quinta-feira, novembro 24, 2005

Soares vs Cavaco

O ano está perto do fim. É o fim do Ano Velho. Desde sempre se associou velhice, decrepitude e morte ao ano que se aproxima do seu termo. Ao Ano Novo, também chamado de Ano Bom, correspondia uma imagem de rejuvenescimento, de recomeçar de vida, de esperança.
É nesse sentido e, pelo facto de, sendo Sagitário, ser um entusiasta inabalável de causas perdidas, que Mário Soares está tramado. Muito provavelmente, e na área dos arquétipos publicitários, chavões de marketing ou mensagens subliminares de carácter colectivo, é natural constatar que a sua provecta idade numa disputa eleitoral que se realiza em plena passagem de ano, não lhe será favorável. O seu esforço no entanto, e a vitalidade que aparenta, contribuirão decisivamente para manter a imagem de competidor e de guerreiro a que foi habituando os portugueses nos ultimos trinta anos, constituindo um exemplo sério de combatividade e de dedicação ao poder. Por outro lado, nem a sua indignação com o facto de a corrida à Presidência da República estar constitucionalmente aberta a todos os portugueses recenseados, maiores de 35 anos, nem o pavor das insónias que terá se o Prof. Cavaco ganhar, lhe granjearão mais simpatias. Antes pelo contrário. Por muito que simpatizem com o "O Bochechas", os portugueses execram o seu ar de dono-disto-tudo.
A postura de Cavaco, essa sim, é a do arqueiro. O silêncio que produz contrasta com o ruído à sua volta, constituindo uma carapaça invisível mas opaca, por detrás da qual se faz adivinhar um potencial de acção indesmentível tal como a corda do arco que se vai esticando à medida que é puxada. O arqueiro não fala, não ouve, o seu olhar trespassante está concentrado num ponto para além do alvo, no objectivo que só ele vê mas que todos adivinham, como adivinham que será o estalido da corda de couro e o silvo da flecha num instante que todos sabem que vai acontecer mas que ninguém consegue precisar ao certo.

Texto publicado em O Eleito

2 comentários:

Flávio disse...

A imagem do arqueiro é feliz, porque o arco é uma arma cobarde e traiçoeira. Também Cavaco não fala porque tem medo: não só de deixar à vista de toda a gente a sua falta de ideias, como de perder o estatuto de homem providencial e ídolo que os portugueses tanto gostam.

contradicoes disse...

Muito sinceramente não estou tão certo com esta anunciada vitória, que aliás já era dada como certa muito antes de Cavaco Silva anunciar a sua candidatura. Temos razões suficientes para pensar que nesta
matéria não há vencedores antecipados.

 
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