Quase a perfazer 894 anos, há alturas em que, de facto, não me consigo aturar nem a mim nem a esta terra mai-las sua gentes, caralho.
Para onde quer que me vire, só vejo asneiras, bestas, aldrabões e emproados. Também há gajas boas, prados verdes alguns bosques e alguma caça. Coisa pouca, é certo. Mas ainda assim lá vão sobrevivendo. Há que dizê-lo. Mas não chega.
Lembro-me de caçar coelhos à paulada no bosquedo de Sintra, já junto à várzea, tantos que eles eram. Agora os coelhos são "animais de estimação". Há quem os apaparique e com eles conviva entre dois golos de cerveja e um cigarro enquanto na televisão um anormal qualquer vende carros aos peidos. E os cabrões a semearem esferas de composto pelo cómodos da habitação. É a laparagem em vias de alcançar o patamar evolutivo de canídeos e felinos, é o que é.
Mas apesar de tudo, o mais extraordinário é a metamorfose por que atravessam certos e determinados mamíferos desta terra quando abrem a porta da frente do lado esquerdo das suas viaturas e se passam lá para dentro fechando a porta em seguida. Assim que o fazem, das duas uma: ou se convencem que ficam invisíveis, ou se persuadem em definitivo que entraram numa latrina, entregando-se às mais variadas actividades que o senso comum impede de fazer em público.
Enquanto os machos desta espécie de mamíferos automobilizados se dedica à prospecção geológica das suas próprias fossas nasais, com uma dedicação, intensidade e virtuosismo tais que acabam por conseguir extrair pedaços dos próprios cérebros que depois fitam com uma curiosidade infantil, as fêmeas optam pela make up, exibindo toda uma variada gama de expressões e esticanços da derme facial enquanto finalizam os acabamentos: rimmel, bâton, base, pó-de-arroz, etc, etc, etc., que, em última análise e como o próprio nome indica, tem como objectivo fazer subir algo.
Mas é com as referidas viaturas em movimento que se operam as transformações mais extraordinárias. O pálido, pacífico, anónimo, incompetente e excedentário funcionário público assume posturas de patrão impiedoso, esbracejando e gesticulando com o frenesim próprio de um primata em marcação de território. O facies distorcido por um incomensurável ódio furibundo espelha uma guerra total, de vida ou de morte, entre ele próprio e o resto do mundo, que se resume a literalmente tudo o que se encontra no exterior da caixa de lata em que se desloca. Relva e pássaros incluídos. O volante, por exemplo, deixa de servir para a execução de manobras de mudança de direcção para se tornar num misto de balcão de bar onde apoia as patas roliças e papudas e um par de rédeas com as quais opera de surpresa súbitas guinadas ora para a esquerda ora para a direita, qual Messala alucinado quadrigando-se contra uma chusma de Ben-Hurs no Coliseu de Roma.
Os pequenos farolins de cor amarelada ou laranja, os chamados pisca-pisca que, quando utilizados com calma e oportunidade, emitem uma luz intermitente com o objectivo de comunicar o sentido de uma mudança de direcção que se avizinha, são coisa de paneleiros: " Um gajo vira quando quer, olha o caralho, e quer que se foda".
A Sancha é da opinião que os besuntas automobilizados o que querem é poupar os piscas para os usarem nas árvores de Natal. Talvez.
Conheço um tipo que um dia, num cruzamento qualquer em Lisboa e prestes a ser cilindrado por um besunta destes, estacou o carro, saiu e dirigiu-se em passos rápidos à guarita do alarve que o ia abalroando. Num tom ríspido e autoritário que não admitia contestação berrou: " A carta!" . O besunta, persuadido de que se encontrava perante uma autoridade, de pronto lha apresentou. O tipo abriu a carta (nesse tempo era um desdobrável em cartolina cor de rosa), confirmou que a fotografia era a do assassino que quase o rebentara, voltou a fechá-la e rasgou-a em quatro devolvendo-a em seguida. Diz ele que jamais se esqueceu da expressão do outro, imóvel no cruzamento enquanto ele arrancava rindo à gargalhada.
terça-feira, junho 28, 2005
segunda-feira, junho 20, 2005
Meteoropirologia
É uma nova forma de meteorologia que inclui a previsão de incêndios no território de Portugal ao classificar determinadas zonas como de "risco máximo", "alto risco" e "em risco".
