terça-feira, maio 17, 2011

Histórias de encantar IV - 2ª edição

A viver no Brasil há um bom par de anos, o meu tio Henrique e a mulher foram convidados para o casamento do filho de um importante cliente. O meu tio Henrique, mulherengo incorrigível e incompetente profissional, herdara uma pequena fábrica no Brasil e para lá se deslocara com o objectivo de endireitar a vida, estragando-a o menos possível. Dirigir uma pequena fábrica de componentes industriais, em perfeito funcionamento, com um rendimento mensal certo e razoável, dirigida por uma administração competente e de confiança foi o melhor que lhe poderia ter acontecido em toda a puta da sua vida.
O local onde se realizaria o casamento era uma fazenda grande e muito antiga, na família do noivo havia várias gerações, bem no interior do pantanal. A viagem seria longa e por isso iam preparados para lá pernoitarem. A sogra do meu tio Henrique também ia.
A certa altura da viagem, a minha tia e a mãe dela ressonavam profunda e alternadamente, dando a impressão que o carro se transformara num barco, subindo e descendo imensos vagalhões invisíveis à medida que o ronco delas se intensificava e alternava. Com os movimentos que fizera enquanto dormia, a sogra do meu tio Henrique descalçara um sapato que, com outros movimentos seguintes mas ainda a dormir, fora empurrando para debaixo do banco do meu tio Henrique. A certa altura, o meu tio Henrique sentiu que o seu pé tocara em qualquer coisa. Enfiando a mão por debaixo do banco sentiu, e adivinhou de imediato, os contornos e textura inconfundíveis de um sapato feminino de cetim e salto alto. Aquilo só poderia ter sido esquecimento de uma das últimas parceiras de regabofe e fodilhanço a quem ele dera boleia.
Da última vez quase tinha sido descoberto quando a mulher, ao baixar a pala para se ver ao espelho, levara nas trombas com um par de cuecas de renda pretas.
- Aquele cabrão-, vociferara de imediato o meu tio Henrique arrancando as cuecas da cara da mulher e aventando-as pela janela fora.
- Aquele mecânico de um cabrão, é a terceira vez que arruma ali a puta da camurça dos vidros. Filho da puta.
- A camurça dos vidros ? - , repetira a mulher tentando recompôr-se do cagaço que aquela cegueira súbita seguida de impropérios e corrente de ar lhe provocara.
- Sim, filha. A camurça que eles usam para limpar os vidros do carro por dentro. É diferente das que usam do lado de fora.-
- Ahh..Suspirou sossegada a mulher. - Se calhar devias mudar de mecânico.-
Mas agora era diferente. Nenhum mecânico, por muito paneleiro que fosse, usaria sapatos de cetim e salto alto. Certificando-se que a mulher dormia profundamente, olhou no retrovisor e confirmou que a sogra também dormia. Muito devagar abriu o vidro e, acto contínuo, arremessou fora o dito sapato.
Suspirando de alívio, fechou o vidro até meio, recostou-se no banco, acendeu um cigarro e, confiante, sorriu. Estava safo.
Chegados ao local do casamento assistiu, impávido e sereno, à maior descompostura que alguma vez presenciara a mulher dar em alguém, na pessoa da sua própria sogra.

segunda-feira, maio 16, 2011

Histórias de encantar II - 2ª edição

Era uma vez um cão-lobo e um urso-formigueiro.
Embora vivessem na mesma floresta, nunca se dera o acaso de se encontrarem.
À medida que os anos decorriam, as probabilidades de isso acontecer cresciam de forma assustadora. Um dia encontraram-se.
O urso-formigueiro, de indole aprazível e comunicativa, encetou as apresentações:
- Ora viva! Quem és tu e como te chamas, que nunca te vi por aqui?- inquiriu o urso-formigueiro exibindo num esgar um olhar de vaca alucinada.
- Eu ? - disse incrédulo o cão-lobo. - Eu sou um cão-lobo .
- Um cão-lobo? E porque carga de água te chamas assim, ó cão-lobo? - retorquiu, berrando confuso e impaciente, o urso formigueiro aproximando as fauces descarnadas e babantes a dois centímetros do focinho do cão-lobo, que permanecia impassível.
- Ora, porque o meu pai era um cão e a minha mãe era uma loba. E tu, como te chamas?- retorquiu o cão-lobo.
- Eu ? Eu cá sou um urso-formigueiro! - afirmou com orgulho, endireitando-se, o urso -formigueiro.
- Estás a gozar...? - retorquiu-lhe o cão-lobo, virando-lhe as costas e partindo.
A confusão permanece, até hoje, no espírito do urso-formigueiro.
Anos decorridos, nunca mais se encontraram.

quinta-feira, maio 12, 2011

Histórias de encantar I - 2ª edição

Era uma vez um naufrágio. A ele sobreviveram dois tipos, ambos feridos: um ficara totalmente cego e o outro ficara cego de um olho e só via pelo cantinho do outro olho.

