernas da criada e, sempre que podia e ninguém via, pontapeava-me nas canelas e nos joelhos. A certa altura, enquanto acontecia a segunda volta do rosbife com batata palha e esparregado, a tia, inspirada pela alucinante sucessão de asneiras que testemunhara durante o jantar, sugeriu aos meus pais que o Jaime passasse a frequentar a catequese.
- Fazia-lhe lindamente.- insistia ela perante a incredulidade da minha mãe e a indiferença do meu pai.
O Jaime, que julgava que a catequese era uma espécie de recreio santificado em que se entrava para se poder massacrar mais alguém para além da família e dos colegas da escola, seguia a conversa com a atenção de um cão sentado em frente de alguém a comer pão com manteiga.
Quando as visitas se foram embora, a decisão estava tomada. O Jaime iria para a catequese.
Eu iria com ele, para prevenir males dobrados.
Quando chegámos ao sítio da catequese, que era numa sala pequena numa dependência da Basílica da Estrela, o Jaime escolheu de imediato um lugar na primeira fila de cadeiras, abrindo caminho à pisadela e ao encontrão. Eu acabei por ficar lá atrás.
Estávamos todos sentados, quando entra o senhor Padre.
Subindo a um estrado que ficava à nossa frente, atira com uma pasta enorme para cima da mesa e lança um olhar fulminantemente periférico, cuja intensidade jamais esquecerei, àquela plateia de putos sentados e cheios de sono.
De súbito, adivinhando no meu irmão Jaime a candura de um novato, fita-o nos olhos e atira-lhe berrando:
- Onde está Deus?-
Fez-se um silêncio escuro, frio e profundo.
- Onde está Deus ?- insistiu o senhor Padre, sem desfitar o meu irmão.
Quando cheguei a casa, a minha mãe perguntou-me:
- O teu irmão ? Não veio contigo?-
- Não.- respondi.- Ele saiu primeiro.
Depois de virarmos a casa do avesso encontrámos o Jaime no quarto, dentro do armário.
- Que é que estás aí a fazer?- berrou o meu pai furioso por ter tido que largar o cigarro, o jornal a televisão e o camandro para aderir ao pequeno grupo de caçadores de broncos.
- É que... É que... - balbuciava o cabrão, trémulo e lacrimejante.
O meu pai segurou-o por um braço e arrastou-o para fora.
- É que o quê? Hein ? Responde imediatamente. Ouviste?
- É que Deus desapareceu e o senhor Padre pensa que fui eu.