Este serviço, pasme-se, é fornecido pelo Instituto Nacional de Meteorologia.
Como a canícula ou os nevões, os incêndios passaram a ser um fenómeno meteorológico natural previsível e sazonal.
Este serviço, pasme-se, é fornecido pelo Instituto Nacional de Meteorologia.
Como a canícula ou os nevões, os incêndios passaram a ser um fenómeno meteorológico natural previsível e sazonal.
quarta-feira, junho 15, 2005
Perante a crescente onda de contestação às reformas embrionárias deste governo, Sócrates manobra à esquerda decretando hoje, o dia do funeral de Álvaro Cunhal, dia de luto nacional.
Coincidência ou não, eis que se calam as cortesãs ofendidas aquando do último dia de luto nacional: o dia do funeral da Irmã Lúcia.
.............................................................****
Sai de cena quem não é de cena, diz mecânicamente sorrindo António Guterres quando questionado sobre a sua saída de líder da Internacional Socialista. Provávelmente a frase que ele mais ouviu na última campanha eleitoral em Portugal.
.............................................................****
Boato 1 : Por exclusão de partes à esquerda, Mário Soares vai-se candidatar a Presidente da República.
Boato 2 : Por reflexo, Freitas do Amaral candidata-se também.
Boato 3 : Por fastio, Mário Soares desiste da sua candidatura a Belém.
Boato 4 : Por arrastão, Nino Vieira aparece na corrida.
Coincidência ou não, eis que se calam as cortesãs ofendidas aquando do último dia de luto nacional: o dia do funeral da Irmã Lúcia.
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Sai de cena quem não é de cena, diz mecânicamente sorrindo António Guterres quando questionado sobre a sua saída de líder da Internacional Socialista. Provávelmente a frase que ele mais ouviu na última campanha eleitoral em Portugal.
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Boato 1 : Por exclusão de partes à esquerda, Mário Soares vai-se candidatar a Presidente da República.
Boato 2 : Por reflexo, Freitas do Amaral candidata-se também.
Boato 3 : Por fastio, Mário Soares desiste da sua candidatura a Belém.
Boato 4 : Por arrastão, Nino Vieira aparece na corrida.
segunda-feira, junho 13, 2005
Razoávelmente improvável
A existência de uma campanha para a beatificação imediata de Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal.
domingo, junho 12, 2005
Post mortem
Quando releio as opiniões da nomenklatura republicana sobre quem foi Vasco Gonçalves relembro que tanto Salazar como Hitler, Estaline e Fidel Castro (este ainda moribundo) foram pessoas coerentes de convicções determinadas e que acreditavam em ideais fortes.
sexta-feira, junho 10, 2005
quinta-feira, junho 09, 2005
Verão quente de 2005
1. Diogo Freitas do Amaral prepara a sua candidatura a Belém, sendo acusado de protagonismo por sublinhar o óbvio: que este Tratado para uma Constituição Europeia é inviável.
2. Por causa disso António Vitorino irritou-se, percebendo que jamais será candidato às presidenciais de 2006.
3. Sócrates manobra à direita recorrendo a medidas drásticas para a redução da despesa pública. Os deputados republicanos do PS não gostaram. Ao ponto de alguns deles estarem dispostos a pôr os lugares à disposição.
4. O reconhecimento da inevitabilidade sazonal dos incêndios comprova em definitivo o que se suspeitava há muito: que os fogos em Portugal dão de comer a muita gente.
5. Segundo a Única da semana passada, prevê-se uma mudança radical nas cores da bandeira nacional, nomeadamente a substituição do verde/vermelho pelo azul, obedecendo assim ao princípio universal que estipula uma mudança de logo quando se quer melhorar a performance de uma marca no mercado...
2. Por causa disso António Vitorino irritou-se, percebendo que jamais será candidato às presidenciais de 2006.
3. Sócrates manobra à direita recorrendo a medidas drásticas para a redução da despesa pública. Os deputados republicanos do PS não gostaram. Ao ponto de alguns deles estarem dispostos a pôr os lugares à disposição.
4. O reconhecimento da inevitabilidade sazonal dos incêndios comprova em definitivo o que se suspeitava há muito: que os fogos em Portugal dão de comer a muita gente.