Tendo conseguido trepar para um escaler equipado com um par de remos e um leme à popa, o que via pelo cantinho do olho decidiu que o melhor para ambos seria ir ele ao leme e o cego que remasse. E assim foi. Ao fim de uma semana porém, o cego manifestava evidentes sinais de cansaço pelo que decidiram trocar. Passou o cego para o leme e o que via pelo cantinho do olho pegou nos remos. Os tubarões escoltavam a desgraça. De vez em quando o que via pelo cantinho do olho olhava com isso para trás e ia dando orientações ao cego sentado na popa do escaler, ao leme.

“Mais para a esquerda” ou “mais para a direita” berrava o remador que isso de “bombordo” e “estibordo” era conversa de navegantes e eles não passavam de meros candidatos a 1º Ministro, sobreviventes de umas férias num cruzeiro. A certa altura, num intervalo entre duas olhadelas, o escaler embateu em qualquer coisa o que fez com que o punho de um remo saltasse da mão e acertasse precisamente no cantinho do olho são do remador cegando-o por completo. “É o fim!!” berrou o remador. O cego pensou que tinham chegado à costa, e de pronto saltou do barco berrando “Boa! Boa!”.

Os tubarões mostraram-lhe quão errado estava.

O que via pelo cantinho do olho, com aquilo tudo de remar e olhar para trás, do impacto, do remo a saltar, a acertar-lhe no cantinho do olho e a cegá-lo ficou sem perceber patavina do que se passava. Ao ouvir o cego saltar para a água gritando “Boa!” julgou que tinham chegado à costa e saltou. Segundo e derradeiro esclarecimento por parte dos tubarões.

Silêncio no oceano.

terça-feira, maio 10, 2011

Histórias de Encantar III - 2ª Edição

Eu tenho um irmão três anos mais velho que, quando éramos putos, era um traquinas do caralho. Um capricho da natureza fizera com que toda a brutidade e falta de inteligência da família se tivesse concentrado numa só geração e numa só pessoa, o meu irmão Jaime, em vez de se ter diluído ao longo de vários membros em várias gerações. Fartava-se de fazer asneiras, o cabrão. Misturava o leite com o café na cozinha, enfiava peúgas na cabeça do gato, distribuia com esmero e dedicação bilhetinhos obscenos nas caixas de correio do prédio, atirava cubos de gelo ao cão da porteira deixando-o a ladrar furiosamente o que iniciava de pronto uma caldeirada de caralhadas e impropérios por parte da mesma, acompanhados pelo voo picado das botas do marido que era bombeiro. Eu sei lá.
Um dia foram lá jantar a casa uns tios. É claro que durante o jantar o Jaime (é assim que se chama o meu irmão) fartou-se de fazer merda; interrompia as conversas, fazia perguntas parvas, tossia altíssimo, dava peidos inacreditáveis, mexia nas pernas da criada e, sempre que podia e ninguém via, pontapeava-me nas canelas e nos joelhos. A certa altura, enquanto acontecia a segunda volta do rosbife com batata palha e esparregado, a tia, inspirada pela alucinante sucessão de asneiras que testemunhara durante o jantar, sugeriu aos meus pais que o Jaime passasse a frequentar a catequese.
- Fazia-lhe lindamente.- insistia ela perante a incredulidade da minha mãe e a indiferença do meu pai.
O Jaime, que julgava que a catequese era uma espécie de recreio santificado em que se entrava para se poder massacrar mais alguém para além da família e dos colegas da escola, seguia a conversa com a atenção de um cão sentado em frente de alguém a comer pão com manteiga.
Quando as visitas se foram embora, a decisão estava tomada. O Jaime iria para a catequese.
Eu iria com ele, para prevenir males dobrados.
Quando chegámos ao sítio da catequese, que era numa sala pequena numa dependência da Basílica da Estrela, o Jaime escolheu de imediato um lugar na primeira fila de cadeiras, abrindo caminho à pisadela e ao encontrão. Eu acabei por ficar lá atrás.
Estávamos todos sentados, quando entra o senhor Padre.
Subindo a um estrado que ficava à nossa frente, atira com uma pasta enorme para cima da mesa e lança um olhar fulminantemente periférico, cuja intensidade jamais esquecerei, àquela plateia de putos sentados e cheios de sono.
De súbito, adivinhando no meu irmão Jaime a candura de um novato, fita-o nos olhos e atira-lhe berrando:
- Onde está Deus?-
Fez-se um silêncio escuro, frio e profundo.
- Onde está Deus ?- insistiu o senhor Padre, sem desfitar o meu irmão.

