segunda-feira, novembro 28, 2005

Os zelotas

De quando em vez, a nomenklatura republicana fundamentaliza-se, exagera e espeta-se.
Em assomos assíncronos de patrioteira actividade doutrinária, os guardiões da pureza do estado laico e republicano decidem de vez em quando e extemporaneamente ressuscitar cadáveres ideológicos, práticas de intolerância e comportamentos pombalinos, perseguindo crucifixos e outros símbolos cristãos "ignobilmente expostos nos espaços públicos da república". Quais dráculas de bolso, vituperam com argumentos carregados de religiosa laicidade, acusando com fervor insuspeito todos os que não cumprem os preceitos da doutrina laica republicana: há que retirar os símbolos religiosos (leia-se crucifixos) das escolas. Instalou-se a caça à cruz.
Pois então, ó senhores da república, não se esqueçam de a arrancarem também das comendas e condecorações com que anualmente ataviam Bonos e outros que tais.
Amputem também, e já agora, os bracinhos ao Cristo Rei.
A seguir, presume-se, seguem-se as salgas às hortas de alhos e o encerramento das minas de prata, não vá aparecer por aí algum Lone Ranger a fazer companhia à chusma de Tontos que esbracejam e estrubucham em inquietudes congénitas, pelas pradarias, vales e montanhas cá do Reino. Singui gai ai upi upi ai...

Texto publicado em O Eleito

quinta-feira, novembro 24, 2005

Soares vs Cavaco

O ano está perto do fim. É o fim do Ano Velho. Desde sempre se associou velhice, decrepitude e morte ao ano que se aproxima do seu termo. Ao Ano Novo, também chamado de Ano Bom, correspondia uma imagem de rejuvenescimento, de recomeçar de vida, de esperança.
É nesse sentido e, pelo facto de, sendo Sagitário, ser um entusiasta inabalável de causas perdidas, que Mário Soares está tramado. Muito provavelmente, e na área dos arquétipos publicitários, chavões de marketing ou mensagens subliminares de carácter colectivo, é natural constatar que a sua provecta idade numa disputa eleitoral que se realiza em plena passagem de ano, não lhe será favorável. O seu esforço no entanto, e a vitalidade que aparenta, contribuirão decisivamente para manter a imagem de competidor e de guerreiro a que foi habituando os portugueses nos ultimos trinta anos, constituindo um exemplo sério de combatividade e de dedicação ao poder. Por outro lado, nem a sua indignação com o facto de a corrida à Presidência da República estar constitucionalmente aberta a todos os portugueses recenseados, maiores de 35 anos, nem o pavor das insónias que terá se o Prof. Cavaco ganhar, lhe granjearão mais simpatias. Antes pelo contrário. Por muito que simpatizem com o "O Bochechas", os portugueses execram o seu ar de dono-disto-tudo.
A postura de Cavaco, essa sim, é a do arqueiro. O silêncio que produz contrasta com o ruído à sua volta, constituindo uma carapaça invisível mas opaca, por detrás da qual se faz adivinhar um potencial de acção indesmentível tal como a corda do arco que se vai esticando à medida que é puxada. O arqueiro não fala, não ouve, o seu olhar trespassante está concentrado num ponto para além do alvo, no objectivo que só ele vê mas que todos adivinham, como adivinham que será o estalido da corda de couro e o silvo da flecha num instante que todos sabem que vai acontecer mas que ninguém consegue precisar ao certo.

Texto publicado em O Eleito

Na zona das bilheteiras, dia de ante estreia de Elizabethtown(*)



- Então? que é que achaste ?

- Do quê?
- Do blog!
- Ahh...achei giro, achei giro. Tem piada. Só que...quer dizer...acho que...é pá como é que hei-de dizer...
- O quê merda! Achas o quê caraças?
- Acho que, para blog monárquico, ou lá o que é, tem muitos palavrões. Acho que o tipo usa muitos palavrões.
- Palavrões ? Palavrões como ?
- É pá palavrões! Palavrões...Sei lá...caralhadas e isso.
- ...-

(*) Elizabethtown rima com Lynard Skynard

quinta-feira, novembro 10, 2005

Brandos e acostumados

Os portugueses sorvem a "pré campanha para as presidenciais" como se de mais uma telenovela se tratasse. É como se fosse uma espécie de "Quinta das celebridades" ataviada a rigor. Agora a sério:
Quem é que no seu perfeito juízo quer ser Presidente desta merda? Quem é que no seu perfeito juízo aceitaria ser Rei desta merda? Brandos e acostumados, os portugueses resignam-se ao seu futuro permanentemente adiado. A História dos seus antepassados, de que todos somos herdeiros e descendentes dos seus protagonistas, fala tão alto, grita tão forte que até um dos candidatos se arroga qualidades únicas para, encostado a 800 de monarquia, se julgar como único candidato viável ao mais alto cargo da Nação. E quem são eles? Os outros ? Cavaco Silva, o mastigador, que gere silêncios como uma gaja boa gere as partes do corpo que mostra ou esconde. Manuel Alegre, entalado entre a realidade e a poesia, é o cavaleiro solitário, o D. Quixote romântico que brande o montante na defesa de absurdos como a fidelidade à palavra dada, a coragem e o desassombro.
Jerónimo de Sousa, em peixeiradas de sopeira alucinada e mal fodida quer o quê? As conquistas de Abril ? Outravez? E frei Louçã, o seminarista, sempre a pregar, a pregar, a pregar, a pregar.
Foda-se.
E são estes os candidatos à Presidência da República ? Mas que merda vem a ser esta?

Os filhos da Revolução

A Revolução Francesa é tida como o grande marco da história contemporânea. Com tudo o que implicou, desde a execrar a aristocracia, passando pela guilhotina qualquer garganta dissidente ou dissonante, culminando na Civilização actual regida por merceeiros sem escrúpulos que apregoam aos quatro ventos a javardeira que pretentem impingir ao mundo como sendo a salvação suprema.
O consumo adquire foros de religião, a medianização é alcandorada a objectivo máximo, a mediocridade é promovida aos quatro ventos, a ecologia constitui-se ciência e o Homem é reduzido ao número; de identidade, de contribiunte, de cheque.
É a glorificação da República.
A Idade Contemporânea fede por todos os lados, é ameaçada à porrada no berço que a viu nascer.
A França, mais uma vez, exemplifica a asneira, ergue-a como farol e sintetiza em três semanas de vandalismo o erro de décadas de ignorância e altaneira estupidez.

terça-feira, novembro 01, 2005

Foi há 250 anos



O texto que se segue foi-me enviado pela Sancha por email e é transcrito do livro de João Duarte Fonseca "1755 O Terramoto de Lisboa."

"Uma curiosa carta proveniente de Mazagão (El Jadita) relata os efeitos do tsunami naquela praça portuguesa do Norte de África, dizendo que após a maior atribulação causada pelo sismo, "o mar com um movimento horroroso, subindo pelas rochas, e arrombando os portos, entrou dentro do terreiro da Praça, onde quando se retirou deixou muitos peixes...
O alcaide-mor desta Praça, que o mar arrebatou e levou consigo... O tornou a meter vivo dentro da Praça por um postigo.
Administraram-se-lhe logo os sacramentos dentro de oito dias, depois de haver vomitado areia, búzios, conchinhas e algum sangue pisado, convalesceu por mercê de Deus".
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