5. Segundo a Única da semana passada, prevê-se uma mudança radical nas cores da bandeira nacional, nomeadamente a substituição do verde/vermelho pelo azul, obedecendo assim ao princípio universal que estipula uma mudança de logo quando se quer melhorar a performance de uma marca no mercado...
quarta-feira, junho 08, 2005
Mais do mesmo, servido a quente
A elevação da desgraça miserável dos incêndios em Portugal à categoria de acontecimento sazonal inevitável pressupõe a sua eternização em forma de fado recorrente sendo, por isso, perigosa.
Em Agosto de 2004, a revista Grande Reportagem publicou um excelente trabalho de Pedro Almeida Vieira sobre as diferenças de abordagem do problema dos incêndios em Espanha e em Portugal. Num post de 30 de Dezembro de 2004 reproduzi, na íntegra, o texto desse trabalho.
Dar a conhecer essa diferença de abordagens de um mesmo problema grave é importante.
Uma coisa é o poder republicano convencer as suas hostes que, pobres coitadas jamais conheceram outra realidade, todo o trabalho possível está a ser feito, que os investimentos na prevenção e combate aos incêndios são muitos e por demais evidentes, e que a crise económica que Portugal agora atravessa não dá para mais.
Outra coisa é as hostes cá do reino terem acesso a informação que lhes mostre e prove, por a + b , que o regime republicano mente com quantos dentes tem nas fauces, interessado como está em perpetuar um status quo que favorece a especulação imobiliária e a degradação gradual e permanente de um património que é de todos inviabilizando uma qualidade de vida a que todos temos direito.
Agora a sério. Encham-se de paciência e leiam o trabalho de investigação que o Pedro Almeida Vieira levou a cabo na Andaluzia "(...) território com uma dimensão geográfica idêntica à de Portugal Continental e com uma área florestal de cerca de 4,3 milhões de hectares, há mais de uma década que os incêndios deixaram de ser uma fatalidade. Entre 1995 e 2003, por exemplo, a Andaluzia perdeu menos floresta e mato do que Portugal em 24h de alguns dias de Agosto do ano passado. (...)
Em Agosto de 2004, a revista Grande Reportagem publicou um excelente trabalho de Pedro Almeida Vieira sobre as diferenças de abordagem do problema dos incêndios em Espanha e em Portugal. Num post de 30 de Dezembro de 2004 reproduzi, na íntegra, o texto desse trabalho.
Dar a conhecer essa diferença de abordagens de um mesmo problema grave é importante.
Uma coisa é o poder republicano convencer as suas hostes que, pobres coitadas jamais conheceram outra realidade, todo o trabalho possível está a ser feito, que os investimentos na prevenção e combate aos incêndios são muitos e por demais evidentes, e que a crise económica que Portugal agora atravessa não dá para mais.
Outra coisa é as hostes cá do reino terem acesso a informação que lhes mostre e prove, por a + b , que o regime republicano mente com quantos dentes tem nas fauces, interessado como está em perpetuar um status quo que favorece a especulação imobiliária e a degradação gradual e permanente de um património que é de todos inviabilizando uma qualidade de vida a que todos temos direito.
Agora a sério. Encham-se de paciência e leiam o trabalho de investigação que o Pedro Almeida Vieira levou a cabo na Andaluzia "(...) território com uma dimensão geográfica idêntica à de Portugal Continental e com uma área florestal de cerca de 4,3 milhões de hectares, há mais de uma década que os incêndios deixaram de ser uma fatalidade. Entre 1995 e 2003, por exemplo, a Andaluzia perdeu menos floresta e mato do que Portugal em 24h de alguns dias de Agosto do ano passado. (...)
Contra factos não há argumentos.
Há um post no Nova Floresta que, além de excelente, deita por terra um dos maiores argumentos dos defensores do regime republicano, nomeadamente o da "mais que certa onerosa sumptuosidade de uma família real" argumento preferido por alguns dos Afonsos Costas de bolso que por cá vêm parasitando o reino. A ler aqui.
segunda-feira, junho 06, 2005
Viva a República...
