quarta-feira, março 02, 2005

Xeque-mate

Na última noite de Fevereiro assisti na RTP 1 a uma coisa extraordinária.
Na sequência de um documentário interessante, todavia sucinto e ligeiro, sobre Maria Madalena, Jesus e o Código Da Vinci, que incluia troços de entrevistas com Dan Brown e Umberto Eco entre outras , o surreal acontece: Márcia Rodrigues apresenta em plena Biblioteca Real de Mafra os "convidados para o debate desta noite".
A saber: A Dra. Helena Barbas, considerada uma especialista em Portugal sobre Maria Madalena, O Padre Carreira da Neves, O Padre Anselmo Borges, professor universitário e o Dr. João César das Neves (sim, esse mesmo, o que conseguiu numa entrevista a' O INDEPENDENTE estabelecer uma relação qualquer entre a sida e os pastéis de nata) .
Márcia Rodrigues e os convidados pareciam atarrachados ao chão, em volta de uma peça de dominó, tal não era o contraste entre a magnificência do espaço escolhido e a sua, deles, condição de mortais. Como a Dra. Helena Barbas era a única minimamente preparada para poder dissertar sobre o assunto, o resultado desta "partida simultânea" foi um sumarissimo xeque mate aos restantes convidados.
Só para dar uma ideia :
Pe. Carreira das Neves - Começou por declarar que toda a história do romance de Jesus com Maria Madalena não passava de um monte de patranhas, que ela não passava de uma prostituta, etc., para no fim reconhecer que, sim senhor tinha lido nos Evangelhos gnósticos de Tomé algumas referências inaceitáveis relativamente à demonização da mulher.
Pe. Anselmo Borges - Na sua primeira intervenção chamou "igreja selvagem" ao conjunto de opiniões sobre o cristianismo diferentes da ortodoxia de Roma, no fim acabou por pôr em causa o celibato dos Padres e a proibição do uso do preservativo.
Dr. João César das Neves - Começou por negar a inquisição, alongou-se sobre o facto de o livro constituir mais uma perseguição aos cristãos e dissertou amplamente sobre a importância de se discutir ou não o mau hálito do Dr. Jorge Sampaio, Presidente da República, tendo acabado a sua participação no debate com a expressão vazia de quem não tinha a menor ideia de onde estava nem o que ali, onde quer que fosse, estava a fazer.
Dra. Helena Barbas - Sendo a única com preparação para o debate, ouviu todos os dislates possíveis e imaginários sem nunca ter cedido à tentação irresitível de desatar a rir às gargalhadas; interveio pontualmente para dissipar a enorme confusão que fumegava das cabeças dos restantes convidados; chamou a atenção para uma série de "pormenores", amplamente documentados, que revelaram mais uma vez a tendência irresistível que a ortodoxia de Roma tem para manipular a história a seu bel prazer e de acordo com as suas conveniências, acabando por passar um atestado de incompetência aos restantes presentes, retirando-lhes toda e qualquer credibilidade face à veleidade que possam vir a ter de sonhar em abordar o início de qualquer dissertação sobre o papel de Maria Madalena na história do cristianismo.
O programa acaba com uma panorâmica inexplicável ao tecto da Biblioteca, fruto talvez do embasbacanço que se apossou do operador de câmara e do transe colectivo que, na altura, reinava na régie.

3 comentários:

Flávio disse...

eh eh eh Excelente post! Concordo com quase tudo o que dizes, Afonso Henriques. Mesmo assim, eu não seria tão impiedoso com o Padre Borges, que falou corajosamente sobre o preservativo e as mulheres, nem tão simpático com a Barbas, que repisou a velha falácia do pretenso anti-catolicismo do livro. O que mais me enervou no debate da RTP foi não terem incluido um único participante favorável às teses do Código Da Vinci, as quais até nem são tão irrazoáveis quanto isso. Estranho "debate" este, em que toda a gente diz o mesmo...

Uma vénia respeitosa,

Flávio

www.a-bomba.blogspot.com

Flávio disse...

Houve duas afirmações no debate que eu achei particularmente 'embasbacantes'. Uma, do Padre Carreira das Neves, que pretendeu fundamentar uma pretensa misoginia do gnosticismo em algumas frases completamente descontextualizadas de Pedro, contidas nos Evangelhos Gnósticos. Outra, do nosso João César das Neves, que usou uma técnica semelhante: aproveitou uma frase isolada do vilão do livro, Teabing, e nisso viu um ataque de Dan Brown ao cristianismo.

riacho disse...

Como é óbvio (se não o era, passa a ser :-) ) não me posso pronunciar sobre o dito programa. No entanto, e tendo em conta que tenho a tua opinião como uma visão justa e imparcial do que lá passou, só posso concluir que, infelizmente ainda há bastantes teias de aranha, bem expessas, por tirar de algumas cabecinhas.

 
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