terça-feira, abril 19, 2005

Histórias de encantar III

Eu tenho um irmão três anos mais velho que, quando éramos putos, era um traquinas do caralho. Um capricho da natureza fizera com que toda a brutidade e falta de inteligência da família se tivesse concentrado numa só geração e numa só pessoa, o meu irmão Jaime, em vez de se ter diluído ao longo de vários membros em várias gerações. Fartava-se de fazer asneiras, o cabrão. Misturava o leite com o café na cozinha, enfiava peúgas na cabeça do gato, distribuia com esmero e dedicação bilhetinhos obscenos nas caixas de correio do prédio, atirava cubos de gelo ao cão da porteira deixando-o a ladrar furiosamente o que iniciava de pronto uma caldeirada de caralhadas e impropérios por parte da mesma, acompanhados pelo voo picado das botas do marido que era bombeiro. Eu sei lá.
Um dia foram lá jantar a casa uns tios. É claro que durante o jantar o Jaime (é assim que se chama o meu irmão) fartou-se de fazer merda; interrompia as conversas, fazia perguntas parvas, tossia altíssimo, dava peidos inacreditáveis, mexia nas pernas da criada e, sempre que podia e ninguém via, pontapeava-me nas canelas e nos joelhos. A certa altura, enquanto acontecia a segunda volta do rosbife com batata palha e esparregado, a tia, inspirada pela alucinante sucessão de asneiras que testemunhara durante o jantar, sugeriu aos meus pais que o Jaime passasse a frequentar a catequese.
- Fazia-lhe lindamente.- insistia ela perante a incredulidade da minha mãe e a indiferença do meu pai.
O Jaime, que julgava que a catequese era uma espécie de recreio santificado em que se entrava para se poder massacrar mais alguém para além da família e dos colegas da escola, seguia a conversa com a atenção de um cão sentado em frente de alguém a comer pão com manteiga.
Quando as visitas se foram embora, a decisão estava tomada. O Jaime iria para a catequese.
Eu iria com ele, para prevenir males dobrados.
Quando chegámos ao sítio da catequese, que era numa sala pequena numa dependência da Basílica da Estrela, o Jaime escolheu de imediato um lugar na primeira fila de cadeiras, abrindo caminho à pisadela e ao encontrão. Eu acabei por ficar lá atrás.
Estávamos todos sentados, quando entra o senhor Padre.
Subindo a um estrado que ficava à nossa frente, atira com uma pasta enorme para cima da mesa e lança um olhar fulminantemente periférico, cuja intensidade jamais esquecerei, àquela plateia de putos sentados e cheios de sono.
De súbito, adivinhando no meu irmão Jaime a candura de um novato, fita-o nos olhos e atira-lhe berrando:
- Onde está Deus?-
Fez-se um silêncio escuro, frio e profundo.
- Onde está Deus ?- insistiu o senhor Padre, sem desfitar o meu irmão.

Quando cheguei a casa, a minha mãe perguntou-me:
- O teu irmão ? Não veio contigo?-
- Não.- respondi.- Ele saiu primeiro.
Depois de virarmos a casa do avesso encontrámos o Jaime no quarto, dentro do armário.
- Que é que estás aí a fazer?- berrou o meu pai furioso por ter tido que largar o cigarro, o jornal a televisão e o camandro para aderir ao pequeno grupo de caçadores de broncos.
- É que... É que... - balbuciava o cabrão, trémulo e lacrimejante.
O meu pai segurou-o por um braço e arrastou-o para fora.
- É que o quê? Hein ? Responde imediatamente. Ouviste?
- É que Deus desapareceu e o senhor Padre pensa que fui eu.

9 comentários:

O Micróbio disse...

Remédio santo...

Pedro F. Ferreira disse...

Ena pá, o teu irmão é um nietzschiano com remorsos. :) Obrigado pela gargalhada que provocaste.

rajodoas disse...

Oh caro Afonso Henriques, não imagina a
gargalhada que esta narração me provocou

Espectro #999 disse...

Desde o meupipi que não lia algo tão refrescante. Realmente uma história a fazer lembrar uma snisga em autêntica labareda.
Muito bom.
Gostei do nick [Afonso Henriques] do àparte [um blog monárquico] e do resto falarei mais tarde se o que desapareceu quiser.
Até lá, e para que relaxes da vista, convido-te a veres a 'Arte' exposta no meu território.
Inté.

JRD disse...

Coitadinho do Jaime. O Ratzinger já mandou vir mecha e palha e o puto vai mesmo confessar antes de arder.

riacho disse...

:-)))

Rir com dor de garganta, é lixado, mas ri-me com muito gosto!

Que é feito do Jaime?

Afonso Henriques disse...

As melhoras das dores de garganta, Riacho.
O Jaime ? Não faço ideia.
:o))

sofia disse...

Que lufada de ar fresco! :) Obrigada, D. Afonso, pelos sorrisos despertados. :)))

f disse...

chorava a rir da primeira vez que li isto. agora voltei só para rir mais um bom bocado. obg e um bom dia de trabalho!

 
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