segunda-feira, agosto 28, 2006

Histórias de Encantar IX

O jornalista abrandou e encaracolou o carro no pequeno largo com laranjeiras da vila, encostando-o de topo contra o lancil do passeio. As janelas escancaradas e o tecto de abrir do velho Renault eram inúteis contra o braseiro parado daquelas sete horas da tarde em Beja.

Abriu a porta e descolou o cu das calças da napa encharcada do assento, enquanto arrastava para fora do carro uma pasta com um portátil, um bloco, algumas canetas e um transformador.

Com a mão em pala sobre os olhos, rodou lentamente sobre si próprio à procura das fitas de plástico multicolores penduradas de alguma porta, sinónimo regional de tasca e possível cerveja fresca. Avistou-as e para lá se dirigiu, devagar e pela sombra.

Afastadas as tiras de plástico atirou um “boa tarde” lá para dentro, enquanto habituava os olhos à escuridão, como quem atira um osso para dentro de um escuro canil de galgos quando lhes quer encher as malgas com água fresca.

Devolveram-lhe alguns b’tard que ouviu em semiuníssono enquanto descia os dois degraus em direcção ao balcão.

- Uma Imperial se faz favor.- pediu, enquanto deitava a pasta sobre o balcão.

- A imperial hoxe extá um’ocadinho cuxida. - desculpou-se o homem por detrás do balcão sibilando correntes de ar a custo por entre as laterais da língua, das bochechas e o palato, tudo isto acompanhado de um esgar como se padecesse de cólicas crónicas.

– Mas temos fresquinha engarrafada.

- Pode ser.

Enquanto aguardava a fresquinha engarrafada, o jornalista perscrutou o ambiente, agora que os olhos por detrás das lentes encardidas de um par de óculos sem aros se iam habituando à pouca luz que boiava sobre o ar parado. Ao fundo, dois velhos apostavam sobre o tampo de uma mesa dividido em quatro por dois traços feitos com giz. O jogo era simples: cada um detinha a propriedade de dois quadrados em diagonal, o mais próximo do lado esquerdo e o mais afastado do lado direito. E vice-versa. Quando uma mosca pousasse num dos quadrados, o seu proprietário tinha direito a uma “renda” paga pelo outro. As moscas eram tantas e a falta de asseio do tabuleiro de jogo era tal que se perderam nas contas entregando-se, calmamente e com dedicação, a uma discussão parva e sem sentido nenhum. Duas mesas mais à direita estava sentado um cantoneiro beberricando uma gasosa e fumando em silêncio. O jornalista dirigiu-se para lá e disse:

- Boa tarde, posso sentar-me aqui a conversar um bocadinho com o senhor?

O cantoneiro olhou o desconhecido com desconfiança. Aquilo das duas uma: ou eram modos de pide, o que não fazia sentido nenhum, já lá iam tantos anos, ou era um daqueles paneleiros de Lisboa com profissões esquisitas e que acabavam sempre por arranjar lugares de mando nas Câmaras onde eles, velhos cantoneiros, trabalhavam há tanto tempo.

Permita que me apresente, chamo-me Paulo e sou jornalista de Lisboa. Tenho andado aqui pelo Alentejo a fazer um trabalho de pesquisa sobre o impacto que a regionalização poderá vir a ter, caso venha a ser votada favoravelmente no referendo que se aproxima.

Ahhh...- retorquiu o cantoneiro após o doloroso esforço de se decidir sobre que tipo de mamífero se lhe sentara na mesa e qual as verdadeiras intenções do mesmo.

Então, continuou o jornalista, vamos começar pelo senhor que é um habitante de Beja, não é verdade ?

Sou sim senhores. Sou de Beja desde que nasci. Já lá vão...

Então diga-me cá uma coisa, se souber. Enquanto os habitantes de Évora se chamam Eborenses, ou os de Estremoz Estremocenses, ou mesmo os de Santarém, imagine-se, Escalabitanos, como se chamam então os habitantes de Beja?