Os termos em que o Presidente do Governo Regional da Madeira se referiu aos seus críticos, as palavras utilizadas e a postura arrogante mais uma vez adoptada são corolários inevitáveis de uma carreira política baseada no insulto, no recurso sistemático à provocação, que sabe incólume, e que, com assento permanente no Conselho de Estado, diz bem que tipo de regime é este que permite que entre os membros do seu Conselho de Estado se encontrem espécimes deste calibre. Qual ébrio acometido de irresistíveis impulsos urinários, a criatura asperge onde calha, para cima, para baixo e para os lados, feito rafeiro incontinente em frenética marcação territorial.
Ah, carago. Houvesse Rei nesta terra e esse carroceiro era corrido à bofetada.
Ah, carago. Houvesse Rei nesta terra e esse carroceiro era corrido à bofetada.
sexta-feira, junho 03, 2005
A caminho de Olivença
O Dragão, incontornável figura da B.L.U.S.A., (blogosfera lusa) através de mais uma flamejante invectiva escrita, exorta as hostes de forma eloquente, dramática e decisiva, sobre a melhor estratégia para a recuperação de Olivença, essa terra de (...) olivenses (ou olivenceses, ou olivedosos, ou lá o que são)(...). Mesmo que os ditos cujos se arremelguem de espanto, desconforto e negação, e (... nos presentearem com umas lúgubres trombas cravejadas de olhos de carneiro mal morto absolutamente remelosos...). Afinal, (...) Depois do polícia global americano, esse bandalho inoxidável, chegou a hora do GNR global português, esse enigma biodegradável.(...). Cá por mim, só pararei Poitiers, carago!
Atente-se no entanto no seguinte: independentemente do sucesso ou insucesso de semelhante missão reconheça-se, e de uma vez por todas, que o Dragoscópio é do melhor que orbita a blogosfera cá do Reino.
Atente-se no entanto no seguinte: independentemente do sucesso ou insucesso de semelhante missão reconheça-se, e de uma vez por todas, que o Dragoscópio é do melhor que orbita a blogosfera cá do Reino.
quarta-feira, junho 01, 2005
Referendo
Aos franceses seguem-se os holandeses: mais um Não à vista.
Por cá, a pouco e pouco, a inteligentsia do Reino vai-se sentindo atraída pelo Não, essa aposta em coisa nenhuma, opção niilista, redutora e terminal. Mas se n Nãos ganharem, o que está feito continua feito; o Tratado de Nice manter-se-á em vigor, as decisões que afectarão cada membro da União continuarão a ser tomadas. Só que tudo isso mais lentamente. Com a velocidade a que a China e a Índia se preparam para tomar de assalto a economia mundial, essa lentidão de reflexos, que se prevê europeia, não augura nada de bom; nunca há nada de bom do lado do Dr. Louçã e do lado do Sr. Le Pen. Ainda por cima quando ambos estão do mesmo lado. Só mais uma coisa: acreditem que a China jamais estará disposta a continuar a pagar tão caro o petróleo de que necessita para cilindrar económicamente o Ocidente. Mal acabem os Olímpicos de 2008, barriquem-se.
Post Scriptum: A verdadeira razão do Não francês e Holandês é esta: Ma$$a. Os gajos já deram para o peditório dos pobres do Sul, e não querem continuar a dar para o peditório dos pobres do Leste. O resto é retórica.
Por cá, a pouco e pouco, a inteligentsia do Reino vai-se sentindo atraída pelo Não, essa aposta em coisa nenhuma, opção niilista, redutora e terminal. Mas se n Nãos ganharem, o que está feito continua feito; o Tratado de Nice manter-se-á em vigor, as decisões que afectarão cada membro da União continuarão a ser tomadas. Só que tudo isso mais lentamente. Com a velocidade a que a China e a Índia se preparam para tomar de assalto a economia mundial, essa lentidão de reflexos, que se prevê europeia, não augura nada de bom; nunca há nada de bom do lado do Dr. Louçã e do lado do Sr. Le Pen. Ainda por cima quando ambos estão do mesmo lado. Só mais uma coisa: acreditem que a China jamais estará disposta a continuar a pagar tão caro o petróleo de que necessita para cilindrar económicamente o Ocidente. Mal acabem os Olímpicos de 2008, barriquem-se.
Post Scriptum: A verdadeira razão do Não francês e Holandês é esta: Ma$$a. Os gajos já deram para o peditório dos pobres do Sul, e não querem continuar a dar para o peditório dos pobres do Leste. O resto é retórica.
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