sexta-feira, fevereiro 17, 2006

O Guerra

Era velho e tinha barbas grandes. Diziam que tinha lido a Bíblia de uma vez só e que, depois disso, tinha fugido para a serra da Jordana e por lá ficara, enjaulado em monólogos, pasto do silêncio e a comer o que apanhava. Gafanhotos, diziam. Um ano ou dois, pelo menos. Sozinho como um profeta.Um ermita.
Depois desceu da serra e apareceu lá no Monte.
O Guerra andava curvado, a empurrar um carrinho de mão encarnado com quatro argolas onde levava bilhas de alumínio com leite lá dentro. Não falava. Usava um chapéu de feltro castanho sujo, umas calças de fazenda cinzentas grossas e olhava para nós lá de cima, sem falar, com uns olhos que, diziam, metiam medo. Depois ia-se embora, curvado, a arrastar as botas curtas na poeira do chão. Um dia morreu. Ninguém sabe quando.

2 comentários:

sofia disse...
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sofia disse...

Ele sabe quando. :)

 
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