terça-feira, novembro 14, 2006

À vossa!

A teimosia da média de 14 visitas diárias a este terreiro, que o sitemeter mecanicamente me garante existirem, dá-me a vontade de continuar que não existiria se não as houvesse.

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O tempo encarregou-se da árdua tarefa de me fazer crescer semi acompanhado pela tragédia ambulante chamada Jaime que, por cruel opção de meus pais ou travessura ignóbil do destino, era o meu irmão. Chegada a altura da escolha por um curso superior entrei em profunda depressão sem conseguir ter a mínima dose de coragem que me fizesse dizer em voz alta e ao jantar: Não faço ideia do que fazer com o futuro da puta da minha vida.
O meu irmão Jaime, pelo contrário, optara pelo curso de Engenharia Civil, embasbacado como andava com os à vontades do Engenheiro do 2º Esquerdo com a filha do médico do 1º Dto.
Quando num país pobremente envelhecido como este, Engenharia Civil rima com patobravice assanhada, o futuro apresentava para o meu irmão os contornos volúveis de uma qualquer actividade envolvendo as palavras construção civil com pejo, enlevo e carinho.
Daí à criação da sua própria micro empresa de assentamento de tijolo enquanto frequentava o 3º ano do Técnico foi uma bufa.
Os operários, esses, recrutava-os em plena Marginal, a qualquer dia da semana. Bastava-lhe abrandar o Golf TDI podre e entrar nos recessos ao longo das praias de Carcavelos e Caxias enquanto apregoava: Carpinteiro...Pedreiro...Serralheiro... e as cabeças voltavam-se, recolhendo as linhas de pesca e acenando com os bonés na mão.
Mas o negócio correu mal ao meu irmão, essa chaga ambulante, e a parte dos trabalhos a mais, idêntica à fase de nulos ou positivos no King, veio provar que até aí o fracasso lhe dava o braço solidariamente.
Até que um dia o Jaime se passou. Foi à lota de Cascais e comprou uma dúzia de robalos pouco frescos, 2 Kg de lulas em estado pré-comatoso, uma dúzia e meia de anchovas do Yemen e 4 Kg de pescada de Cascais. Juntou tudo numa grande sacada e atacou. Começou por Carcavelos, abrandando o carro ao longo do recesso da Marginal e bombardeando as fronhas dos pescadores, esses eternos pescadores da Marginal, com o conteúdo da saca, distribuído sorteado e à discrição.
Calões!, berrava ele, cambada de calões! Vão mas é trabalhar, corja de malandros!
Um dos pescadores, atingido por sinal por uma potra em adiantado estado de decomposição, resolveu reagir rugindo: Foda-se-caralho-que-merda-é-esta?!
É o que tu pescas, grandessíssimo cabrão! É o que tu pescas! -
retorquia rindo à gargalhada.
Depois chateou-se e foi para África.

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