Um silêncio profundo caiu sobre a mesa, arrastando-se às outras mesas e subindo pelas paredes até ao tecto imundo, até que a pouca actividade existente e diálogo que havia cessaram por completo. Só o zumbido das moscas certificava que ninguém ensurdecera de repente.

- Como se chamam os habitantes de Beja? – repetiu incrédulo o cantoneiro. – Mas o quê? Todos ?-

domingo, agosto 13, 2006

Mais um post

Há já largos dias, diametralmnte gigantescos, que tenho poupado a blogosfera em geral e certos hábitos particulares deste simulacro de democracia a que pomposamente os senhores do poder, e seus indefectíveis seguidores, teimam em chamar de república.
Comecemos pela retirada de cena de Fidel. Então não é que ouço e vejo Miguel Sousa Tavares comentando na TVI a tecer-lhe admirações como quem desenvolve tapetes de Arraiolos, "que era uma pessoa com convicções, que nunca se quis servir do poder para enriquecimento próprio que, enfim, nutria uma certa admiração por pessoas deste tipo, que quando comparados como a classe política de agora marcam uma diferença ...." etc, etc,. Não tivesse eu percebido que dissertava sobre Fidel e juraria que o discurso se aplicaria que nem uma luva ao velho botas, que massacrou estas gentes durante mais de quarenta anos, mercê precisamente das suas fortíssimas convicções e do seu desapego a fortuna própria. Ele há coisas do camandro.

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Passou a lei da paridade, e com ela mais um atestado paternalista de incompetência foi passado às mulheres portuguesas.

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Os fogos continuam. Postos por mão criminosa mas de imediato localizados os culpados: os aldeões que, com os foguetes que lançam nas suas festas de verão, são eles afinal os grandes responsáveis pela calamidade anual que assola o país.

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Curioso também que o coro dos que gritavam e berravam pelas ruas "Portugaliiiii ti ti ti pó pó pó",
tenha sido o mesmo que se ergueu indignado com a possível e justa isenção do pagamento de IRS sobre os prémios dos jogadores. O povo é assim: uma besta que vai para onde se lhe aponta o aguilhão. Se ao menos estivessem atentos às mudanças anuais de frota automóvel dos que falam em solidariedade perante a crise...

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Hove um avião israelita a caminho do Médio Oriente carregado de material não ofensivo (provavelmente panelas de pressão, esfregões bravo, revistas "Maria" e terços) que se serviu do aeroporto das Lajes para reabastecer. O Governo disse que foi um acontecimento de carácter excepcional. Exacto.

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Eduardo Prado Coelho afirma que não lê blogues. Faz mesmo questão de o repetir. Também afirmou, na Visão e com orgulho, que não faz a barba desde 1972. Para Taliban também já lhe falta muito pouco.

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Sobre o recente movimento "Não apaguem a memória" só tenho isto a dizer: A memória foi e é apagada diariamente neste país. Quer com a delapidação constante do património nacional, em que as armas com a coroa foram e têm sido sistemáticamente arrancadas dos frontões de fortes(*) ,castelos e monumentos, quer que com as comemorações do próprio 25 de Abril, em que só um pífio punhado de gente se juntou este ano na Praça do Município para as suas comemorações.
Enquanto o direito à propriedade não for respeitado neste país podem os senhores do poder ter a certeza que a memória não será apagada.

(*) Veja-se a recente "recuperação patrimonial e arquitectónica" do Forte de Caxias, em que permanecem vergonhosamente mutiladas as armas reais no frontão da sua entrada. Vê-se da Marginal.

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Só mais uma coisa: A Ponte de aço, suspensa, que liga Lisboa à outra margem é e será sempre A Ponte Sobre O Tejo. Nem Salazar a fez, nem a fizeram num só dia. Em memória dos que nela trabalharam e morreram.


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