terça-feira, junho 28, 2005

Divagações III

Quase a perfazer 894 anos, há alturas em que, de facto, não me consigo aturar nem a mim nem a esta terra mai-las sua gentes, caralho.
Para onde quer que me vire, só vejo asneiras, bestas, aldrabões e emproados. Também há gajas boas, prados verdes alguns bosques e alguma caça. Coisa pouca, é certo. Mas ainda assim lá vão sobrevivendo. Há que dizê-lo. Mas não chega.
Lembro-me de caçar coelhos à paulada no bosquedo de Sintra, já junto à várzea, tantos que eles eram. Agora os coelhos são "animais de estimação". Há quem os apaparique e com eles conviva entre dois golos de cerveja e um cigarro enquanto na televisão um anormal qualquer vende carros aos peidos. E os cabrões a semearem esferas de composto pelo cómodos da habitação. É a laparagem em vias de alcançar o patamar evolutivo de canídeos e felinos, é o que é.
Mas apesar de tudo, o mais extraordinário é a metamorfose por que atravessam certos e determinados mamíferos desta terra quando abrem a porta da frente do lado esquerdo das suas viaturas e se passam lá para dentro fechando a porta em seguida. Assim que o fazem, das duas uma: ou se convencem que ficam invisíveis, ou se persuadem em definitivo que entraram numa latrina, entregando-se às mais variadas actividades que o senso comum impede de fazer em público.
Enquanto os machos desta espécie de mamíferos automobilizados se dedica à prospecção geológica das suas próprias fossas nasais, com uma dedicação, intensidade e virtuosismo tais que acabam por conseguir extrair pedaços dos próprios cérebros que depois fitam com uma curiosidade infantil, as fêmeas optam pela make up, exibindo toda uma variada gama de expressões e esticanços da derme facial enquanto finalizam os acabamentos: rimmel, bâton, base, pó-de-arroz, etc, etc, etc., que, em última análise e como o próprio nome indica, tem como objectivo fazer subir algo.
Mas é com as referidas viaturas em movimento que se operam as transformações mais extraordinárias. O pálido, pacífico, anónimo, incompetente e excedentário funcionário público assume posturas de patrão impiedoso, esbracejando e gesticulando com o frenesim próprio de um primata em marcação de território. O facies distorcido por um incomensurável ódio furibundo espelha uma guerra total, de vida ou de morte, entre ele próprio e o resto do mundo, que se resume a literalmente tudo o que se encontra no exterior da caixa de lata em que se desloca. Relva e pássaros incluídos. O volante, por exemplo, deixa de servir para a execução de manobras de mudança de direcção para se tornar num misto de balcão de bar onde apoia as patas roliças e papudas e um par de rédeas com as quais opera de surpresa súbitas guinadas ora para a esquerda ora para a direita, qual Messala alucinado quadrigando-se contra uma chusma de Ben-Hurs no Coliseu de Roma.
Os pequenos farolins de cor amarelada ou laranja, os chamados pisca-pisca que, quando utilizados com calma e oportunidade, emitem uma luz intermitente com o objectivo de comunicar o sentido de uma mudança de direcção que se avizinha, são coisa de paneleiros: " Um gajo vira quando quer, olha o caralho, e quer que se foda".
A Sancha é da opinião que os besuntas automobilizados o que querem é poupar os piscas para os usarem nas árvores de Natal. Talvez.
Conheço um tipo que um dia, num cruzamento qualquer em Lisboa e prestes a ser cilindrado por um besunta destes, estacou o carro, saiu e dirigiu-se em passos rápidos à guarita do alarve que o ia abalroando. Num tom ríspido e autoritário que não admitia contestação berrou: " A carta!" . O besunta, persuadido de que se encontrava perante uma autoridade, de pronto lha apresentou. O tipo abriu a carta (nesse tempo era um desdobrável em cartolina cor de rosa), confirmou que a fotografia era a do assassino que quase o rebentara, voltou a fechá-la e rasgou-a em quatro devolvendo-a em seguida. Diz ele que jamais se esqueceu da expressão do outro, imóvel no cruzamento enquanto ele arrancava rindo à gargalhada.

1 comentário:

sofia disse...

:))) Adorava ter feito isso a um taxista, no outro dia... A partir de agora, já sei. :) Cumprimentos a V/ Majestade.

 
Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue!