sexta-feira, abril 22, 2005

O fascismo continua

31 anos após o 25 de Abril de 1974, o regime em vigor em Portugal é o de uma república corporativa com inegáveis contornos fascistas. Desde o espancamento até à morte de detidos em esquadras da PSP, passando pela prisão de mulheres que se sujeitam ao sofrimento do aborto, até à prisão preventiva por tempo indeterminado, muitas das vezes em resultado de denúncias anónimas, o panorama é esclarecedor. Então, no próximo dia 25, os meus amigos e amigas vão comemorar o quê?
A república fascista e corporativa em que se tornou Portugal, com os seus representantes lutando desesperadamente pela manutenção de tratamento privilegiado, como se subitamente tivessem sido alcandorados à categoria de barões e viscondes com feudos próprios, delambendo-se gulosamente e usufruindo de probendas e sinecuras, privilégios e excepções que consideram como direitos adquiridos, está empenhada em destruir Portugal não só económicamente como físicamente, através da delapidação permanente e impune de um património florestal e hídrico em muitos casos irrecuperável, em nome da santificação do betão e da beatificação da criação suinicola.
A impunidade dos interesses corporativos, directamente transitados do Estado Novo, essa II República de eunucos, faz frente de forma descarada a qualquer tipo de reforma que ameace minimamente os seus interesses. Desde a impunidade total de que beneficiam os corpos clinico e administrativo dos hospitais civis, à arrogância dos magistrados que vendem barata uma guerra contra o governo se a redução das férias judiciais for uma realidade, passando pelo desplante com que o representante do sector de restauração ameaçou publicamente cobrar idas aos sanitários e copos de água aos frequentadores de cafés e restaurantes se os proprietários dos mesmos fossem "obrigados" a passar facturas, até às ameaças de perigo levantadas pelos representantes dos farmacêuticos face à posibilidade de venda de medicamentos sem receita médica em espaços que não sejam farmácias, o fascismo corporativo está entranhado até ao tutano dos ossos carcomidos desta III República em que se tornou Portugal.
Uma lei do arrendamento arcaica e desactualizada que defende os interesses de bancos e companhias de seguros, obrigando os jovens que se encontram à procura da 1ª habitação a endividarem-se até aos 60 ou 70 anos pagando uma renda a um banco por uma casa que não é sua, fez com que a procura de habitação encontrase resposta na construção desenfreada na periferia dos grandes centros urbanos, destruindo para sempre os concelhos periféricos da grande Lisboa e grande Porto, impossibilitando um planeamento urbano racional e cuidado com enfoque na qualidade de vida e na sustentabilidade ambiental.
O fascismo republicano não caiu, continua. Não desapareceu; reproduziu-se, alastrou e encasquetou-se na cornamenta do homem da rua, do português comum, fanático e clubista, que enquanto se considera do Benfica jamais vestirá uma peça de roupa de cor verde, enquanto se diz de direita jamais dirá que um dia teve um poster do Guevara e que enquanto se afirma de esquerda jamais dirá que foi baptizado ou que fez a 1ª Comunhão.
O fascismo republicano continua a sua propaganda nas escolas, na educação dos nossos filhos e netos, fazendo com que se sintam envergonhados do seu povo e dos seus antepassados. Gloriosos e inimitáveis empreendimentos como o dos Descobrimentos foram timidamente comemorados, tanto em 1998, como em 2000.
É este regime republicano, fascista e corporativo, responsável pelo estado actual em que se encontra Portugal, que oferece e mantém lugar cativo no seu Conselho de Estado a criaturas do calibre de Alberto João Jardim, que vai ser celebrado neste país quando o povo sair à rua, comemorando, no próximo dia 25 de Abril de 2005.

2 comentários:

FDV disse...

interessante composição.

el-rei um pouco inflamado, sem descurar a personalização de algumas verdades.

sublinho a questão da habitação/construção casuística.

gosto dos cartazes do 25 de abril e gosto deste mês onde se fala mais de liberdade e de tudo o que este conceito implica.

os melhores cumprimentos.

JRD disse...

Grande Texto! Em extensão e em qualidade.
Vê-se mesmo que foi arrancado lá de dentro.
"Desculpo-lhe" a exagerada exacerbação contra a República e principalmente, as conotações, a meu ver menos felizes, com o Fascismo.
De resto, o País, na sua globalidade, é como diz.
Já agora; hoje vesti calças e camisola verdes. Não sou alérgico.
Cumprimentos

 
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