Quando cheguei a casa, a minha mãe perguntou-me:
- O teu irmão ? Não veio contigo?-
- Não.- respondi.- Ele saiu primeiro.
Depois de virarmos a casa do avesso encontrámos o Jaime no quarto, dentro do armário.
- Que é que estás aí a fazer?- berrou o meu pai furioso por ter tido que largar o cigarro, o jornal a televisão e o camandro para aderir ao pequeno grupo de caçadores de broncos.
- É que... É que... - balbuciava o cabrão, trémulo e lacrimejante.
O meu pai segurou-o por um braço e arrastou-o para fora.
- É que o quê? Hein ? Responde imediatamente. Ouviste?
- É que Deus desapareceu e o senhor Padre pensa que fui eu.

segunda-feira, maio 09, 2011

O Bar

2ª Edição

Versão minimal:

Acabara o último cigarro há um quarto de hora. Lembrara-se na altura que tinha que comprar mais. Sem pensar, pegou no maço vazio e procurou lá dentro um cigarro.
Não havia nem um.
- Querida, disse, vou lá abaixo num instantinho comprar cigarros e volto já.
Até hoje, nunca mais apareceu.

Versão completa:

Acabara o último cigarro há um quarto de hora. Lembrara-se na altura que tinha que comprar mais. Sem pensar, pegou no maço vazio e procurou lá dentro um cigarro.
Não havia nem um.
- Querida, disse, vou lá abaixo num instantinho comprar cigarros e volto já.
Abriu a porta e desceu os 17 degraus a correr e de seguida. Chegado ao café, desilusão. Já estava fechado.
- Lá ao fundo desta rua, à sua direita, há um bar que ainda deve de estar aberto. – retorquiu o dono do café à sua pergunta enquanto fechava a porta.
A noite estava fria e ele estava com pressa. Dirigiu-se na direcção indicada a passo rápido. Quando chegou ao bar, entrou e apeteceu-lhe um trago de qualquer coisa forte e que aquecesse. Chegou-se ao balcão, e sentou-se ao lado de uma loira que falava ao telemóvel.
- Um Cutty Sark só com gelo, por favor. – Enquanto o empregado lhe servia o whisky pediu dois maços de cigarros.
A loira acabara o telefonema e fizera dos seus gestos e da sua cara o alvo da sua atenção nos segundos seguintes. De seguida abriu a carteira, retirando dela um estreito maço de Slims e, enquanto se voltava para ele cruzando as pernas, pediu-lhe, com voz rouca, semicerrando os olhos:

- Do you have a light? –
Meteu a mão no bolso direito das calças e retirou um pequeno isqueiro Bic. Enquanto lhe acendia o cigarro, olhou a cara dela com atenção e sorriu.
- Obrigada.
Não o tenho visto por aqui. – disse ela com ar casual enquanto expirava o fumo e guardava na carteira o estreito maço de Slims.
Palavra puxa palavra e meia hora depois estavam os dois em casa dela.
Algum tempo depois, ele olhou para o relógio que trazia no pulso esquerdo e disse:
- Meu Deus, distraí-me completamente... a minha mulher vai-me matar!
A loira soergueu as sobrancelhas enquanto, distraidamente, apertava o roupão.
- A menos que... tens por acaso pó de talco ?- perguntou-lhe
- Pó de talco?- inquiriu a loira soerguendo ainda mais as sobrancelhas,
- A-acho que sim. Porquê?-
- Vai-mo buscar, por favor. Rápido.-
A loira desapareceu e voltou calmamente segundos depois segurando uma embalagem de talco Johnson´s com que ele polvilhou um pouco as palmas das mãos, esfregando-as uma na outra de seguida.

Regressado a casa, muito devagarinho introduziu a chave na porta e abriu-a silenciosamente.
A luz e o som provenientes da sala prenunciavam a tempestade que, dali a nada, iria desabar. Estava f-o-d-i-d-o. Entrou na sala pé ante pé e perguntou-lhe, por entre os flashes da TV Shop e os do olhar dardejante dela:
- Querida, ainda está a pé? Mas é tardíssimo.-
- Tu tens cá um descaramento...Francamente! Onde é que estiveste até agora?
- Mas é que tu nem sabes o que me aconteceu.
- Ah pois não. E estou mortinha por saber. Ora vamos lá a ouvir a história que inventaste desta vez. Desembucha!
- Estou-te a dizer! Fui lá abaixo ao café para comprar cigarros como te disse antes de sair, só que o café estava fechado. Disseram-me que ao fundo da rua havia um bar que costumava ficar aberto até tarde e fui até lá. Acabei por conhecer uma rapariga loira muito simpática e fomos até casa dela beber um copo. Palavra puxa palavra e....
- Tu tens é uma grandessissima lata. Mostra-me as tuas mãos imediatamente. Ah-ha! Com que então uma loira hein?! Mas tu pensas que me enganas, meu sacana? Tu estiveste foi outra vez no bowling com os cabrões dos teus amigos!
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